Estudo da USP, publicado na revista Environmental Research, analisou resultado das autópsias de 238 pessoas e dados epidemiológicos; perigo é maior para hipertensos

Emilio Sant’anna | Agência FAPESP


A relação entre viver em uma cidade poluída como São Paulo e doenças pulmonares ou câncer é bem conhecida. Os problemas, no entanto, vão além. Uma pesquisa inédita aponta que a exposição de longo prazo à poluição atmosférica está diretamente ligada ao aumento dos riscos cardíacos em moradores da capital paulista. Para indivíduos hipertensos o perigo é maior.

Publicado na revista Environmental Research, o estudo foi realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) com o apoio da FAPESP. A investigação mostra que a fibrose cardíaca, um indicador de doenças do coração, está relacionada ao tempo de exposição às partículas de carbono negro, um indicador de poluição atmosférica.

Resultados

Os pesquisadores fizeram a análise das autópsias de 238 pessoas e de dados epidemiológicos para mensurar essa relação. Eles também entrevistaram familiares das vítimas para recolher informações sobre fatores de risco, como histórico de tabagismo e hipertensão. A partir da observação macroscópica do tecido pulmonar estabeleceram a presença e quantidade da fração de carbono negro nos pulmões. Amostras de miocárdio revelaram a fração de fibrose cardíaca.

Os resultados revelaram associação significativa entre a fração de carbono negro nos pulmões e a fibrose cardíaca nos indivíduos estudados. Isso significa que, quanto mais tempo uma pessoa é exposta à poluição, maior a probabilidade de desenvolver a fibrose. “Esse dado ressalta o papel crucial da autópsia na investigação dos efeitos do ambiente urbano e dos hábitos pessoais na determinação de doenças”, afirma um dos autores da pesquisa, o patologista e professor da USP Paulo Saldiva.

Cerca de 60% dos idosos brasileiros são hipertensos

Além disso, foi constatado que o risco é aumentado para indivíduos hipertensos. Entre eles, a presença do marcador de doenças cardíacas cresce com o aumento da presença do indicador de exposição à poluição, tanto em fumantes quanto em não fumantes. Entre os não hipertensos, os maiores riscos foram observados principalmente nos tabagistas.

A hipertensão, ou pressão alta, é uma doença que pode ser silenciosa e não apresentar sintomas. De acordo com o Ministério da Saúde, em dez anos a taxa de mortalidade passou de 11,8 óbitos para 100 mil habitantes, em 2011, para 18,7 em 2021. Cerca de 60% dos idosos que vivem no Brasil têm hipertensão.

Exposição à poluição

Se a hipertensão é silenciosa, a poluição nem sempre está tão à vista de todos. Em alguns casos, no entanto, é possível saber onde ela é mais prejudicial. A exposição à poluição dentro da mesma cidade depende de fatores como hábitos e deslocamentos das pessoas. “Podemos dizer que existem dois indicadores de poluição, um medido pela rede da Cetesb [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo], que é objetivo. E outro relacionado a quanto cada indivíduo é exposto a ela”, afirma. “Ou seja, o nível de concentração de poluição ambiental não significa a mesma dose recebida por todos. Se você está em um corredor de tráfego por horas, recebe uma dose maior porque a concentração daquele ambiente é particularmente mais elevada.”

Saldiva explica que diversos fatores, como a própria hipertensão, influenciam no desenvolvimento da fibrose cardíaca e que, agora, fica provado que a poluição é um deles. “A pergunta era ‘a poluição tem tamanho suficiente para aparecer nessa foto?’ Ela tem e foi a primeira vez que foi demonstrado no mundo em humanos. Essa é a diferença do trabalho”, pontua.

Saúde pública

Segundo o médico, o estudo só foi possível graças ao trabalho realizado pelo Serviço de Verificação de Óbito (SVO) na cidade, 24 horas por dia, 365 dias por ano. Ele afirma que o apoio da Faculdade de Medicina da USP e da FAPESP, em convênios estabelecidos no passado com o SVO, construiu um vasto conjunto de processos e informações que resultam hoje em novas possibilidades científicas.

A pesquisa da USP fornece evidências sobre os impactos da poluição do ar na saúde cardiovascular e destaca a necessidade de medidas eficazes para reduzir a exposição da população a esse mal. A implementação de medidas como a redução das emissões de veículos, o incentivo ao transporte público sustentável na cidade e o incentivo de fontes de energia limpa são estratégias eficazes na mitigação dos impactos da poluição atmosférica na saúde pública.


Destaque – Imagem: aloart


Publicação:
Sábado | 04 de maio, 2024



Leia outras matérias desta editoria

Brasileiros defendem investimentos públicos em ciência, aponta pesquisa

Maioria dos entrevistados na nova edição do estudo sobre “Percepção pública da ciência e tecnologia no Brasil” apontou que o governo deve aumentar ou manter os investimentos em pesquisa científica e tecnológica nos próximos anos. Elton Alisson | Agência...

Pesquisa demonstra relação entre poluição e riscos cardíacos em moradores de SP, leia

Estudo da USP, publicado na revista Environmental Research, analisou resultado das autópsias de 238 pessoas e dados epidemiológicos; perigo é maior para hipertensos Emilio Sant’anna | Agência FAPESP A relação entre viver em uma cidade poluída como São...

Cocaína nas águas da baía de Santos preocupa comunidade científica e afeta vida marinha, leia

A notícia chocou até os pesquisadores da Unisanta e da Unifesp em 2017 e vem sendo repercutida até agora com novos estudos que envolvem riscos aos animais marinhos. Informações de Elton Alisson | Agência Fapesp Além dos poluentes já conhecidos, a baía de...

Como a IA pode impulsionar a indústria vinícola europeia, conheça

Trazer a agricultura de precisão para as vinhas poderia ajudar os produtores de vinho a alcançar eficiências de produção e aumentar a competitividade deste setor extremamente importante. O setor agrícola como um todo está atualmente sob intensa pressão. Os...

Casca da jabuticaba reduz inflamação e glicemia em pessoas com síndrome metabólica, revela estudo

Em estudo com 49 participantes, pesquisadores da Unicamp observaram que o consumo diário de um suplemento contendo 15 gramas da substância ao longo de cinco semanas melhorou o metabolismo de glicose, inclusive após as refeições. Por Maria Fernanda Ziegler...

Exercícios físicos de musculação para idosos, leia estudo

Musculação melhora sintomas de depressão e ansiedade em idosos, confirma estudo de pesquisadores brasileiros que analisaram mais de 200 artigos sobre o tema e identificaram os tipos de treino mais indicados para esses casos. Resultados foram divulgados na...

Espécies invasoras chegaram ao Brasil por acaso e intencionalmente, diz estudo

Mosquito da dengue e outras espécies invasoras causam prejuízo anual de até R$ 15 bilhões no Brasil. Estimativa ainda pode estar subestimada devido a lacunas em estudos sobre o tema, avaliam autores de relatório. As espécies exóticas invasoras no Brasil,...