Inaugurada em 1926, hidrelétrica de Cubatão marcou a engenharia e a industrialização paulista. Complexo reúne 14 grupos geradores e preserva a memória de um século de transformações.
Em 10 de outubro de 1926, entrava em operação a primeira unidade da então Usina de Cubatão, empreendimento concebido para aproveitar os cerca de 720 metros de desnível da Serra do Mar e atender à crescente demanda por energia elétrica em São Paulo. Um século depois, a Usina Henry Borden continua integrada ao sistema elétrico e passa por investimentos de modernização.
Localizada em Cubatão, no sopé da Serra do Mar, a usina possui duas casas de força, uma externa e outra subterrânea, que reúnem 14 grupos geradores e capacidade instalada de 889 MW. Suas turbinas Pelton são apropriadas para aproveitar grandes quedas d’água.
O Projeto da Serra e a engenharia
Idealizado pelo engenheiro norte-americano Asa White Kenney Billings e executado pela The São Paulo Tramway, Light and Power Company Limited, o Projeto da Serra transformou as características geográficas da região em uma solução de engenharia de grande escala para a época.
A primeira unidade da seção externa começou a operar em 1926. As outras sete foram instaladas até 1950, totalizando 469 MW. A seção subterrânea, escavada em rocha no interior da Serra do Mar, entrou em operação em 1956, com seis grupos geradores e capacidade de 420 MW. Em 1964, a usina recebeu o nome de Henry Borden, executivo canadense que liderou a Light por quase duas décadas.
O empreendimento também envolveu um complexo sistema de captação, represamento e bombeamento de água. A ampliação do projeto incluiu a reversão do curso do Rio Pinheiros, a formação do Reservatório Billings e a construção das usinas elevatórias Pedreira e Traição, atualmente denominada Usina São Paulo. Essas estruturas foram concebidas para ampliar a disponibilidade de água para a geração elétrica e, posteriormente, também passaram a desempenhar funções no controle de cheias e no sistema hídrico da Região Metropolitana de São Paulo.
Energia para a industrialização paulista
A história da Henry Borden está ligada à expansão industrial da Baixada Santista e ao crescimento econômico e urbano de São Paulo ao longo do século XX. A construção e a operação do complexo também transformaram a vida local, contribuindo para a formação da Vila da Usina Henry Borden, que chegou a contar com moradias, alojamentos, comércio, escola e associações comunitárias.
Após a divisão da Eletropaulo, em 1998, a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) assumiu a operação da usina e passou a investir na modernização das instalações. Segundo Rafael Strauch, diretor-presidente da companhia, desde 2019 foram destinados R$ 338 milhões à Henry Borden, principalmente para atualizar as unidades geradoras da seção subterrânea. A próxima etapa prevista é avançar na modernização da seção externa.
Em junho de 2026, a usina alcançou 92% de disponibilidade média móvel em 60 meses, indicador que considera o desempenho operacional acumulado ao longo de cinco anos.
Outro recurso importante é a capacidade de black start, que permite reiniciar a operação sem depender de uma fonte externa de energia. A usina também pode elevar sua geração até a capacidade de 889 MW em até 15 minutos, característica que favorece uma resposta rápida em períodos de maior demanda do Sistema Interligado Nacional.
“Ao longo de um século, a Henry Borden acompanhou as transformações do setor elétrico e segue desempenhando um papel relevante para São Paulo e para o país. Ela combina história, relevância estratégica e capacidade de resposta às necessidades do Sistema Interligado Nacional”, destaca Strauch.
Espaço Cultural preserva a memória da usina
Nas comemorações do centenário, a Emae implantou o Espaço Cultural Henry Borden, dedicado à preservação e à divulgação da história do empreendimento e das pessoas que participaram de sua construção e operação.
Concebido pela Fundação Energia e Saneamento (FES) e viabilizado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, o projeto renovou a exposição permanente e transformou o antigo espaço expositivo em um ambiente dedicado à memória, à educação e à valorização do patrimônio industrial. Com 227 metros quadrados, reúne conteúdos sobre engenharia, energia, meio ambiente e inovação tecnológica.
O projeto Usina de Memórias e Futuros reúne depoimentos de trabalhadores e aposentados. O espaço também oferece uma simulação em realidade virtual do percurso realizado no trolley de manutenção, além de recursos de acessibilidade, como placas e mapas táteis e audiodescrição por QR Code.
Para Claudinéli Moreira Ramos, diretora executiva da FES, a iniciativa aproxima o público das histórias e das pessoas que fazem parte do legado da usina.
“O Espaço Cultural Henry Borden transforma a memória centenária da usina em uma experiência de conhecimento, educação e valorização do patrimônio industrial. Conceber esse novo espaço foi uma oportunidade de conectar a história da energia às novas tecnologias e aproximar o público das pessoas e das histórias que fazem parte desse legado” , afirma Claudinéli.
Um século de transformações
A trajetória da Usina Henry Borden reflete os desafios das grandes obras de infraestrutura: além de atender às necessidades de sua época, elas precisam se adaptar às transformações tecnológicas e às demandas das gerações seguintes.
Se, no início do século XX, a prioridade era fornecer energia para sustentar a industrialização paulista, hoje a modernização da usina se insere em um cenário de busca por maior flexibilidade e segurança no sistema elétrico, diante da expansão das fontes renováveis.
Destaque – Usina Henry Borden, em Cubatão, completa cem anos de operação e preserva a história da engenharia e da industrialização paulista. Foto: Rogerio Correia / Emae




