Aumento da demanda provocado pelo Mundial de 2026 e incertezas no comércio internacional expõem fragilidades operacionais de empresas que cresceram em vendas, mas falham na gestão de entregas
A proximidade da Copa do Mundo de 2026 e o avanço das discussões globais sobre uma possível tarifa adicional de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros acenderam o alerta no varejo digital. Em um momento marcado pelo pico de consumo, pressão sobre custos e imprevisibilidade nas cadeias de abastecimento, especialistas alertam: o principal desafio para os e-commerces não será vender mais, mas conseguir entregar com eficiência.
Para Carlos Tanaka, empresário e especialista em logística e operações da Orange Envios, o cenário atual prova que a distribuição deixou de ser uma área de suporte para se tornar um fator crítico de competitividade.
“Eventos como a Copa do Mundo costumam provocar aumentos relevantes na demanda em diversas categorias do varejo. Nesse cenário, empresas que não possuem flexibilidade operacional acabam sentindo mais rapidamente os impactos sobre prazo, custo e experiência do cliente”, afirma Tanaka.
O movimento coincide com a forte expansão do comércio eletrônico nacional. Segundo projeções da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o setor deve movimentar mais de R$ 259 bilhões em 2026, impulsionado pelo consumo digital e pela consolidação dos grandes marketplaces. Contudo, o crescimento acentuado expõe gargalos operacionais que costumam passar despercebidos em períodos de calmaria.
O gargalo real: a falta de inteligência operacional
Para Wagner Righetti, especialista em tecnologia para logística, transporte e automação operacional, o nó da questão raramente está no volume de pacotes em si, mas sim na ausência de sistemas integrados capazes de processar dados em tempo real.
“Muitas empresas cresceram comercialmente, mas continuam operando com processos que dependem de decisões manuais. Quando a demanda aumenta ou o cenário econômico muda, a falta de inteligência operacional acaba se transformando em atrasos, custos adicionais e perda de eficiência”, pontua Righetti.
Com mais de duas décadas de experiência em Tecnologia da Informação, Righetti — que fundou sua primeira empresa aos 21 anos e desenhou soluções para marcas como JadLog, PostalGow, MTLOG Brasil, Address Logística, Bradesco, Itaú Unibanco e EBX — ressalta que a gestão logística moderna exige total integração de dados.
“Não é apenas uma questão de ter mais transportadoras disponíveis. É preciso ter tecnologia para decidir qual delas utilizar, redistribuir cargas quando necessário, acompanhar indicadores de desempenho e adaptar a operação rapidamente conforme o comportamento da demanda”, complementa.
Logística como ferramenta de blindagem e gestão de risco
A proposta do governo norte-americano para aplicar novas tarifas sobre produtos brasileiros segue em fase de consulta pública. Ainda assim, a movimentação geopolítica bastou para forçar as empresas que dependem de insumos internacionais ou exportações a redesenharem suas rotas.
A combinação de eventos esportivos de massa, picos de consumo e atritos comerciais internacionais exige o desenvolvimento de cadeias de suprimentos resilientes. Para Righetti, os negócios que operam de forma automatizada conseguem reagir a imprevistos — como falta de insumos ou paralisação de frotas — de forma imediata. Aqueles que dependem de controles manuais ou planilhas isoladas ficam vulneráveis à volatilidade do mercado.
Tecnologia dita o ritmo de crescimento dos e-commerces
O nível de exigência dos consumidores digitais em relação a prazos, rastreabilidade e preços de frete transformou a tecnologia no principal divisor de águas entre o sucesso e o prejuízo no e-commerce. A nova era do setor baseia-se em automação, análise de dados (big data) e Inteligência Artificial.
○ Tomada de decisão automatizada: Sistemas escolhem instantaneamente a melhor transportadora para cada CEP com base em custo e prazo;
○ Logística preditiva: Algoritmos de IA analisam o histórico para prever picos de demanda por região e otimizar rotas antes dos caminhões irem para a rua;
○ Mitigação de riscos: Identificação de gargalos operacionais e atrasos nas rotas em tempo real, permitindo o desvio de cargas antes do impacto ao cliente final.
“Estamos entrando em uma fase em que a logística se torna mais preditiva do que reativa. As empresas que conseguirem utilizar dados e automação para antecipar problemas terão vantagem competitiva importante nos próximos anos”, projeta Righetti.
O teste de fogo da Copa do Mundo de 2026
O Mundial de futebol funcionará como o principal laboratório de estresse para a infraestrutura logística brasileira neste ano. Setores voltados para eletroeletrônicos (como televisores), artigos esportivos, vestuário, além do nicho de alimentos, bebidas e itens promocionais terão picos severos de vendas.
Carlos Tanaka conclui que o período separará as marcas amadoras das profissionais: “Os negócios que enxergam a logística apenas como custo tendem a reagir quando o problema já aconteceu. Os que tratam a operação como parte da estratégia conseguem crescer com mais previsibilidade, proteger margens e manter a experiência do cliente mesmo nos períodos de maior pressão”.
Destaque – Logística vai parar no centro da estratégia do e-commerce. Imagem: aloart / G.I.



