Desenvolvimento da Universidade de Utrecht permite reprogramar células imunológicas diretamente no organismo do paciente por meio de dose única de nanopartículas, eliminando etapas laboratoriais caríssimas.
A terapia com células CAR-T figura na vanguarda da oncologia moderna por oferecer um tratamento altamente personalizado e eficaz contra tumores e leucemias. O método tradicional atua ao modificar geneticamente os linfócitos T do próprio indivíduo para que passem a reconhecer e destruir estruturas cancerígenas. Contudo, o fluxo operacional dessa intervenção permanece complexo e custoso: as células precisam ser extraídas do paciente, modificadas por meio de vetores virais e cultivadas ao longo de semanas em laboratórios especializados antes de retornarem ao organismo. O custo estimado pode atingir a marca de 300 mil euros por tratamento, restrição que inviabiliza o acesso amplo à tecnologia.
Para contornar esses gargalos operacionais e financeiros, o projeto NANO-ENGINE, financiado pelo Conselho Europeu de Inovação (EIC) e liderado pela Universidade de Utrecht, na Holanda, desenvolveu uma alternativa baseada na reprogramação celular in vivo. A abordagem busca produzir as células CAR-T diretamente no corpo humano, eliminando por completo a etapa de manipulação ex vivo.
Reprogramação celular diretamente no organismo
O conceito central da inovação apoia-se no uso de nanopartículas lipídicas, estrutura comparável à empregada em vacinas de RNA mensageiro. Em vez do RNAm tradicional, a partícula do projeto transporta minicírculos de DNA contendo as instruções genéticas do receptor quimérico de antígeno (CAR), associados ao sistema não viral de transpossase conhecido como “Sleeping Beauty”. Essa enzima realiza a inserção estável dos novos genes no cromossomo celular, garantindo uma expressão prolongada e duradoura do tratamento.
Para direcionar o vetor ao alvo correto, os pesquisadores revestiram a superfície da nanopartícula com ligantes capazes de identificar e se acoplar aos marcadores específicos dos linfócitos T. A eficácia da plataforma foi demonstrada em testes pré-clínicos com modelos de leucemia, cujos resultados foram publicados no Journal for ImmunoTherapy of Cancer.
“Demonstramos que uma única dose intravenosa dessa nanopartícula direcionada gera células CAR-T funcionais in vivo, controla o crescimento tumoral e prolonga significativamente a sobrevivência em um modelo de leucemia — tudo isso em doses muito inferiores às utilizadas em uma abordagem baseada em RNAm”, afirma Raymond Schiffelers, vice-presidente de P&D pré-clínica da NanoCell Therapeutics e professor de nanomedicina na Universidade de Utrecht.
Redução de prazos e expansão para novas patologias
A substituição do processo produtivo industrial por uma aplicação direta reduz o tempo de espera do paciente — que passa de várias semanas para o momento de uma única injeção — e descentraliza a oferta da terapia, hoje restrita a poucos centros hospitalares especializados.
“Nossa abordagem in vivo e pronta para uso remove inteiramente a etapa de fabricação ex vivo, o que pode reduzir drasticamente os custos, encurtar o tempo para o início do tratamento de semanas para efetivamente uma única aplicação e disponibilizar a terapia muito além de um punhado de centros especializados”, conclui Schiffelers.
Pela natureza modular da plataforma, os pesquisadores ressaltam que o vetor nanotecnológico pode ser redirecionado para outros alvos terapêuticos. O consórcio estuda expandir a aplicação da tecnologia para o tratamento de tumores sólidos e doenças autoimunes, enquanto avança no desenvolvimento clínico da ferramenta por meio do projeto NANOCAR e de bolsas do Conselho Europeu de Pesquisa (ERC).
Destaque – Nanopartícula lipídica carrega instruções genéticas para reprogramar células T diretamente na corrente sanguínea. Imagem: aloart / G. I. / IA image



