No início dos anos 1990, Francis Fukuyama tornou-se um dos mais debatidos cientistas políticos do mundo ao formular a tese do “fim da história”. Influenciado pela filosofia da história de Hegel, Fukuyama não afirmava que os acontecimentos deixariam de existir, mas que a humanidade poderia ter alcançado um ponto de convergência ideológica: a democracia liberal e a economia de mercado apareceriam como a forma de organização política sem um concorrente sistêmico capaz de substituí-las. O próprio autor posteriormente esclareceu que sua tese não previa uma democratização imediata de todos os países, mas uma questão sobre a existência de alternativas superiores ao modelo liberal.

Pouco mais de três décadas depois, entretanto, o mundo parece caminhar em direção oposta àquela expectativa de convergência. O 11 de setembro de 2001 expôs a permanência de conflitos civilizacionais e religiosos que não haviam sido dissolvidos pelo fim da Guerra Fria. A Primavera Árabe, uma década depois, também não produziu a transformação democrática generalizada que muitos esperavam. Paralelamente, novas potências passaram a disputar espaço econômico, tecnológico e militar com o Ocidente.

A China é o principal exemplo dessa transformação. Seu crescimento demonstra que desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e projeção internacional não conduzem necessariamente à adoção da democracia liberal ocidental. O país construiu um modelo próprio, combinando autoritarismo político, mecanismos de mercado e planejamento estatal. O próprio Fukuyama voltou recentemente a discutir o desempenho chinês e os limites de sua tese diante da trajetória assumida por Pequim.

É nesse cenário que os Estados Unidos precisam redefinir sua estratégia internacional. A competição com a China, a guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, os custos das intervenções no Afeganistão e no Iraque e a questão de Taiwan evidenciam os limites de uma potência que pretende exercer influência simultaneamente sobre todos os grandes tabuleiros do planeta.

Donald Trump parece operar a partir dessa percepção. Em vez de imaginar uma ordem internacional inteiramente organizada pela influência norte-americana, Washington passa a dar maior importância à disputa por zonas estratégicas de influência. A América Latina, nesse contexto, recupera uma importância que havia sido relativizada nas últimas décadas. A crescente presença econômica chinesa na região ajuda a explicar essa mudança: Pequim ampliou significativamente suas relações comerciais e estratégicas com países latino-americanos, provocando maior atenção de Washington.

A questão, portanto, não é simplesmente saber se os Estados Unidos continuarão sendo uma grande potência. A questão é saber como preservarão sua posição em um mundo no qual já não possuem o monopólio da capacidade de definir as regras do sistema internacional. Impérios históricos — de Roma aos britânicos — descobriram, em diferentes circunstâncias, que a expansão territorial e política também produz custos de manutenção. O poder pode ser ampliado até o ponto em que sua própria extensão se transforma em vulnerabilidade.

É justamente nessa nova configuração que a América Latina volta a adquirir importância. Washington e Pequim disputam influência econômica, tecnológica e estratégica na região, enquanto os governos latino-americanos procuram preservar margem de autonomia. O Brasil ocupa uma posição particularmente relevante nesse tabuleiro por seu tamanho econômico, sua dimensão territorial, seus recursos naturais e sua capacidade de articulação internacional.

A eleição brasileira de 2026, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma disputa doméstica entre esquerda e direita. Ela ocorre em um momento de retorno da geopolítica e de competição entre modelos de poder. As redes sociais, os algoritmos e a circulação internacional de narrativas tornam as fronteiras entre política interna e política externa cada vez mais porosas.

A história, ao contrário do que uma leitura simplificada de Fukuyama poderia sugerir, não terminou. Talvez estejamos justamente diante de seu retorno mais evidente: um mundo novamente marcado pela disputa entre grandes potências, zonas de influência e diferentes projetos de organização política. E, nesse novo tabuleiro, o Brasil deixou de ser apenas espectador. A eleição de 2026 poderá representar também uma disputa sobre qual posição o país ocupará diante da nova ordem internacional.


Victor Missiato – Professor de História do Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré. Dr. em História e analista político.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


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