O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos de uma partida. Era impossível separar o time do sentimento de pertencimento ao País. Nesta Copa do Mundo, porém, ficou evidente que algo precisa de profunda reflexão.

O desempenho abaixo do esperado, com a amarga eliminação do elenco brasileiro nas oitavas-de-final do torneio, não pode ser explicado, tão somente, por aspectos técnicos ou táticos. Afinal, talento nunca foi um problema para o nosso futebol. Continuamos formando jogadores que brilham nos maiores clubes do mundo e acumulam títulos individuais. Falta, por outro lado, um detalhe muito mais difícil de mensurar: o real significado de vestir a camisa amarela.

Em campo, na Copa do Mundo 2026, enquanto o Brasil encontrou dificuldades para transformar talento em desempenho coletivo, outras seleções demonstraram uma característica que faz toda a diferença: forte senso de identidade e coletividade.

A Argentina é um exemplo claro disso. O time hermano também enfrentou, no decorrer do mundial, adversários complicados, indiscutivelmente ofensivos. Mas havia conexão visível entre os atletas, garra e o orgulho de representar a nação.

Grandes conquistas nem sempre pertencem aos elencos mais habilidosos, mas, frequentemente, às equipes que jogam umas pelas outras, que entendem o peso do escudo que carregam e que transformam identidade em combustível. Talvez, seja esta uma análise importante também para além das quatro linhas.

Vale lembrar que, nos últimos anos, o Brasil passa por intenso processo de polarização política e social. Infelizmente, até símbolos nacionais passaram a ser vistos, muitas vezes, sob lentes ideológicas. A própria camisa da Seleção, que durante décadas foi um patrimônio afetivo de todos os brasileiros, acabou sendo associada a disputas políticas.

Quando um País perde a capacidade de compartilhar seus próprios símbolos, vai-se, também, parte do sentimento de comunidade. E, nenhuma sociedade prospera quando deixa de reconhecer aquilo que une pessoas com ideias diferentes.

Patriotismo não significa intolerância, exclusão ou superioridade sobre outros povos – é sentir orgulho da própria história, respeitar os símbolos nacionais, celebrar conquistas coletivas e compreender que existem causas maiores do que nossas diferenças individuais.

A Copa do Mundo nos deixa um ensinamento que transcende o futebol: o de que nenhuma nação coleciona grandes resultados apenas com talento. Empresas, afinal, não crescem somente contando com profissionais qualificados. Cidades não se transformam unicamente tendo à frente bons gestores. Países não avançam só com recursos naturais ou potencial econômico. Tudo depende de um ingrediente invisível, porém decisivo: o sentimento de fazer parte de um todo. Na vida em sociedade, isto se reflete no compromisso com o bem comum, no respeito às instituições, na valorização da Cultura e no orgulho de se construir uma pátria melhor.

Esta Copa nos convida, por fim, a uma pergunta profunda: o que significa representar o Brasil? Porque, aptidões continuam existindo. O que não podemos permitir é que falte amor à nossa camisa – dentro e fora dos gramados.


Paulo Serra – Especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


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