Sorvete, bebidas frias e alimentos gelados costumam ser evitados durante gripes e resfriados, mas especialistas explicam o que realmente merece atenção.


Quando surgem sintomas de gripe ou resfriado — como dor de garganta, congestão nasal e mal-estar — é comum que conselhos populares entrem em cena. Um dos mais recorrentes é evitar alimentos gelados, especialmente o sorvete, sob o argumento de que eles “pioram a gripe”. Mas será que isso é verdade do ponto de vista médico?

Segundo o otorrinolaringologista Dr. Marcelo Barretto, do Hospital Paulista, a relação entre alimentos gelados e agravamento da gripe é, na maioria das vezes, um mito. “Não existe comprovação científica de que consumir alimentos gelados piora ou prolonga quadros de gripe e resfriado. Essas infecções são causadas por vírus, e não pela temperatura dos alimentos”, explica.

De onde vem a ideia de que gelado faz mal?

A associação entre frio e piora dos sintomas tem raízes culturais e sensoriais. “O que acontece é que, durante uma infecção respiratória, as mucosas da garganta e do nariz estão mais sensíveis e inflamadas. Em algumas pessoas, o contato com alimentos muito frios pode gerar desconforto momentâneo, o que acaba reforçando a crença de que o gelado faz mal”, afirma o médico.

Esse desconforto, no entanto, não significa agravamento da doença. “Ele não interfere na evolução do vírus nem aumenta o risco de complicações”, reforça Dr. Barretto.

Quando o gelado pode incomodar mais

Embora não piorem a gripe em si, alimentos gelados podem causar incômodo em situações específicas. Pessoas com dor intensa na garganta, amigdalite associada ou inflamação mais acentuada podem sentir ardor ou piora temporária da dor ao consumir algo muito frio.

“Cada organismo reage de forma diferente. Se o paciente percebe que determinado alimento gera desconforto, o ideal é evitá-lo naquele momento. Isso é uma questão de tolerância individual, não de contraindicação médica”, orienta o especialista.

Frio também pode aliviar a garganta

Curiosamente, o efeito do frio pode ser benéfico em alguns casos. “Alimentos gelados podem ajudar a aliviar a dor de garganta em determinadas situações, porque o frio tem um efeito analgésico leve, reduzindo a sensação de dor e irritação”, explica Dr. Barretto.

Por esse motivo, inclusive, picolés e sorvetes costumam ser liberados após cirurgias de garganta, como amigdalectomia. “O frio pode proporcionar alívio temporário, desde que o paciente se sinta confortável”, acrescenta.

O que realmente importa na alimentação durante a gripe

Mais do que a temperatura dos alimentos, o que faz diferença durante um quadro gripal é manter uma alimentação equilibrada e adequada ao estado geral do organismo. “A hidratação é fundamental — e deve envolver as vias aéreas como um todo. Além de beber bastante água, o que é essencial, é importante hidratar o nariz, seja com soluções de soro fisiológico ou até mesmo por meio de inalações. Esses cuidados ajudam a fluidificar as secreções e contribuem para aliviar a congestão nasal”, explica o otorrinolaringologista.

Alimentos leves, de fácil digestão e ricos em nutrientes também são aliados da recuperação. “Frutas, legumes, sopas e caldos contribuem para o aporte de vitaminas e minerais importantes para o sistema imunológico”, acrescenta o médico.

Por outro lado, é recomendável evitar excessos. “Alimentos muito gordurosos, ultraprocessados e o consumo excessivo de álcool podem dificultar a recuperação e aumentar o mal-estar”, alerta.

Bom senso acima dos mitos

Para Barretto, a principal recomendação é ouvir o próprio corpo. “Não é o sorvete que vai piorar a gripe, mas também não faz sentido insistir em algo que causa desconforto. O bom senso deve prevalecer”, resume.

Em meio a tantos mitos que cercam as doenças respiratórias, a orientação médica ajuda a separar crenças populares de fatos científicos. “Cuidar da alimentação, descansar e manter-se hidratado continuam sendo as medidas mais eficazes para atravessar a gripe com mais conforto”, conclui.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


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