Erivaldo Vieira – Mestre em Teoria Econômica pela Universidade Estadual de Campinas. É docente da FECAP há 24 anos, onde atua como professor de Economia. É pesquisador de indicadores da Economia do Crime, Microeconomia Aplicada e Economia da Informação, além de coordenar o Centro de Estudos em Economia do Crime.


Levantamento do Centro de Estudos em Economia do Crime da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), com base na análise minuciosa dos boletins de ocorrência registrados no período pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) estadual, aponta que o número total de roubos e furtos de aparelhos celulares registrou queda de 9,05% em 2025, passando de 335.680 para 305.308 casos na comparação com 2024. A retração, observada em quase todos os meses do ano, indica avanços pontuais nas estratégias de segurança pública, ainda que não tenha sido suficiente para conter a profissionalização e a expansão das fraudes digitais associadas a esses crimes.

A consolidação de uma sociedade profundamente dependente do meio digital transformou o smartphone em muito mais do que um instrumento de comunicação. O aparelho passou a concentrar dados pessoais, transações financeiras, relações sociais e o acesso a serviços públicos, tornando-se uma extensão funcional da identidade do indivíduo. Nesse contexto, a criminalidade urbana ajustou rapidamente suas estratégias, convertendo o roubo e o furto de celulares em uma atividade ilícita altamente lucrativa e organizada.

Em grandes centros urbanos como São Paulo, esse tipo de crime deixou de ser um evento pontual para se configurar como o primeiro elo de uma cadeia criminosa complexa. O delito inicial — muitas vezes cometido de forma rápida e violenta em espaços públicos — alimenta um sistema que envolve desbloqueio ilegal de dispositivos, fraudes bancárias, comércio clandestino de peças e, em alguns casos, a remessa internacional de componentes para mercados asiáticos. Trata-se de uma dinâmica que combina criminalidade de rua com redes sofisticadas de crime organizado, desafiando os modelos tradicionais de segurança pública.

O avanço do roubo e do furto de celulares em São Paulo está diretamente associado à evolução do modus operandi das quadrilhas especializadas. Longe de ações improvisadas, essas práticas revelam um processo claro de profissionalização, voltado a neutralizar a reação das vítimas e a contornar os mecanismos de segurança dos próprios dispositivos. De modo geral, as estratégias atuais podem ser agrupadas em três frentes principais: furtos por ciclistas, ataques a veículos em trânsito lento e ações em meio a grandes aglomerações.

Modus operandi

Entre as táticas mais visíveis está o uso de bicicletas como instrumento de mobilidade criminosa, sobretudo na Avenida Paulista e no Centro Histórico. Os autores dos delitos se valem de vestimentas e acessórios típicos de ciclistas e entregadores de aplicativos, o que dificulta sua identificação. A ação é rápida e precisa: o ciclista se aproxima por trás, subtrai o aparelho das mãos da vítima e foge em alta velocidade, explorando ciclovias, calçadas e rotas inacessíveis a viaturas. A eficácia desse método reside no fato de o celular ser levado com a tela desbloqueada, permitindo acesso imediato a aplicativos bancários e a canais de recuperação de senhas, antes que qualquer bloqueio remoto seja acionado. Como reação, comerciantes da região central passaram a adotar barreiras físicas nas calçadas, numa tentativa informal de reduzir a velocidade dessas abordagens.

Outra modalidade recorrente é a conhecida estratégia do “quebra-vidro”, direcionada a motoristas parados em congestionamentos ou semáforos, especialmente em áreas como o Glicério e em corredores de tráfego intenso. O criminoso utiliza objetos específicos para estilhaçar rapidamente a janela lateral do veículo e retirar o celular posicionado no suporte de GPS. A ação dura poucos segundos, tempo suficiente para que a vítima, atônita com o impacto e os estilhaços, fique impossibilitada de reagir. Apesar de envolver menor contato físico direto, o método apresenta maior grau de violência patrimonial e riscos à integridade do condutor.

Há ainda as ações em aglomerações, como blocos de carnaval e grandes eventos, nas quais os criminosos se aproveitam da densidade da multidão para realizar furtos em série e desaparecer rapidamente. Em versões mais agressivas, surgem os chamados “falsos entregadores”, que utilizam motocicletas e abordagens diretas, elevando o risco de violência.

Sequestro de contas e extorsão

Investigações da Polícia Civil indicam que essas operações não são isoladas, mas articuladas a partir de estruturas organizadas, verdadeiros centros de comando onde os aparelhos são rapidamente concentrados para desbloqueio técnico, revenda ou desmonte. O conjunto dessas práticas evidencia que o roubo de celulares deixou de ser um crime oportunista, assumindo características de um mercado ilícito estruturado, com logística, especialização e inteligência operacional.

A subtração do smartphone, por si só, representa apenas a face mais visível do prejuízo imposto à vítima. O dano mais grave, contudo, ocorre no plano digital, quando o aparelho passa a funcionar como porta de entrada para o patrimônio financeiro e para a vida informacional do usuário. Em São Paulo, grupos criminosos deixaram de atuar predominantemente como intermediários no comércio ilegal de aparelhos para assumir um perfil mais sofisticado, especializado em fraudes financeiras, sequestro de contas e extorsão.

Nesse contexto, o avanço dos meios de pagamento instantâneo ampliou significativamente os riscos. O sistema PIX tornou-se um instrumento central na rápida monetização do crime. Quando o celular é levado com a tela desbloqueada, o acesso ao ambiente bancário é praticamente imediato.

Uma das técnicas mais recorrentes envolve a exploração do próprio chip telefônico. Com o aparelho em mãos, o criminoso solicita a redefinição das credenciais bancárias, fazendo com que os códigos de verificação sejam enviados por SMS ao dispositivo já subtraído. Esse procedimento permite a criação de novas senhas e o controle integral da conta. A partir daí, a dinâmica é rápida: transferências via PIX, contratação de linhas de crédito pré-aprovadas e quitação de boletos ocorrem em sequência, muitas vezes antes que a vítima perceba o alcance do ataque ou consiga acionar os mecanismos de bloqueio.

Acesso às redes sociais

Além do acesso direto ao sistema financeiro, as redes sociais passaram a ocupar um papel central na estratégia das quadrilhas. Plataformas como Instagram, WhatsApp e Facebook funcionam como extensões da identidade pessoal e profissional do usuário, e seu controle permite a expansão do dano para além da vítima direta. Ao assumir essas contas, o criminoso passa a operar dentro de uma rede de confiança previamente construída, o que amplia significativamente o potencial de fraude e extorsão.

Uma das práticas mais recorrentes é a chamada fraude do “empréstimo emergencial”. Nessa modalidade, o criminoso se faz passar pela vítima e entra em contato com familiares, amigos ou colegas de trabalho, solicitando transferências imediatas via PIX. As mensagens exploram situações de urgência — como problemas de saúde, bloqueios bancários ou imprevistos profissionais —, reduzindo o tempo de reflexão do interlocutor e aumentando a taxa de sucesso do golpe.

Outra estratégia amplamente utilizada é a comercialização de produtos ou oportunidades fictícias. Por meio dos recursos de publicações temporárias, os criminosos anunciam a venda de eletrônicos, veículos ou supostos investimentos de retorno rápido. A credibilidade da conta original leva seguidores a realizar pagamentos acreditando estar negociando com alguém conhecido, o que multiplica o número de vítimas em poucas horas.

Há ainda a dimensão mais sensível do sequestro digital: a extorsão baseada em dados pessoais. O acesso à galeria de fotos, arquivos e conversas privadas fornece material para chantagem direta. Nesses casos, o criminoso exige pagamentos sob a ameaça de divulgar informações íntimas, familiares ou corporativas, ampliando o impacto psicológico e reputacional do crime. Essa prática reforça o caráter assimétrico da violência envolvida, na qual o controle da informação se converte em instrumento de coerção econômica.

Centro de Estudos em Economia do Crime

O Centro de Estudos em Economia do Crime foi criado em 2016, com a missão de iluminar os aspectos econômicos do crime. Nosso trabalho principal é informar a sociedade sobre crimes, especialmente roubos e furtos de itens valiosos como automóveis, motocicletas e celulares.

A iniciativa busca gerar conhecimento acessível sobre a economia do crime, visando iluminar causas e consequências da criminalidade para embasar ações práticas.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


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