Pesquisador brasileiro investiga o aproveitamento de resíduos da pesca no Maranhão para desenvolver materiais destinados a cirurgias, bioimpressão de tecidos e tratamentos dermatológicos.
Escamas de peixe descartadas no entreposto pesqueiro de São Luís, no Maranhão, tornaram-se matéria-prima de uma pesquisa brasileira que busca desenvolver biomateriais para aplicações na saúde. O projeto, conduzido pelo pesquisador Paulo Ferreira, está em fase inicial, com experimentos de laboratório, e investiga possibilidades que incluem esponjas para controle de sangramentos, biotintas para impressão 3D de tecidos e bioestimuladores para a pele.
A escolha das escamas tem fundamento científico. O material contém colágeno e hidroxiapatita, mineral presente também nos ossos e dentes humanos e utilizado em pesquisas para o desenvolvimento de biomateriais. A proposta é aproveitar um resíduo da atividade pesqueira que ainda tem pouco valor comercial e transformá-lo em matéria-prima para produtos de maior valor agregado.
“Boa parte do que sobra no entreposto ainda é tratada como lixo, mas tem componentes muito úteis para a área da saúde. O nosso trabalho é dar a esse material um destino à altura do que ele pode valer”, afirma Ferreira.
Três aplicações em investigação
Entre as possibilidades estudadas estão as esponjas hemostáticas, utilizadas para auxiliar no controle de sangramentos durante procedimentos cirúrgicos. A pesquisa considera também a possibilidade de incorporar medicamentos a esses materiais, permitindo a liberação dos fármacos diretamente no local de aplicação.
Outra frente envolve as biotintas, materiais utilizados na bioimpressão 3D, tecnologia que permite construir estruturas com células vivas. Já na dermatologia, o pesquisador investiga o potencial de desenvolvimento de bioestimuladores voltados à regeneração da pele.
As três aplicações ainda dependem do avanço dos estudos e da validação científica. A pesquisa parte da composição das escamas para avaliar como seus componentes podem ser aproveitados na produção de materiais compatíveis com diferentes necessidades da área da saúde.
Da pesquisa acadêmica ao desenvolvimento de tecnologia
O trabalho com as escamas representa uma nova etapa na trajetória de Ferreira, dedicada ao desenvolvimento de materiais que interagem com o organismo humano. Sua formação começou na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), seguiu com mestrado e doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e incluiu um período de pesquisa na University of Florida, nos Estados Unidos.
Em 2021, recebeu o Prêmio Inventores, concedido pela Agência de Inovação da Unicamp. Seu trabalho de doutorado, dedicado a partículas de vidro bioativo em escala nanométrica para aplicações em enxertos ósseos, também deu origem à sua primeira patente.
A tecnologia resultante dessa pesquisa, denominada nanobiovidro, é atualmente desenvolvida na Livitah Life Sciences, empresa sediada nos Estados Unidos.
“Comecei estudando como certos materiais conversam com o corpo humano. As escamas entraram como uma forma de levar esse conhecimento para a realidade do Maranhão, onde a pesca tem peso econômico e o descarte é um problema”, conta o pesquisador.
A iniciativa aproxima duas áreas de interesse científico e econômico: o aproveitamento de resíduos da atividade pesqueira e o desenvolvimento de novos materiais para a medicina. Caso os estudos avancem e comprovem sua viabilidade, as escamas poderão ganhar uma nova destinação, conectando a cadeia produtiva do pescado à pesquisa em biomateriais.
Destaque – Escamas descartadas no entreposto pesqueiro de São Luís são investigadas como matéria-prima para biomateriais destinados a aplicações na saúde. Foto: Divulgação




