Balanço do Índice de Distribuição Regional do Gasto Público revela que, apesar do recorde nos investimentos municipais, recursos continuam concentrados em áreas com menor vulnerabilidade social.
A cidade de São Paulo enfrenta há décadas o desafio histórico da distribuição desigual de recursos públicos entre seus territórios. Como tentativa de enfrentar esse abismo socioespacial, a Prefeitura de São Paulo implementou o Índice de Distribuição Regional do Gasto Público (IDRGP) — ferramenta criada em parceria com a iniciativa Reage SP (Rede Nossa São Paulo e Fundação Tide Setubal) e incorporada ao Plano Plurianual (PPA) com a promessa de direcionar pelo menos R$ 5 bilhões para as áreas mais vulneráveis.
Contudo, a análise do relatório do IDRGP realizada pelo Grupo de Trabalho Democracia Participativa (GTDP) da Rede Nossa São Paulo revela que a criação do indicador, por si só, não tem sido suficiente para garantir a equidade na aplicação do dinheiro público.
O diagnóstico: R$ 28,8 bilhões investidos, mas pouca transformação nas bordas
Em um cenário de arrecadação municipal fortalecida, os investimentos liquidados na capital atingiram o montante expressivo de R$ 28,8 bilhões. No entanto, a execução orçamentária aponta que a destinação verba a verba ainda favorece regiões dotadas de infraestrutura consolidada em detrimento dos bairros periféricos.
A atualização dos parâmetros do índice com dados recentes do Censo e do CadÚnico recalibrou as necessidades da cidade — elevando os índices de vulnerabilidade de subprefeituras como Capela do Socorro e Parelheiros e reduzindo os de áreas como Pinheiros. Apesar desse diagnóstico mais preciso, o abismo na ponta da execução se manteve.
Raio-X dos territórios: a grande maioria ficou abaixo da meta
O levantamento da Rede Nossa São Paulo categoriza a distribuição orçamentária do município em três grandes grupos:
• 3 Subprefeituras ‘Acima do Alvo’: Sé, Lapa e Capela do Socorro receberam montantes superiores ao indicador de referência.
• 9 Subprefeituras ‘Dentro do Alvo’: Cidade Ademar, Butantã, Guaianazes, Ipiranga, Mooca, Vila Maria/Vila Guilherme, Vila Mariana, Santo Amaro e Pinheiros receberam valores alinhados às suas metas estatísticas.
• 20 Subprefeituras ‘Abaixo do Alvo’: A esmagadora maioria das regiões administrativas da cidade permaneceu aquém da cota orçamentária necessária para reduzir suas carências históricas.
A concentração observada na Subprefeitura da Sé e na Lapa reforça como os custos de manutenção da infraestrutura do centro expandido continuam consumindo parcelas significativas dos recursos, drenando investimentos que deveriam erguer novos equipamentos de saúde, educação e esporte nas bordas da capital.
Caminhos para tornar o IDRGP uma ferramenta de transformação real
Para especialistas da Rede Nossa São Paulo e do Instituto Cidades Sustentáveis, o IDRGP representa um avanço técnico e conceitual indiscutível, mas precisa deixar de ser um balizamento consultivo para se tornar uma regra vinculante de gestão orçamentária.
Entre as diretrizes propostas para que o índice promova uma justiça territorial efetiva estão:
1 – Vinculação nas Leis Orçamentárias: Incorporar o IDRGP de maneira obrigatória nas Leis Orçamentárias Anuais (LOAs).
2 – Qualificação do Gasto: Garantir que as verbas destinadas às regiões vulneráveis sejam aplicadas em obras e serviços de alto impacto direto na qualidade de vida local, e não apenas em custeio genérico.
3 – Fortalecimento do Controle Social: Ampliar a transparência e dar protagonismo aos Conselhos Participativos Municipais no acompanhamento da execução orçamentária regional.
Destaque – Acima, os dez distritos com as melhores e as piores pontuações na avaliação do Mapa da Desigualdade de 2024, levantamento divulgado no final do ano passado que retrata o cenário mais recente do indicador na capital paulista. Foto: Danilo Alves / Rede Nossa São Paulo




