Entenda as razões científicas para a discrepância entre a voz que você ouve e a que é gravada.


Para muitos, ouvir a própria voz em uma gravação ou filmagem é uma experiência desconfortável. A sensação de que a voz gravada não é a mesma que escutamos ao falar é mais comum do que parece, e isso acontece devido a uma série de fatores fisiológicos e acústicos.

A ciência por trás da nossa voz

A diferença entre a voz que ouvimos ao falar e a que escutamos em uma gravação está ligada à maneira como o som é transmitido para o ouvido interno. Quando falamos, o som chega ao nosso ouvido de duas formas distintas: pelas vibrações que viajam pelo ar e pelas vibrações que percorrem os ossos do crânio. Esse fenômeno é conhecido como transmissão óssea.

O som que ouvimos de outras pessoas ou em gravações chega aos nossos ouvidos através do ar, passando pelo canal auditivo até a membrana timpânica, onde provoca vibrações que ativam pequenos ossos dentro do ouvido médio. Esses ossos, conhecidos como martelo, bigorna e estribo, transmitem a vibração para a cóclea, a parte interna do ouvido, que converte essas vibrações em impulsos nervosos enviados ao cérebro.

No entanto, quando falamos, as vibrações das nossas cordas vocais não se limitam ao ar. Elas também são transmitidas através dos ossos da cabeça, o que cria uma ressonância adicional, proporcionando uma percepção de voz mais grave e “cheia” –conforme explica o Dr. Alexandre Enoki, otorrinolaringologista do Hospital Paulista.

“A vibração que ocorre no crânio dá uma tonalidade mais grave à nossa voz, o que faz com que a voz que ouvimos ao falar pareça mais ‘encorpada’ do que aquela que é captada em gravações.”

A voz gravada e a percepção externa

Por outro lado, a voz gravada é captada apenas pelas ondas de som que viajam pelo ar, o que a torna mais aguda, já que ela não possui a ressonância dos ossos do crânio. Este fenômeno é a razão pela qual muitas pessoas estranham o som da própria voz em gravações: ela soa mais fina e distante do que estamos acostumados.

No entanto, ao ouvir a gravação, você está ouvindo algo mais próximo daquilo que outras pessoas escutam quando você fala. “A voz que você escuta na gravação é, portanto, mais próxima da percepção que os outros têm de sua fala”, afirma o Dr. Enoki.

Por que as vozes são diferentes entre as pessoas?

A voz de cada pessoa é única, e há vários fatores que influenciam essa individualidade. O comprimento e a espessura das pregas vocais, por exemplo, variam de pessoa para pessoa, assim como as diferenças anatômicas da garganta. Essas variações explicam por que até gêmeos idênticos têm vozes diferentes.

Além disso, fatores hormonais, especialmente durante a adolescência, e a atividade vocal ao longo da vida também impactam o timbre e a tonalidade da voz. As mulheres, por exemplo, tendem a ter vozes mais agudas devido ao tamanho menor de suas cordas vocais. Com o envelhecimento, a voz de uma pessoa tende a mudar, já que as cordas vocais e os tecidos que as revestem enfraquecem, o que resulta em uma voz mais fraca.

Aceite a sua voz, ela é única!

E no final das contas, a voz que você ouve em uma gravação é a mesma que todos ao seu redor escutam quando você fala. Pode ser que, ao começar a se acostumar com ela, você perceba que não há nada de errado ou estranho nisso — pelo contrário, sua voz é uma parte especial de quem você é! Ela é única, refletindo não apenas a sua anatomia, mas também as suas experiências e emoções. Então, da próxima vez que ouvir sua voz gravada, tente não se assustar. Afinal, ela é só mais um reflexo do seu jeitinho único de se comunicar com o mundo.


Destaque – Imagem: aloart / GI


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