Expedição do Schmidt Ocean Institute utilizou robôs submarinos e DNA ambiental para investigar espécies e habitats pouco conhecidos na costa australiana.
A costa de Ningaloo, no noroeste da Austrália, abriga um dos ambientes marinhos mais conhecidos do oceano Índico. Seu famoso recife de corais, com aproximadamente 260 quilômetros de extensão, é uma das grandes riquezas naturais do país. Entretanto, nas profundezas próximas à costa, existe outro ambiente de grande importância científica, ainda pouco explorado: os cânions submarinos.
A região está situada a aproximadamente 1.200 quilômetros ao norte de Perth, capital do estado da Austrália Ocidental. Enquanto a Grande Barreira de Corais se estende pelo litoral nordeste australiano, Ningaloo se destaca no lado oeste do país.
Para dar uma ideia do tamanho, tendo como exemplo uma área do Brasil, esse recife de corais tem 260 km de comprimento. É o equivalente a toda extensão costeira que vai de Santos, Litoral Sul do Estado de São Paulo, passa pelo Litoral Norte paulista e avança mais 30 km até Paraty, no Rio de Janeiro.
Foi nesse cenário que o Schmidt Ocean Institute realizou, em 2020, a expedição Illuminating Biodiversity of the Ningaloo Canyons, dedicada à investigação da biodiversidade dos cânions de Cape Range e Cloates.

O ROV SuBastian é içado de volta ao convés após mais um dia de mergulho a mais de 2500 m de profundidade no Cape Range Canyon, perto de Ningaloo, no oeste da Astrália. Crédito: Schmidt Ocean Institute
Uma expedição para investigar espécies desconhecidas
Depois de explorar a Baía de Bremer e o Cânion de Perth, o navio de pesquisa Falkor levou o veículo operado remotamente (ROV) SuBastian aos cânions de Ningaloo. A expedição foi conduzida pela Dra. Nerida Wilson, do Museu da Austrália Ocidental, e sua equipe, com o objetivo de identificar e caracterizar a biodiversidade bentônica, formada pelos organismos que vivem associados ao fundo marinho.
Na época, poucas regiões de águas profundas da Austrália haviam sido estudadas de maneira abrangente. Um grande número de espécies permanecia desconhecido ou ainda não havia sido formalmente identificado.
A investigação dos cânions permitiu ampliar o conhecimento sobre esses ambientes, que abrigam organismos adaptados a condições muito diferentes das encontradas nas águas superficiais.
A expedição também buscou compreender a relação entre a biodiversidade marinha e os ambientes terrestres da região. A costa da Austrália Ocidental apresenta extensos sistemas cársticos, formados pela erosão de rochas calcárias, além de redes de águas subterrâneas que abrigam uma fauna de grande importância evolutiva.
Apesar dessa riqueza biológica em terra, o ambiente marinho profundo nas proximidades permanecia praticamente inexplorado.

A equipe do ROV e os cientistas-chefes acompanham a transmissão ao vivo da sala de controle do navio de pesquisa Falkor. Crédito: Angela Rossen / Schmidt Ocean Institute
DNA ambiental amplia a identificação das espécies
Uma das ferramentas utilizadas na expedição foi o DNA ambiental, conhecido pela sigla eDNA. Essa técnica permite identificar vestígios de material genético que os organismos deixam naturalmente na água e em outros ambientes.
Ao analisar amostras ambientais, os pesquisadores podem detectar a presença de espécies que não foram observadas diretamente durante os levantamentos. A técnica complementa as imagens e as coletas realizadas pelo ROV, ampliando as possibilidades de identificação da biodiversidade.
Conforme descreveu a equipe científica do Schmidt Ocean Institute:
“Para obter uma compreensão real da diversidade da área, a equipe científica complementará os levantamentos e coletas de vídeo do ROV SuBastian com DNA ambiental (eDNA). Esse inventário será facilitado pelo uso de eDNA , que se refere a todo o material genético que pode ser recuperado de uma amostra ambiental. Essa técnica de ponta pode detectar vestígios de animais deixados para trás que podem não ser encontrados durante os levantamentos e servirá como comparação com técnicas mais tradicionais,” descreveu a equipe científica.
A combinação entre observação direta e análise genética permite reunir informações complementares. Enquanto as imagens ajudam a documentar os organismos e seus habitats, o DNA ambiental pode revelar a presença de espécies que escapam à observação.

Um raro hidroide de águas profundas foi descoberto pela Dra. Nerida Wilson (Cientista-Chefe do Museu da Austrália Ocidental) e sua equipe. O animal foi encontrado a 2.497 m de profundidade no Cânion Cape Range, utilizando o ROV SuBastian. Branchiocerianthus é um hidroide gigante composto por um único pólipo em um longo caule, que vive em fundo arenoso. É parente próximo de corais, anêmonas e gorgônias. Esta é a primeira vez que este animal incrível foi filmado e coletado em águas australianas. Outros exemplares foram encontrados em outras partes do mundo, incluindo Japão, Irlanda e Noruega. Crédito: Schmidt Ocean Institute
Mapeamento submarino em alta resolução
Outro aspecto importante da expedição foi o mapeamento do fundo do mar. O ROV SuBastian realizou coletas orientadas visualmente por especialistas, em vez de utilizar métodos de captura às cegas, como redes de arrasto.
Essa abordagem permite selecionar os locais de coleta com maior precisão, repetir amostragens e reduzir os impactos sobre o ambiente marinho.
Quando o veículo não estava submerso, o navio Falkor utilizava o sistema multifeixe EM302 para mapear o relevo submarino. A tecnologia possibilitou produzir imagens detalhadas da profundidade e das características do fundo do Cânion de Cape Range, desde sua cabeceira até a região mais profunda, conhecida como leque abissal.
O levantamento também contribuiu para ampliar o conhecimento sobre os habitats do Parque Marinho de Gascoyne, oferecendo informações para interpretar a distribuição dos organismos encontrados.

Cada mergulho do cruzeiro traz novas surpresas e tesouros. À esquerda, uma lula avistada a 2530 m de profundidade, a caminho do fundo do mar, com o reflexo do ROV SuBastian em seu olho. À direita, um raro hidroide descoberto a milhares de metros de profundidade no fundo do cânion de Cape Range. É a primeira vez que este animal incrível foi filmado e coletado em águas australianas. Crédito: Schmidt Ocean Institute / ROV SuBastian
Biodiversidade e conservação dos oceanos
O inventário de espécies e o mapeamento dos habitats são fundamentais para compreender o funcionamento dos ecossistemas marinhos profundos. Essas informações também podem subsidiar políticas de conservação e o desenvolvimento de estratégias de gestão ambiental.
Os cânions submarinos do noroeste australiano estão sujeitos a impactos associados à exploração de petróleo e gás natural. Como essas atividades ocorrem em regiões profundas, seus efeitos podem permanecer pouco conhecidos, dificultando a avaliação dos riscos para a biodiversidade.
A equipe científica destaca a importância de ampliar o conhecimento sobre esses ambientes para orientar medidas de proteção e gestão.
“O inventário faunístico resultante é fundamental para uma melhor compreensão, a partir da qual podem ser desenvolvidas abordagens ecológicas mais robustas. Essas áreas são geralmente negligenciadas na formulação de políticas públicas. Os ambientes de águas profundas do noroeste da Austrália são amplamente impactados pela extração de petróleo e gás natural. Esses impactos industriais estão ‘fora da vista, fora da mente’, e a falta geral de compreensão desses ambientes inibe as ações de conservação. Compreender a biodiversidade presente nessas zonas é fundamental para ativar processos de gestão eficazes,” esclarecem a Dra. Wilson e a equipe.
A expedição de Ningaloo demonstra como a tecnologia de exploração submarina e as ferramentas genéticas podem contribuir para revelar a vida em regiões pouco conhecidas do oceano. Os dados produzidos também ajudam a estabelecer uma base científica para futuras pesquisas e para a conservação dos ecossistemas de águas profundas.
Revelando a biodiversidade dos cânions de Ningaloo
“Simplesmente deslumbrante.”
Às vezes, a descrição mais curta pode ser a mais impactante. A expedição #NingalooCanyons revelou uma vida incrível em locais nunca antes vistos. “Junte-se a nós para relembrar algumas das imagens mais belas e intrigantes capturadas pelo ROV SuBastian”.
Vídeo com os melhores momentos da filmagem com ROV. Crédito: Schmidt Ocean Institute
Fontes e créditos:
Instituição: Schmidt Ocean Institute
Expedição: Illuminating Biodiversity of the Ningaloo Canyons — 2020
Pesquisadora principal: Dra. Nerida Wilson, Museu da Austrália Ocidental.
Fontes originais:
• Illuminating Biodiversity of the Ningaloo Canyons — apresentação da expedição
• Coleção de imagens e registros da expedição
Destaque – O ROV SuBastian coleta dados de um Radiaster — espécime que pertence a um grupo de estrelas-do-mar — perto do Bremer Canyon, na costa sudoeste da Austrália. Crédito: Schmidt Ocean Institute / ROV SuBastian



