Ao longo de quase três décadas na segurança pública, subindo degrau por degrau em um ambiente ainda permeado por machismo e preconceito, entendi que a trajetória de um agente não pode ser dissociada de sua dimensão humana.

A conciliação entre a maternidade e a carreira, somada às cobranças institucionais e sociais, expôs uma sobrecarga que, como em muitos outros casos, resultou em adoecimento psíquico.

O diagnóstico de burnout, síndrome do pânico e ansiedade após 15 anos de função não foi um caso isolado, mas o reflexo de um sistema que negligencia o cuidado com quem protege.

Dados recentes apontam que o autocídio já supera os óbitos em confronto entre policiais. Esse fenômeno decorre de múltiplos fatores: exposição contínua à violência e às cenas de morte e crime; cultura institucional que estigmatiza o pedido de ajuda psicológica, associando-o à fraqueza e ao risco de prejuízos na carreira; pressão laboral, marcada por jornadas extensas, baixos salários e necessidade de trabalhos paralelos; pressão hierárquica e cobrança social exacerbada, que intensificam o desgaste emocional.

Esses elementos configuram um quadro de vulnerabilidade que compromete não apenas a saúde individual, mas também a eficiência institucional. Um agente fragilizado emocionalmente pode ter sua capacidade de julgamento e tomada de decisão comprometida, impactando diretamente a qualidade do serviço prestado à sociedade. Assim, a saúde mental dos profissionais da segurança pública deve ser compreendida como um tema estratégico para a construção de instituições mais humanas e eficazes.

A literatura acadêmica sobre saúde ocupacional reforça que políticas de prevenção e cuidado são fundamentais. Programas de apoio psicológico, espaços de escuta e campanhas de conscientização devem ser incorporados às corporações, rompendo o ciclo de silêncio e preconceito. Além disso, é necessário preparar lideranças para acolher e legitimar o cuidado como parte da cultura organizacional, reconhecendo que investir na saúde mental é investir na eficiência e na legitimidade da instituição.

Portanto, cuidar de quem protege significa proteger toda a sociedade. A segurança pública não pode ser pensada apenas em termos de armamento, disciplina e enfrentamento, mas também em termos de humanidade, acolhimento e sustentabilidade emocional.

A experiência pessoal aqui relatada, somada às evidências empíricas, aponta para a urgência de transformar o cuidado em política estratégica. Só assim será possível garantir que aqueles que se dedicam a proteger estejam, de fato, protegidos.


Raquel Giri – Subcomandante da Guarda Municipal Ambiental de Macaé com mais de 27 anos de serviço público, e autora de Semente do Silêncio: Uma jornada de cura através da escuta interior.


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

Mandato de 12 anos para ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de...

Nove minutos em Copacabana e a conta que nenhum candidato apresenta

Quatro homens executaram uma sentença de morte na calçada por suspeita de furto de bicicleta, e nenhum deles era policial. Enquanto os presidenciáveis prometem prisão perpétua e importam o rigor de outros países, ninguém explica quem paga a conta nem por...

Redes sociais explicam, em números, o poder do Caso Master em impulsionar crises políticas

Há algumas semanas, abordei em um levantamento o período de mais de um mês que torcida do Corinthians levou para produzir cerca de 43 mil menções à hashtag #FicaMemphis, nas redes sociais, e forçar o clube a reabrir uma negociação que já era tratada como...

Split payment deve ficar para 2028, mas o impacto no caixa começa agora

A previsão de que o split payment se torne obrigatório apenas em 2028 foi recebida por parte do mercado como um alívio. Eu faço uma leitura diferente: as empresas ganharam mais tempo para se preparar, mas isso não significa que possam adiar a preparação. A...

Brasil medieval

Esta não é uma história de ficção; é baseada em fatos reais. A temida Inquisição (séc. XII e XIII) da Idade Média queimava pessoas vivas. Quando não havia provas para condená-las, alegava-se bruxaria ou curandeirismo. A partir do séc. XV, já na Idade...

Corrupção: a conta que o Brasil não pode mais pagar

É impressionante como temos, constantemente, nos governos dos partidos de esquerda — que dirigem o país há cerca de 17 anos e meio —, escândalos que contribuem para nos colocar entre os países mais corruptos do mundo, conforme dados da Transparência...

Lula e Flávio faltam a debate na Band; Zema cancela participação em cima da hora

Se a questão era evitar os desgastes em confronto com questões sensíveis, o não comparecimento deixa em aberto uma lacuna de credibilidade. Antes de quaisquer análises, a ausência de três presidenciáveis comprova o distanciamento que ainda existe entre as...