Se a questão era evitar os desgastes em confronto com questões sensíveis, o não comparecimento deixa em aberto uma lacuna de credibilidade.

Antes de quaisquer análises, a ausência de três presidenciáveis comprova o distanciamento que ainda existe entre as práticas políticas e o povo brasileiro. O no-show do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do senador Flávio Bolsonaro (PL) e do ex-governador mineiro Romeu Zema (Novo-MG) ao debate da Band é uma falta de respeito para com o eleitorado.

Desviaram do momento de exposição máxima diante das câmeras e causaram decepção.

Evitando o confronto com oposicionistas e outros candidatos, entre eles o experiente Ronaldo Caiado (PSD) — um dos que conhecem a fundo os meandros políticos —, Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante), que lhes questionariam sobre temas sensíveis e escutariam opiniões divergentes, os ausentes abriram margem para novos questionamentos, inclusive sobre corrupção.

Um dos principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva, preferiu participar de uma entrevista para a TV Record, na qual pôde fornecer respostas sem questionamentos. Por sua vez, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo nas redes sociais, no qual disse que gostaria de um debate em alto nível para abordar os assuntos que julga importantes com Lula, seu maior rival à presidência. “Quero debater com quem está destruindo o Brasil”, afirmou Flávio.

Em entrevista à TV Record — que foi exibida no mesmo horário do debate na Band —, Lula afirmou manter uma relação “civilizada” com Trump e que os erros contra a economia e os avanços sobre os cofres públicos no Brasil devem ser comprovados e, se assim for, os envolvidos devem ser punidos — em referência indireta aos imbróglios de seu filho, Lulinha. De qualquer forma, esquivou-se pelos labirintos da sua expertise oratória para longe dos questionamentos dos adversários.

Zema cancelou a participação horas antes do primeiro debate ao vivo entre os candidatos à presidência do país. Ele ocupa uma posição bem abaixo de Lula e Bolsonaro nas intenções de voto, mas poderia trazer mais consistência ao encontro. Justificou sua ausência afirmando que está se preparando para a entrevista que irá ao ar nesta segunda-feira (24), após o Jornal Nacional.

O debate da Band é um dos mais tradicionais do país; a emissora foi pioneira na transmissão em 1989. Faltar a um encontro desse nível em um momento político conturbado — em que a economia apresenta contrastes inéditos e a criminalidade diversifica suas atividades e infiltração nos poderes — é preocupante. Deixa no ar uma incômoda interrogação sobre a real coragem dos candidatos para enfrentar esses problemas.

Apesar de os dois principais candidatos, Lula e Flávio, se encontrarem em posição confortável diante dos demais, trouxeram para suas respectivas campanhas problemas ainda maiores, diante da opinião pública. Quem não tinha dúvidas pode ter mudado de ideia, e quem ainda avaliava o cenário talvez tenha passado a valorizar a postura daqueles que aceitaram o debate.


Gerson Soares – Jornalista e escritor.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

As mulheres que carregam vaga-lumes no estômago iluminam a História

Todas as mulheres carregam vaga-lumes no estomago, segundo um antigo ditado galego. Em algumas, estes vaga-lumes estão adormecidos, mas podem acordar a qualquer momento, em outras, por vezes cansados da luta, deitam-se para repousar. E há aquelas movidas...

Lula e Flávio faltam a debate na Band; Zema cancela participação em cima da hora

Se a questão era evitar os desgastes em confronto com questões sensíveis, o não comparecimento deixa em aberto uma lacuna de credibilidade. Antes de quaisquer análises, a ausência de três presidenciáveis comprova o distanciamento que ainda existe entre as...

Reforma Tributária: a distância entre os lábios e a taça

Diz um antigo provérbio que entre a taça e os lábios há uma grande distância. A imagem parece feita para a Reforma Tributária: entre sua implementação e a promessa de maior competitividade ainda existe uma longa travessia. E parte dela será percorrida sob...

20 anos da Lei Maria da Penha, o Estatuto da Vítima, o spray de pimenta e a proteção à mulher ainda em falta

Principal norma brasileira para prevenir, punir e erradicar a agressão doméstica e familiar contra a mulher, a Lei Maria da Penha (11.340/2006) completa 20 anos em agosto. Mesmo com previsão de expedição de medidas protetivas de urgência, tipificação de...

Concessão de benefícios do INSS para entregadores de App é justiça social

Concedida em caráter liminar e com abrangência nacional, a Justiça do Trabalho determinou recentemente que o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) deve analisar caso a caso pedidos de benefícios a entregadores por aplicativos que tenham se acidentado...

Violência política de gênero: quando a lei existe, mas a proteção não chega

A cada mulher que assume um mandato eletivo no Brasil, soma-se uma probabilidade concreta de sofrer violência por isso — não apesar de estar na Política, mas justamente por ingressar nela. Segundo o Censo das Prefeitas Brasileiras (mandato 2021/2024), do...

O tarifaço americano e o preço da polarização: quando a conta chega ao cidadão

O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao comércio internacional representa muito mais do que uma decisão econômica. Trata-se de um movimento que reorganiza as relações comerciais globais, aumenta a insegurança dos mercados e impõe novos desafios...