O Brasil está vivendo uma contradição que poucos querem discutir. Nunca foi tão fácil comprar. Mas, para milhões de brasileiros, continua sendo difícil receber. Enquanto o e-commerce bate recordes sucessivos de crescimento, a logística nacional segue avançando em velocidades diferentes dependendo do CEP. De um lado, vemos entregas em poucas horas, inteligência artificial otimizando rotas, centros de distribuição automatizados e promessas cada vez mais agressivas de rapidez. Do outro, existem comunidades, periferias, cidades médias e regiões remotas onde o básico ainda não foi resolvido: localizar um endereço, garantir previsibilidade na entrega e conectar pessoas ao mercado digital.

As projeções da ABComm mostram que o comércio eletrônico brasileiro movimentou cerca de R$ 235 bilhões em 2025. O número impressiona, assim como os mais de 414 milhões de pedidos realizados no ano anterior. Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: quem realmente está sendo beneficiado por esse crescimento?

A sensação é que boa parte do mercado passou a enxergar a logística apenas pela ótica da velocidade. A disputa acontece para saber quem entrega em menos horas, quem oferece o menor frete ou quem consegue prometer o same day delivery mais eficiente. A inovação se concentra quase exclusivamente na camada mais visível da operação, aquela que gera marketing, manchetes e diferenciação comercial. O problema é que velocidade não resolve desigualdade.

Quando analisamos os desafios reais da logística brasileira, percebemos que grande parte deles continua concentrada justamente onde há menos investimento. São áreas sem endereçamento estruturado, regiões com baixa conectividade, cidades que permanecem fora dos principais corredores logísticos e territórios onde modelos tradicionais simplesmente não funcionam.

Existe uma ilusão perigosa de que a mesma solução pode ser aplicada em qualquer lugar. Como se fosse possível replicar, em uma comunidade periférica ou em uma cidade isolada da Amazônia, o mesmo modelo operacional utilizado em bairros planejados dos grandes centros urbanos. Não funciona assim.

A logística brasileira ainda carrega uma visão excessivamente centralizada. Toda a tecnologia, todo o desenvolvimento e boa parte dos investimentos permanecem concentrados no primeiro nível da cadeia. A preocupação está em conquistar novos clientes, acelerar entregas e reduzir custos. Pouco se discute sobre como desenvolver a infraestrutura necessária para que regiões historicamente excluídas também possam participar desse avanço. O resultado é uma cadeia que cresce, mas cresce de forma desigual.

A última milha, considerada por especialistas uma das etapas mais complexas e caras da operação logística, continua sendo tratada muitas vezes apenas como um problema operacional. Na realidade, ela é um problema social, econômico e de inclusão. É justamente na última milha que se materializam as diferenças entre os vários Brasis que coexistem dentro do mesmo país.

A Pesquisa CNT de Rodovias de 2025 mostrou que gargalos de infraestrutura continuam presentes em grande parte da malha nacional. Ao mesmo tempo, estudos sobre conectividade revelam que milhões de brasileiros ainda possuem acesso limitado à internet de qualidade. Quando infraestrutura física e infraestrutura digital falham simultaneamente, a exclusão logística se torna inevitável e o mais curioso é que as soluções já existem.

Tecnologias de endereçamento digital, integração de operadores locais, inteligência territorial e novos modelos de distribuição já demonstram que é possível ampliar cobertura sem comprometer eficiência. O desafio não é tecnológico. É estratégico. Falta ao mercado compreender que inclusão logística não é custo. É expansão de mercado.

Empresas que enxergarem operadores locais como parceiros estratégicos, e não apenas como fornecedores, terão vantagem competitiva. Governos que investirem em conectividade e mobilidade criarão condições para o desenvolvimento econômico regional. E consumidores que exigirem cobertura mais ampla ajudarão a pressionar por uma transformação necessária.

O futuro da logística brasileira não será definido por quem entregar mais rápido em bairros que já possuem acesso a tudo. Será definido por quem conseguir levar eficiência, tecnologia e previsibilidade para os lugares onde elas ainda não chegaram. O e-commerce brasileiro já provou que sabe crescer. Agora precisa provar que consegue incluir.

Porque uma logística verdadeiramente moderna não é aquela que entrega mais rápido para poucos. É aquela que consegue entregar oportunidades para todos.


Leonardo Medeiros – COO e cofundador da naPorta, primeira logtech de impacto do Brasil, com experiência em logística e operações de ecommerce, tendo atuado em empresas como Ambev, Amazon e Mercado Livre.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


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