Há 94 anos, os estudantes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo (conhecidos pelo acrônimo MMDC) protestavam no Centro Histórico de São Paulo contra a ditadura quando foram mortos por partidários do PPP (Partido Popular Paulista). Conheça a história da avenida que liga o Centro à zona Sul da capital paulista, que começa muito antes desse episódio e deveria se chamar Avenida Itororó.
A crônica do indígena não aldeado Toni Gonçalves, 85 anos, resgata uma parte da história daquela que conhecemos como avenida 23 de Maio. O texto está integrado ao projeto Memorabilia da Prefeitura de SP e entre outros detalhes revela como o progresso escondeu os córregos, rios e as ruas de terra da capital nas décadas de 1940 e 1950.
Na crônica intitulada “Uma cratera”, Toni Gonçalves narra um período em que a futura metrópole sofria com a falta de infraestrutura viária, ruas de terra batida que viravam lamaçais e córregos a céu aberto que isolavam bairros inteiros durante as chuvas.
O colapso da rua Pedroso e as obras improvisadas
O ponto central da narrativa relembra as falhas de planejamento nas primeiras canalizações de rios feitas pelo poder público. O autor detalha um evento emblemático no vale que hoje abriga a avenida 23 de Maio: a fragilidade na canalização do antigo córrego que passava sob o aterro da rua Pedroso. Com a pressão das águas, a estrutura cedeu de forma repentina, abrindo uma cratera tão imensa que engoliu um caminhão, marcando profundamente a memória dos moradores da época.
Gonçalves contextualiza a transformação da região a partir do avanço da indústria automobilística e do adensamento do trânsito nas avenidas Brigadeiro Luís Antônio e Liberdade. Para solucionar o problema, o projeto de uma via expressa norte-sul foi retomado.
“Naquele tempo, toda aquela região era tomada por mato fechado, árvores nativas de grande porte, e por um córrego que nascia no bairro do Paraíso e descia em direção ao vale que separava os bairros da Liberdade e da Bela Vista. A topografia da área apresentava um grande desnível, formando um vale profundo entre dois pontos altos, o que dificultava a conexão direta entre os bairros”, descreveu o indígena.
De Vale do Itororó a 23 de Maio
Leitura da legislação relembra o simbolismo histórico e a origem do nome da via expressa — entre as avenidas mais famosas de São Paulo —, uma homenagem ao estopim da Revolução Constitucionalista de 1932 e aos jovens do MMDC.
Antes de se tornar um dos principais eixos viários de São Paulo, a região da atual Avenida 23 de Maio passou por profundas transformações de nomenclatura. Inicialmente conhecida como Vale do Itororó, por onde corria a céu aberto o Ribeirão do Anhangabaú — hoje canalizado — e, posteriormente, como Avenida Anhangabaú, a via teve seu nome definitivo aprovado pela Câmara Municipal em 1954.
A escolha da data buscou fazer justiça histórica à reconquista da autonomia paulista frente à ditadura de Getúlio Vargas. De forma estratégica, os vereadores projetaram a 23 de Maio para formar, junto com a Avenida 9 de Julho, um “V” imaginário com vértice na Praça das Bandeiras, simbolizando a vitória do ideal constitucionalista de São Paulo.
O trágico 23 de maio e o nascimento da sigla MMDC
O nome da avenida faz referência direta ao dia 23 de maio de 1932, considerado o verdadeiro gatilho para o levante armado que eclodiria meses depois. Naquela data, uma grande manifestação popular que percorria o centro da cidade se dirigiu à sede do Partido Popular Paulista (PPP), grupo que apoiava o governo federal de Getúlio Vargas.
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O confronto que se seguiu resultou em uma tragédia que chocou a sociedade paulista. Manifestantes foram recebidos a tiros, resultando na morte imediata do estudante de Direito Euclides Miragaia e de Antônio de Camargo Andrade. Pouco depois, uma rajada de metralhadora atingiu um bonde na esquina da Rua Barão de Itapetininga, vitimando o estudante Mário Martins de Almeida. O jovem Dráuzio Marcondes de Souza, de apenas 14 anos, também foi baleado e faleceu cinco dias depois.
Das iniciais desses quatro jovens — Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo —, nasceu a sigla MMDC, que se converteu no símbolo máximo de resistência e mobilização para a guerra que começaria em 9 de julho de 1932.
Quinto integrante: o sacrifício tardio de Orlando Alvarenga
O que muitos desconhecem, e que o documento oficial detalha, é a história de Orlando de Oliveira Alvarenga. Também ferido gravemente durante os intensos tiroteios daquele 23 de maio na Praça da República, Orlando lutou pela vida em um leito de hospital por quase três meses.
Ele veio a falecer em 12 de agosto de 1932, quando a Revolução Constitucionalista já estava em pleno andamento. Devido ao intervalo de tempo e ao fato de a sigla MMDC já estar consolidada em cartazes, hinos e fardas por todo o estado como ferramenta de mobilização militar, não houve tempo hábil para incluir o sobrenome de Alvarenga ao acrônimo histórico, embora seu sacrifício tenha tido o mesmo peso na luta pela Constituição e daria origem a uma sigla formada pelas iniciais MMDCO.
A respeito do desenvolvimento em torno da avenida — que também já se chamou Rua Itororó, Rua Commandante Saturnino e Avenida Itororó — a crônica do autor nos convida a refletir sobre o crescimento acelerado de São Paulo, uma cidade que cobriu sua história e seus rios com concreto, mas que ainda hoje enfrenta os mesmos desafios de mobilidade urbana e enchentes, enquanto a natureza resiste sob o asfalto.
Fontes:
:: Relato de Toni Gonçalves (85 anos, Indígena não aldeado), enviado originalmente ao projeto Memorabilia da Prefeitura de São Paulo, sob o título Uma cratera.
:: Registro histórico sobre a evolução urbana e a nomenclatura das vias públicas da capital paulista. Memorabilia.
:: Centro Cultural Vila Itororó. Prefeitura de São Paulo.
Destaque – Aspecto do Vale do Itororó nas primeiras décadas do século XX. Durante a década de 1920, quando a ocupação das áreas de fundo de vale com avenidas começou a ser aceita como parte do planejamento urbano, a prefeitura iniciou estudos e projetos para construir uma via no Vale do Itororó, inicialmente chamada Avenida Itororó, como consta no mapa da cidade de 1929. Imagem: Centro Cultural Vila Itororó. Prefeitura de São Paulo



