Antes de entrar para a Política, trabalhei por 25 anos no Jornalismo. Tempo suficiente para aprender a desconfiar de discurso ensaiado, de promessa de TV e de governos mais preocupados em controlar narrativas do que em encarar a realidade. E, hoje, convenhamos, a vida real do brasileiro está dura.

O salário desaparece antes do fim do mês. O mercado pesa. O remédio já não pode mais ser adquirido pelo mesmo preço de antes. O combustível, idem. A feira, lugar de boas promoções, agora, virou local onde se escolhe o mais em conta e não o que se quer levar – e, isso, quando é possível.

Não de hoje, o cartão de crédito virou extensão do salário, não para financiar luxo, regalias, mas para garantir o básico. Há trabalhadores que “passam” a comida do dia a dia no cartão, a fim de conseguir chegar ao fim do mês. É triste, mas essa é a realidade: o brasileiro não está parcelando conforto. Está parcelando sobrevivência.

Enquanto Brasília-DF discute arcabouço fiscal, pacote econômico e governabilidade, há mães e pais analisando qual conta vão deixar de quitar e aposentados estão cortando até remédios de uso contínuo. Já o governo do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), parece viver numa nação paralela. Neste Metaverso, há, inclusive, uma propaganda onde tudo melhora nos discursos, mas piora no bolso. O problema é que ninguém paga farmácia com pronunciamento. Ninguém enche o tanque de combustível com slogan.

O novo “Desenrola” é o retrato dessa contradição. A União oferece uma renegociação de dívidas como grande solução social. Contudo, evita responder à pergunta principal: “por que tanta gente voltou ao sufoco financeiro?”. Ora, as famílias não se endividaram porque resolveram viver acima do que podem. Elas estão endividadas porque viver no Brasil ficou caro demais.

A chamada “taxa das blusinhas” também simboliza bem esse modo petista de governar. Primeiro, o governo federal apoia a cobrança sobre pequenas compras internacionais, vendendo a ideia de que o impacto seria absorvido pelas empresas. Na prática, quem paga é sempre o consumidor. Depois, diante da pressão popular e do desgaste, tenta aliviar a própria medida como se estivesse fazendo um favor ao cidadão.

É o velho roteiro do improviso político: cria-se a dificuldade, arrecada-se em cima dela e, depois, se vende o remendo como solução. Enquanto isso, a máquina pública continua gastando muito, arrecadando mais, taxando mais e entregando menos.

Lula voltou ao poder, em 2022, prometendo estabilidade, prosperidade e comida na mesa. A picanha não veio. O que veio foi o brasileiro olhando preço antes de pegar produto na prateleira, trocando marca, adiando consulta médica, cortando gastos indispensáveis e tentando resistir à uma Economia que maltrata.

E, como se não bastasse, o País ainda viu explodir o escândalo dos descontos indevidos no Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS). A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou quase R$ 6,3 bilhões em descontos sem autorização de aposentados e de pensionistas. Gente humilde, muitas vezes sem condições de se defender, teve o dinheiro retirado do benefício por entidades que deveriam representar essas pessoas, não explorá-las.

Depois, quem acabou pagando a conta? Os responsáveis pelo rombo? As associações envolvidas? Não! Direta ou indiretamente, quem paga a fatura do desmando é sempre o povo brasileiro.

Lula também parece não compreender que o Brasil de 2026 não é o mesmo de 20 anos atrás. Hoje, a população compara, pesquisa, grava, reage, concorda, discorda e desmonta discurso oficial em tempo real. A Internet deu um basta no monopólio da narrativa política. Mas seria um erro acreditar que o desgaste natural do presidente será suficiente para derrotar o PT nas eleições deste ano.

Aqui, cabe uma autocrítica da Direita, e eu me incluo nela. Rejeição não vence eleição — não de maneira isolada. Indignação, também não. Não basta apontar os erros do governo. É preciso voltar a conversar com quem trabalha o mês inteiro, fecha as contas no vermelho e sente, no bolso e na rotina, que a vida piorou.

E, não estou falando apenas sobre rede social. Estou me referindo à rua, ao mercado, ao transporte lotado, à fila do posto de saúde, à conversa olho no olho. Porque, quando um governo perde a capacidade de convencer o cidadão comum, pode até continuar no poder por algum tempo. Todavia, começa a perder algo indiscutivelmente importante: o sentimento popular, o pulso das ruas e a paciência das pessoas.


Rosana Valle – Deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1” e “Rota do Sol 2”.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


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