O fogo em algumas escolas místicas está relacionado à luz e ao conhecimento. O interessante é que muitas pessoas até um passado recente, tinham como momento de distração contar histórias e disseminar conhecimento ao redor de uma fogueira. Já que não havia luz, muito menos sinal de internet.

Com essas conversas ao redor do fogo, surgiram as lendas. Uma forma de explicar fenômenos misteriosos não compreendidos e, ao mesmo tempo, expressar a maneira de pensar daquelas pessoas. Além de passar para as gerações seguintes histórias de família, contadas há muitos anos. Nunca sabemos o quanto de realidade tem nessas narrativas, ainda assim, elas representam a bagagem de vida daqueles que as contam.

Adoro uma boa conversa ao redor de uma mesa com bolo e café, ou queijos e vinhos. São nesses momentos que conhecemos as pessoas, desenvolvemos nossa imaginação e, inclusive, nossa empatia. Quando ouvimos o que outra pessoa tem para nos contar, se realmente prestarmos atenção, vivemos aquela situação como se estivéssemos lá, junto com ela. E isso abre nossa mente para outros pontos de vista.

E assim é com os livros.

A leitura de um livro nos leva para lugares que não conhecemos e nos apresenta pessoas diferentes daquelas com as quais convivemos. E é por isso que penso ser tão importante o incentivo da leitura e a criação de narrativas que incluem lendas. Um bom suspense desperta emoções que nem sabíamos existir, leva nossa imaginação para mundos que não conhecemos. Assim como no filme A história sem fim, não podemos deixar Fantasia desaparecer!

Descobrir como vencer o Lobisomem, ou fugir da Cuca. Criar uma armadilha para capturar o Saci, ou seguir as pegadas estranhas deixadas pelo Curupira. Tudo isso é imaginação popular e tem um significado importante para a comunidade. E nem citei a loira do banheiro!

As lendas são muito mais do que histórias. No fundo, elas carregam a alma de um povo e contá-las faz o leitor viajar no mundo da fantasia e assim, entender e lidar melhor com a realidade. É importante destacar que não falo em viver dentro de uma fantasia, mas sim, aproveitar as histórias para fazer relações com a vida real.

Quando nos sentamos ao redor de uma fogueira, ou de uma mesa forrada de comidinhas e bebidas gostosas, compartilhamos não só a comida, mas também sentimentos. São informações que criam laços, geram expectativas, romances. As pessoas têm sua própria caminhada de vida e a troca de experiências é muito rica. Com tantas distrações nas redes sociais, além de conteúdo fácil e efêmero, vejo esses encontros como um remédio indispensável para uma sociedade na qual cada vez mais somos trancados em estúdios de vinte metros quadrados.

A construção de histórias com base em lendas e culturas locais são uma forma de dialogar com o leitor. Quando conhecemos os hábitos de um povo diferente do nosso, abrimos nossa mente para entender melhor algumas atitudes e esse é o melhor resultado que podemos alcançar com a literatura.


Katia Parente – Escritora, engenheira química e autora de Fazenda Camélia.


Destaque – Destaque – “Quando nos sentamos ao redor de uma fogueira, compartilhamos também sentimentos”. Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


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