Neurologista da ABN detalha como a combinação entre nutrientes, vínculo afetivo e estímulos ambientais influencia a formação do sistema nervoso nos primeiros meses de vida.


Os primeiros meses de vida constituem uma das fases mais intensas do neurodesenvolvimento humano. Durante esse intervalo, o cérebro do recém-nascido passa por processos acelerados de formação e reorganização de sinapses, maturação de circuitos sensoriais e motores, além da mielinização, etapa responsável por tornar a transmissão de impulsos entre as células nervosas mais rápida e eficiente. Por se tratar de um período de elevada plasticidade cerebral, pequenas variações na oferta de nutrientes, na qualidade do sono e nos estímulos ambientais produzem impactos significativos na estrutura neurológica em formação.

“Os primeiros meses de vida integram uma janela especialmente sensível do neurodesenvolvimento humano. Nesse período, o cérebro apresenta importantes modificações, com formação e reorganização de sinapses, maturação de circuitos sensoriais e motores, além do processo de mielinização, que torna essas sinapses e circuitos muito mais rápidos e eficientes. Apesar dessa plasticidade cerebral se continuar por toda a vida, ela é muito mais acelerada nos primeiros meses de vida e, dessa forma, pequenas alterações no suprimento de nutrientes, na saúde, no sono e nas experiências ambientais podem ter efeitos proporcionalmente maiores.”, explica a Dra. Ana Carolina Coan, do Departamento Científico de Neurologia Infantil da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

O papel da nutrição e os limites da relação com a inteligência

A nutrição adequada fornece os insumos químicos e estruturais para o crescimento do cérebro. Elementos como proteínas, energia, ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa, ferro, iodo e colina desempenham funções cruciais na síntese de neurotransmissores, no metabolismo cerebral e na constituição das membranas neuronais e da retina.

“Assim, o desenvolvimento cerebral depende da suficiência do conjunto nutricional e da ausência de deficiências.”, afirma a especialista.

O leite humano reúne uma combinação única de macronutrientes, micronutrientes e componentes biologicamente ativos, sendo amplamente recomendado por seus benefícios imunológicos e nutricionais. Embora pesquisas observacionais apontem uma correlação entre o aleitamento materno e desempenhos cognitivos médios discretamente superiores em indicadores de linguagem, os especialistas reforçam que esses dados não devem ser interpretados de forma determinista.

“O leite materno é recomendado por seu conjunto de benefícios nutricionais, imunológicos e de saúde materno-infantil, e não como uma garantia de maior inteligência. Quando a amamentação não é possível, é contraindicada, precisa ser complementada ou é interrompida, fórmulas infantis apropriadas fornecem nutrição adequada. Isso não condena a criança a um desenvolvimento inferior. Segurança alimentar, crescimento adequado, acompanhamento pediátrico e relações responsivas continuam sendo fundamentais.”, explica a médica.

A neurologista ressalta que o progresso neurológico depende de múltiplos fatores integrados, incluindo carga genética, curso da gestação, idade gestacional, controle de enfermidades, qualidade do sono, saúde mental dos cuidadores e contexto socioeconômico.

“É igualmente importante evitar uma interpretação determinista: uma dificuldade alimentar transitória não define, sozinha, o futuro neurológico de uma criança. O desenvolvimento resulta da interação entre genética, gestação, idade gestacional, nutrição, doenças, sono, saúde emocional dos cuidadores, estimulação e condições sociais”, destaca.

Estímulos relacionais e regulação emocional no aleitamento

Para além da composição química dos alimentos, o ato de amamentar envolve trocas sensoriais e afetivas estruturantes. O contato pele a pele, a proximidade física, a sincronização de ritmos, o reconhecimento do odor materno e a troca de olhares estabelecem uma rotina de estímulos para o sistema nervoso do bebê.

“Essas experiências ajudam o bebê a regular estados fisiológicos e emocionais e fornecem estímulos repetidos para circuitos relacionados à atenção, à linguagem, ao processamento social e à regulação do estresse.”, explica a neurologista.

A avaliação do neurodesenvolvimento na primeira infância exige, portanto, uma visão multifatorial que perpasse saúde, nutrição, vínculos responsivos e ambiente, sem isolar o tipo de aleitamento como único preditor do futuro cognitivo do indivíduo.


Destaque – Interação afetiva e nutrição durante os primeiros meses de vida fortalecem o desenvolvimento dos circuitos cerebrais do bebê. Imagem: aloart / G. I. / IA image


Leia outras matérias desta editoria

Outubro Rosa: como fazer mamografia gratuita pelo SUS em São Paulo

Mulheres de 50 a 74 anos podem realizar o exame sem pedido médico pelo programa Mulheres de Peito; Estado fez 4,8 milhões de mamografias desde 2023 Durante o Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico do câncer de mama,...

Proteção às mulheres requer mais que DDMs 24h

Delegacias da Mulher com funcionamento ininterrupto ganham espaço no debate eleitoral, mas especialistas alertam que combater a violência exige uma rede de proteção articulada e permanente. A proteção às mulheres tornou-se uma das bandeiras presentes nas...

Aumento de ocorrências e déficit de policiais nas DDMs preocupa

Sindpesp afirma que falta de efetivo pode dificultar expansão das unidades 24 horas e cobra novas contratações para a Polícia Civil. A ampliação do atendimento 24 horas nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) em São Paulo envolve uma questão que vai além...

Delegacias de Defesa da Mulher fazem 39 prisões por dia em SP, expõe Sindpesp

Levantamento da entidade mostra atuação das DDMs em 2025 e aponta 95,8 mil medidas protetivas solicitadas à Justiça no período. As Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) da Polícia Civil de São Paulo realizaram, em média, 39 prisões em flagrante por dia em...

Medo até no ponto de ônibus e renúncias diárias: 94% das brasileiras vivem sob a sombra da insegurança

Levantamento inédito dos institutos Patrícia Galvão e Locomotiva revela que o medo da violência virou uma rotina de cálculos silenciosos, afetando do direito de ir e vir às decisões de estudo, trabalho e voto. Confira nossa série especial dividida em três...

Transporte público e lazer concentram maior medo de violência entre mulheres

Estudo aponta que 42% das brasileiras se sentem totalmente desprotegidas em pontos de ônibus e estações no país. Os pontos de parada, as estações de passageiros e os locais de convivência noturna tornaram-se os pontos mais críticos para a circulação das...

Propostas de segurança para mulheres vão influenciar voto de 78% das eleitoras

Pesquisa revela reprovação massiva do Poder Público e aponta que combate à violência e ao assédio será decisivo nas urnas. A pauta da segurança pública feminina consolidou-se como variável central no processo eleitoral brasileiro. A pesquisa nacional...