Estudo com camundongos sugere que episódios de bebedeira precoce prejudicam o sistema de controle de impulsos, resultando em maior propensão a comportamento de risco e vulnerabilidade ao vício

Sophia La Banca | Agência FAPESP


Testes realizados em camundongos que receberam altas doses de álcool durante a adolescência mostraram que o efeito da substância sobre o cérebro ainda em desenvolvimento gera impactos comportamentais que perduram até a vida adulta, como uma maior propensão a assumir riscos e o aumento no consumo da bebida. O estudo, conduzido na Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM-Unifesp), recebeu apoio da FAPESP e originou dois artigos, publicados nas revistas Alcohol Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.

Apesar de o Brasil proibir o consumo de álcool por menores de 18 anos, dados do 3º Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira mostram que 5% dos adolescentes entre 12 e 17 anos tiveram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool em 30 dias. Entre jovens adultos – com idade entre 18 e 24 anos – a porcentagem sobe para 20,5%.

Nessas idades, o cérebro ainda não está totalmente desenvolvido, estando mais vulnerável ao efeito do álcool. “Embora a maior parte do nosso desenvolvimento como seres humanos ocorra dentro do útero, quando nascemos ainda não estamos completamente formados. E o cérebro é um dos últimos órgãos a finalizar essa formação”, explica Karina Possa Abrahão, professora adjunta no Departamento de Fisiologia da EPM-Unifesp. Ela acrescenta que uma das principais diferenças está na menor atividade de uma região chamada de córtex pré-frontal, importante para a tomada de decisões e o controle dos impulsos. Essa e outras regiões relacionadas à tomada de decisão só completam seu desenvolvimento em humanos por volta dos 25 anos de idade.

Para entender como o consumo de bebida alcoólica nessa fase da vida pode afetar o desenvolvimento do cérebro, o grupo de Abrahão aplicou injeções de álcool em camundongos simulando eventos de consumo excessivo da substância (binge drinking). “O intuito do protocolo era o de mimetizar algumas intoxicações esporádicas muito fortes, que é o que tem acontecido em adolescentes e jovens adultos”, conta Abrahão. Nesses animais, a adolescência dura cerca de três a quatro semanas, começando logo após o desmame – entre o 21º e o 28º dia – e terminando por volta do 60º dia de vida. Cada animal recebeu quatro injeções durante sua adolescência, como uma forma de simular um consumo frequente. Essa quantidade, aparentemente pequena, foi calculada de forma proporcional. “Reduzimos o número de intoxicações considerando a duração da vida do animal. Em uma pessoa, seria o equivalente a, mais ou menos, umas duas intoxicações por mês durante toda a adolescência. É um consumo muito pesado”, ressalta.

Quando os camundongos receberam o álcool no início da adolescência, os machos passaram a demonstrar comportamentos de risco mais intensos, mesmo quando testados na vida adulta. O equivalente não foi observado nas fêmeas. Por outro lado, quando o álcool era disponibilizado para os camundongos na vida adulta, as fêmeas expostas ao álcool no início da adolescência beberam mais.

Já quando os animais receberam o álcool no final da adolescência, camundongos de ambos os sexos apresentaram maior comportamento de risco na vida adulta. Essas alterações comportamentais indicam um prejuízo no amadurecimento do cérebro. “O álcool pode causar um prejuízo da maturação final do cérebro, tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda. Ele sempre vai ficar se colocando em risco. O adolescente se colocar em risco é normal, mas o adulto continuar fazendo isso é problemático”, comenta Abrahão.

Diferença entre os sexos

A origem da diferença observada no efeito do álcool entre machos e fêmeas no começo da adolescência ainda não foi encontrada. Em um primeiro momento, a equipe de Abrahão acreditou se tratar da diferença no ritmo do desenvolvimento do cérebro entre os sexos. “O que a gente sabe é que a maturação do cérebro das fêmeas acontece um pouco antes da dos machos”, explica Abrahão. Mas os resultados obtidos com animais intoxicados na fase final da adolescência contradizem essa hipótese. “Fomos pegos de surpresa, porque, quando a intoxicação é feita na segunda fase da adolescência, afeta tanto machos quanto fêmeas. Então, o que a gente achou que tinha protegido a fêmea na primeira fase da adolescência, por ela maturar mais cedo o cérebro, não é verdade. Porque houve o comprometimento da tomada de decisão quando a intoxicação foi feita na fase tardia”, detalha a pesquisadora.

Os efeitos deletérios do consumo excessivo de álcool no desenvolvimento do cérebro podem se estender até o início da vida adulta. O grupo de Abrahão já testou o efeito do uso excessivo de álcool em camundongos em idade equivalente a um humano de 20 anos no comportamento de risco e obteve resultados semelhantes aos obtidos com adolescentes.

Já em adultos mais velhos o impacto tende a ser mais brando. “A literatura mostra que os impactos existem, mas são menores. Não quer dizer que o indivíduo de 30 a 40 anos não vai ter alguns prejuízos cognitivos, mas esse impacto é bem menor do que quando essa intoxicação acontece durante a adolescência. Então, o que poderia ser dito é que a literatura indica que continua tendo impacto, mas vai diminuindo quanto mais amadurece o cérebro”, explica.


Destaque – Levantamento nacional indica que 5% dos adolescentes entre 12 e 17 anos tiveram pelo menos um episódio de consumo excessivo de álcool em 30 dias. Entre jovens adultos (18 a 24 anos), a porcentagem quadruplica para 20,5%. Imagem: aloart / G. I.


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