Defendido na PUCRS, estudo de Felipe de Assunção Soriano comprova a origem de documento do século XVI e analisa como a formação europeia influenciou o ensino em Piratininga
A confirmação da autenticidade de um manuscrito do século XVI atribuído a José de Anchieta marca um momento histórico para a memória da capital paulista. O achado e suas análises integram a tese de doutorado intitulada “ENTRE A CRÍTICA E A TRADIÇÃO: A CONSTRUÇÃO DA AUTORIA NUM MANUSCRITO ATRIBUÍDO A JOSÉ DE ANCHIETA”, desenvolvida pelo historiador e pesquisador Felipe de Assunção Soriano, no programa de Pós-Graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), na área de concentração em Cultura e Etnicidade.
Sob orientação do Prof. Dr. Edison Hüttner, o trabalho do pesquisador passou por rigorosas análises técnicas, exames materiais e validação acadêmica. A tese foi examinada em banca acadêmica com a participação internacional da Prof.ª Dra. Maria de Deus Beites Manso, docente da prestigiada Universidade de Évora (Portugal) e referência nos estudos da Companhia de Jesus e do período colonial.
A validação científica do chamado Manuscrito de Maniçoba envolveu exames de microscopia eletrônica de varredura e o estudo de marcas-d’água realizados em Toledo, na Espanha, identificando a fabricação do papel em 1568. A descoberta ilumina lacunas sobre a trajetória juvenil de Anchieta em Portugal e explica como os métodos pedagógicos do Colégio das Artes de Coimbra foram decisivos para a estruturação do Colégio de Piratininga e a consolidação da vila de São Paulo.
Sobre a conclusão do estudo, o pesquisador é categórico: “Diante das evidências encontradas, não há dúvidas sobre a autoria anchietana do manuscrito. As evidências materiais e intelectuais somam-se oferecendo força à autoria anchietana do Manuscrito de Maniçoba”, cravou Felipe de Assunção Soriano.
Abaixo, acompanhe a entrevista exclusiva com o autor da tese sobre o impacto e os desdobramentos dessa descoberta histórica.
ASP News — Qual é a contribuição de sua pesquisa para a história de São Paulo e do Brasil?
R (Felipe de Assunção Soriano) — A descoberta desse manuscrito anchietano lança luz sobre vários episódios da vida do poeta que não foram suficientemente desenvolvidos por seus biógrafos.
Para a biografia de Anchieta, sabemos que seu nome era bastante conhecido entre os alunos de Coimbra. Mas, em um universo de quase 1.500 estudantes do Colégio das Artes, como um jovem não lusitano alcançaria tamanho reconhecimento? Segundo seus biógrafos, os exercícios públicos, os concursos e as disputas de recitação poética podem explicar esse feito. Essas atividades eram tão importantes que, ao demonstrar um bom desempenho, o aluno poderia até avançar para as classes seguintes. Essa hipótese explicaria como José de Anchieta se tornou tão conhecido entre seus colegas, chegando a receber deles um apelido peculiar.
Quem nos revela esse fato é o bispo que o ordenou sacerdote no Brasil, Dom Pero Leitão. Até o momento, essas ideias eram apresentadas apenas como presunções para explicar como o jovem poeta das Ilhas Canárias passou a ser chamado de “Canário de Coimbra”. O Manuscrito de Maniçoba confirma a prática de promover concursos e recitação pública entre os alunos, pois nele encontramos vários epigramas em honra à Rainha Santa Isabel. Essa devoção era celebrada por meio de concursos aguardados por toda a cidade, constituindo uma excelente oportunidade para que poetas habilidosos demonstrassem seus dons.
ASP News — E qual é o impacto específico dessas descobertas para a história da cidade de São Paulo?
R (Felipe) — Os biógrafos descreveram o Colégio de Piratininga à luz do esforço heroico do jovem José de Anchieta, que atravessava as noites produzindo os materiais didáticos necessários para as aulas. Contudo, a originalidade do itinerário educativo iniciado em Piratininga permanecia respaldada pela experiência adquirida no Colégio das Artes de Coimbra.
O ritmo didático do Colégio das Artes ocupava todo o dia e compreendia aulas expositivas, trabalhos individuais, exercícios, revisão do professor, reelaboração das atividades e apresentações públicas. A dinâmica do Colégio de Piratininga não era menos exigente, pois incluía também a necessidade de prover os recursos necessários ao próprio sustento. Muitas vezes, solicitava-se ao aluno que reelaborasse composições conhecidas, modificando o metro poético ou o gênero narrativo, adaptando modelos trazidos da Europa ao ambiente local.
Sabe-se que, em Coimbra, eram realizados exercícios de campo nos quais os alunos descreviam a paisagem e as riquezas naturais às margens do rio Mondego. Encontramos essa mesma sensibilidade nos escritos anchietanos, como na carta de São Vicente, de 1560. Nela, as belezas naturais da fauna e da flora brasileiras passam a ser tomadas como referências estéticas. O Manuscrito de Maniçoba apresenta um bom exemplo dessa orientação ao confirmar a circulação de composições epigramáticas e material dramático, onde as virtudes da Virgem Maria passam a ser descritas a partir das riquezas naturais do Brasil — como mais bela do que as flores, a praia, a relva e o próprio dia.
ASP News — Como seu trabalho contribui para entender o papel de José de Anchieta como fundador de São Paulo, ao lado de Manuel da Nóbrega?
R (Felipe) — O Manuscrito de Maniçoba confirma a forma particular pela qual o jovem José de Anchieta pode ser reconhecido também como fundador de São Paulo. O ato de fundar uma aldeia ou uma missão não se limita a uma decisão administrativa. A consolidação do trabalho e a fixação das populações locais exigem tempo, constância e uma dinâmica própria.
Esse aspecto faz toda a diferença quando comparamos a aldeia de Piratininga com a de Maniçoba, situada nas proximidades do Colégio de São Paulo. Os quase nove anos de trabalho ativo de José de Anchieta constituíram o principal fator que garantiu o sucesso inicial da missão. Os apontamentos didáticos desse período, seja como memória da formação recebida em Coimbra, seja como recurso destinado ao ensino, confirmam seu labor apostólico e conferem um papel singular à sua ação missionária. O equívoco seria compreender a atuação de Nóbrega e a de Anchieta de maneira desconectada, pois ambos constituem fios de uma mesma trama histórica.
ASP News — Quais análises e exames foram necessários para comprovar a autenticidade do documento?
R (Felipe) — O Manuscrito de Maniçoba reúne exercícios escolares, materiais didáticos e apontamentos pessoais reorganizados como uma selecta latina. O manuscrito faz memória de acontecimentos anteriores e posteriores à fabricação do papel, produzido em Toledo, na Espanha, em 1568, mediante o emprego de um moinho de pedra.
Para confirmar sua autenticidade, recorremos a um exame de microscopia eletrônica de varredura e a um estudo da marca-d’água, também denominada filigrana. Como os fólios medem aproximadamente 10 cm × 7 cm, as marcas-d’água aparecem cortadas. A investigação identificou que o papel foi fabricado com pasta de trapos macerados.
Confirmada a autenticidade do papel, iniciamos a análise comparada. É comum, na escrita poética anchietana, o reaproveitamento de figuras e representações estilísticas, mas com uma importante ressalva: Anchieta reelabora esses elementos sem simplesmente se autocopiar. Essa característica torna-se perceptível nos autos catequéticos e em sua prática poética. A combinação desses elementos, a identificação dos silogismos e o exame dos aspectos materiais oferecem um conjunto expressivo de evidências que apontam para a arte poética, a trajetória intelectual e a biografia de José de Anchieta.
Uma imagem da marca-d’água identificada no manuscrito, acompanhada de uma explicação

Descoberta histórica do manuscrito do Padre José de Anchieta, composto por 277 folios. Foto: Felipe de Assunção Soriano.
Os fólios medem aproximadamente 10 cm × 7 cm. Por essa razão, as marcas-d’água, também denominadas filigranas, aparecem cortadas no Manuscrito de Maniçoba. A investigação identificou que o papel foi fabricado com pasta de trapos macerados em moinho de pedra, na cidade de Toledo, Espanha, em 1568.

Aspectos das páginas 211 e 225: Instituto do Patrimônio Cultural da Espanha Arquivo Municipal de Espanha, registro nº 00006119A; signatura: 11; descrição: serpiente (Toledo, Espanha, 1568). Imagem: Felipe de Assunção Soriano
O refúgio em Iperoig e o poema traçado na areia
A capacidade poética e a devoção destacadas no estudo refletem episódios marcantes da vida de Anchieta no Brasil. Um dos mais conhecidos ocorreu durante as negociações do Armistício de Iperoig — no contexto da Guerra dos Tamoios —, conduzidas pelo Padre Manuel da Nóbrega.

Retrato do Padre José de Anchieta (1902), pintura a óleo sobre tela (140,5 cm × 101 cm) de Benedito Calixto. A obra foi encomendada e integra o acervo do Museu Paulista da USP (Museu do Ipiranga).
Anchieta voluntariou-se como refém nas praias de Ubatuba (Iperoig). Durante os cerca de cinco meses em que permaneceu sob confinamento e ameaça constante dos indígenas, o jesuíta compôs o célebre Poema à Virgem Maria (De Beata Virgine Dei Matre Maria), uma obra monumental de 5.786 versos em latim.
Sem papel ou tinta à disposição, Anchieta utilizou um caniço para traçar os versos nas areias da praia, memorizando cada estrofe até que pudesse transcrevê-las no papel ao retornar a São Vicente. Sua trajetória de fé e dedicação levou-o à beatificação em 1980, pelo Papa João Paulo II, e à canonização em 2014, pelo Papa Francisco, sendo oficialmente reconhecido como São José de Anchieta.

Poema à Virgem Maria, obra de Benedito Calixto. O quadro retrata Anchieta escrevendo seus versos em latim nas areias de Iperoig (atual praia do Cruzeiro, Ubatuba-SP) em 1563, durante o período em que permaneceu como refém dos indígenas ao longo das negociações do Armistício de Iperoig, no contexto da Guerra dos Tamoios.
Destaque – Páginas 1, 2 e 3 do Manuscrito de José de Anchieta de 10 cm x 7 cm. Fotos: Felipe de Assunção Soriano / Imagem: +aloart



