Em sabatina no Congresso da Abraji, Chico Lucas destacou a necessidade de asfixia financeira e articulação entre União, estados e municípios.
A crescente complexidade das organizações criminosas no Brasil e sua capacidade de infiltração na economia lícita e no sistema financeiro deram o tom da sabatina com o Secretário Nacional de Segurança Pública, Chico Lucas. O encontro ocorreu na sexta-feira (31), durante o segundo dia do XXI Congresso da Abraji, sob a mediação dos jornalistas Basília Rodrigues e Bruno Pires, diretores da entidade.
No cargo desde janeiro de 2026, o titular da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) apresentou as diretrizes e as políticas prioritárias da pasta. Logo na abertura do painel, Basília Rodrigues provocou a reflexão sobre o histórico da cobertura jornalística ao questionar: “Será que erramos lá atrás […]a gente subestimou o tamanho do crime organizado?”
Ao responder sobre a percepção de insegurança na sociedade, Lucas relacionou o cenário ao fortalecimento das facções e à falta de priorização histórica do tema pelo Estado brasileiro. Para o secretário, o país precisa tratar a segurança com a mesma gravidade empregada em outras áreas sociais no passado. “Você tinha o problema do analfabetismo e da educação fundamental, o Brasil atacou e de alguma maneira resolveu. A mortalidade infantil também era um problema muito sério, atacou e resolveu”, comparou.
Infiltração do crime na economia e no sistema financeiro
Investigações recentes do Ministério Público e das forças policiais, como o escândalo do Banco Master e a Operação Carbono Oculto, expõem como redes criminosas passaram a operar através de estruturas empresariais e bancárias para lavar dinheiro e diversificar investimentos.
De acordo com o secretário, essa atuação segue uma lógica estritamente mercadológica de custo e benefício para ampliar lucros e mitigar riscos. “Eles precisam de alguma maneira lavar esse dinheiro e começam a explorar mercados lícitos, ou seja, os mercados que são permitidos, mas o modo de explorar é feito de forma lícita”, explicou.
Diante dessa sofisticação, Chico Lucas defendeu a ampliação do enquadramento legal de quem integra essas redes, superando visões simplificadas do fenômeno. “Não podemos ficar sucumbindo ao estereótipo do que é faccionado. Faccionado é toda pessoa que direta ou indiretamente se beneficia do dinheiro que vem de um crime, de uma extorsão ou do uso da ultra violência”, pontuou.
Como resposta institucional, o secretário apontou a tramitação da PEC nº 18/2025, conhecida como PEC da Segurança Pública, como um instrumento central para padronizar as ações no país. O objetivo é estabelecer uma cooperação federativa efetiva: “ao invés de nós termos 27 unidades federativas lutando contra o crime isoladamente, nós vamos ter uma unidade, uma cooperação interfederativa”.
Desafios de regulação e responsabilização no mercado bancário
Os desdobramentos de fraudes no setor financeiro também foram analisados sob a ótica da regulação e da fiscalização. Para Chico Lucas, o avanço da digitalização e o surgimento de fintechs impulsionaram o mercado, mas geraram brechas operacionais que exigem maior rigor dos órgãos de controle.
“A partir do momento que você facilita, desregulamenta, você traz velocidade, mas, em outra batida, é menos seguro”, resumiu o secretário. Ele destacou que a exigência recente de identificação do beneficiário final em fundos de investimento é um passo importante para evitar que recursos ilícitos circulem sem rastreabilidade. A proposta defendida pela pasta é manter a liberdade econômica, mas associada a regras mínimas de controle que responsabilizem as instituições que não checam a origem dos ativos.
Por fim, ao detalhar as diretrizes do Programa Brasil contra o Crime Organizado, do Governo Federal, o secretário reforçou os quatro eixos estratégicos fixados pela Senasp: asfixia financeira, segurança máxima, elucidação de homicídios e enfrentamento ao tráfico de armas.
Com as informações de Lucas Marllon | Araji
Destaque – Destaque – Basília Rodrigues, analista de política no SBT News, Chico Lucas, secretário nacional de Segurança Pública e Breno Pires, repórter na “revista Piauí”. Foto: Letícia Demary (Ateliê Selva)



