Nova edição do Índice de Democracia Ambiental revela que estados falham gravemente em garantir a segurança de lideranças, além de apontar gargalos em transparência e participação social.


Quatro anos após os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips no Vale do Javari, os estados da Amazônia Legal continuam falhando em proteger quem atua na defesa do território e do meio ambiente. Essa é a conclusão central da segunda rodada do Índice de Democracia Ambiental (IDA), divulgado pelo Instituto Centro de Vida (ICV) e pela Transparência Internacional – Brasil.

O levantamento avaliou os nove estados da região e o governo federal em quatro dimensões fundamentais: acesso à informação, acesso à participação, acesso à justiça e proteção de defensores ambientais. A média geral dos estados ficou em 40,8 pontos (em uma escala de 0 a 100), resultado considerado apenas regular. Enquanto a União alcançou uma classificação boa, com 70,7 pontos, o desempenho local escancara a vulnerabilidade da floresta e de seus protetores.

Entre os estados avaliados, quatro obtiveram classificação regular: Mato Grosso (56,7 pontos), Pará (55,3), Amazonas (43,8) e Maranhão (41,9). Os outros cinco entes registraram índices ruins: Tocantins (39,6), Rondônia (36,2), Amapá (35,8), Acre (35,5) e Roraima, que obteve o menor desempenho geral, com apenas 22,8 pontos.

 

 

O perigo de defender a floresta

A dimensão focada na Proteção de Defensores Ambientais se destacou como a mais crítica do estudo, registrando uma média alarmante de apenas 15,1 pontos entre os estados. Roraima teve o pior desempenho isolado, atingindo a marca de 0,8 pontos. Nenhum estado da Amazônia Legal oferece proteção minimamente satisfatória, e mesmo o mais bem posicionado, Mato Grosso, alcançou somente 36,4 pontos. Em contrapartida, a União obteve 62,8 pontos, nota considerada boa.

O mapeamento revelou que apenas Maranhão, Pará e Mato Grosso possuem programas estaduais específicos de proteção, mas todos enfrentam sérios problemas estruturais, como baixo orçamento e equipes reduzidas. A fragilidade é ainda mais preocupante diante do cenário global: dados da Global Witness apontam o Brasil como o 4º país mais letal do mundo para ambientalistas, com 12 mortes registradas em 2024.

“Nesse contexto, defensoras e defensores ambientais exercem um papel fundamental ao denunciar esses ilícitos e pressionar por responsabilização. Os resultados do IDA mostram, porém, que a proteção dessas pessoas ainda é extremamente insuficiente. Fortalecer essa agenda é fortalecer também a capacidade do Estado de combater a corrupção, enfrentar o crime organizado e proteger a floresta”, explicou Olívia Ainbinder, coordenadora do Programa de Integridade Socioambiental da Transparência Internacional – Brasil.

Os principais gargalos identificados nessa área envolvem a falta de mecanismos para proteger populações indígenas e comunidades tradicionais, a ausência de monitoramento de violência contra comunicadores e deficiências na atuação das forças de segurança, incluindo a falta de protocolos para o uso de câmeras corporais em conflitos fundiários.

 

 

Justiça avança, mas informação e participação patinam

Se a proteção é precária, o Acesso à Justiça Ambiental despontou como a dimensão mais bem avaliada, com média de 65,9 pontos entre os estados. O avanço é atribuído à criação de novas estruturas especializadas em questões agrárias e ambientais pelo Judiciário, Ministério Público e Defensorias Públicas. O Pará lidera este quesito com 84,8 pontos — a única classificação “ótima” do relatório —, enquanto Roraima amarga o pior resultado, com 38,7 pontos.

Já o Acesso à Informação obteve média regular de 44,7 pontos, expondo que pouco mais da metade dos dados sobre exploração florestal e licenciamento está disponível, frequentemente de forma desatualizada ou incompleta. A maior disparidade ocorre entre Mato Grosso (74,3 pontos) e Maranhão (27,2 pontos).

A participação social permanece como outro gargalo estrutural na Amazônia, registrando média ruim de 37,6 pontos. Espaços decisórios como conselhos de meio ambiente e audiências públicas carecem de inclusão e transparência. O pior cenário está em Roraima (12,3 pontos, péssimo) e o “melhor” em Tocantins (49,4 pontos, regular).

“Os resultados do IDA desse ano mostram que os estados da Amazônia Legal ainda estão muito distantes de um cenário adequado e que proteger a floresta, proteger os defensores e garantir participação social ainda não são tratados como uma prioridade. O IDA aponta para os problemas, mas também entrega um mapa do que precisa mudar para que possamos ter um avanço real na agenda ambiental”, explicou a pesquisadora Júlia Mariano, analista socioambiental do Instituto Centro de Vida.

 

Maria do Espírito Santo, extrativista assassinada em 2011 por denunciar a grilagem e o desmatamento ilegal em Nova Ipixuna (PA). Quinze anos depois, a proteção a defensores ambientais segue sendo o ponto mais frágil da Amazônia Legal. Foto: Mídia Ninja

 

O caminho para a governança socioambiental

Para reverter o diagnóstico, as organizações responsáveis pelo índice propõem uma série de recomendações urgentes para os governos estaduais e a União:
• Aprovação do Acordo de Escazú: Ratificação pelo Senado Federal do tratado regional que fortalece o acesso à informação, à participação e à justiça ambiental;
• Aporte de recursos: Fortalecimento financeiro e humano dos programas de proteção a defensores ambientais;
• Transparência ativa: Disponibilização de dados ambientais essenciais em formatos abertos e reutilizáveis;
• Estruturas especializadas: Criação de núcleos voltados ao meio ambiente e direitos indígenas nas polícias e no Judiciário, com a adoção de medidas de justiça itinerante;
• Paridade social: Aprimoramento de conselhos e audiências públicas para assegurar a inclusão real das comunidades afetadas.


Destaque – Garimpo na região do Homoxi na Terra Indígena Yanomami. Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real/2021


Leia outras matérias desta editoria

Transparência Internacional: proteção de defensores ambientais na Amazônia é péssima, aponta estudo

Nova edição do Índice de Democracia Ambiental revela que estados falham gravemente em garantir a segurança de lideranças, além de apontar gargalos em transparência e participação social. Quatro anos após os assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do...

Águas-vivas podem gerar lucros a pescadores, mostra estudo na costa ocidental da Espanha

Como a captura acidental de águas-vivas pode ser uma valiosa fonte de colágeno para cosméticos e biotecnologia. Redação | AT & ASP News / com as informações da Frontiers As coautoras de um novo artigo da revista Frontiers in Marine Science que...

A Análise SWOT revela uma nova perspectiva sobre nossas vias navegáveis

Missão espacial SWOT permite, pela primeira vez, monitorar rios em escala global e em tempo quase contínuo, revelando novas dinâmicas dos sistemas hídricos da Terra. Descubra como os rios se movem, se transformam e sustentam a vida em todo o planeta,...

3ª pista da Imigrantes avança após aval ambiental em SP e terá o maior túnel rodoviário do Brasil, vídeo

Com 81% do trajeto em túneis, obra estratégica para o Porto de Santos deve ampliar capacidade do sistema em até 25% O projeto da terceira pista do Sistema Anchieta-Imigrantes deu um passo decisivo para sair do papel. O Consema aprovou o parecer técnico da...

São Paulo é destaque mundial: ONU reconhece projetos verdes e cidade vira referência em sustentabilidade

Projetos ambientais, arborização recorde e premiações internacionais consolidam a capital paulista como modelo de cidade sustentável no mundo e a integram à publicação do ONU-Habitat. A capital paulista tem se destacado internacionalmente por iniciativas...

Diminuição de presas aumenta risco de extinção da onça-pintada na Mata Atlântica

Estudo aponta que a disponibilidade de alimento para o maior felino das Américas é determinante para sua ocorrência no interior de unidades de conservação do bioma, que abrange cerca de 15% do território brasileiro Elton Alisson | Agência FAPESP Além da...

10 anos do rompimento da Barragem de Fundão em Mariana, Minas Gerais — documentário

No dia 5 de novembro de 2015, uma tragédia socioambiental estava acontecendo. Um mar de lama com odores insuportáveis se deslocou por horas pelos cursos de três rios, arrastando tudo pela frente até chegar ao Oceano Atlântico, no litoral do Espírito Santo....