A jogada de mestre da esquerda que levou a oposição a uma armadilha.
A aprovação na Câmara dos Deputados do fim da jornada 6x1 foi comemorada pelos governistas e colocou a oposição em confronto com suas próprias ideias. Firmeza de ideais ainda parece distante da realidade prática da política brasileira, sendo raramente encontrada. Prova disso é que, na hora da votação, a dinâmica se assemelhou à dos peões que caem nas armadilhas dos grandes enxadristas. Era tentar a próxima jogada para evitar o xeque-mate, ou seja, votar a favor da medida e escapar do desgaste imediato perante a opinião pública — que projeta trabalhar menos mantendo a mesma remuneração, conforme define a PEC.
Jogadores que se conhecem há tempos
Assim como quem é levado a arriscar uma jogada perdida, quem votou a favor sacrificou sua coerência ideológica, e dificilmente esse recuo estratégico será esquecido. Assemelhando-se aos peões no tabuleiro, a oposição foi superada pela articulação dos governistas.
Um dos mais expressivos oposicionistas do governo, Nikolas Ferreira (PL-MG), votou a favor, depois criticou a aprovação e tentou se justificar, argumentando que os governistas buscavam desgastar a imagem da oposição. Fica difícil conceber que uma liderança, cujo slogan é ‘futuro presidente do país’ recue em suas convicções declaradas diante da pressão do momento.
Pragmatismo e manobras das massas
Da mesma maneira, outros conhecidos nomes da oposição votaram a favor da medida que preocupa quem produz no país. A lógica da classe política é complexa. Se a oposição se posiciona contra a medida por razões econômicas evidentes e percebe o viés nitidamente eleitoreiro da pauta, por que endossou o projeto no painel? O fim da jornada 6x1 visa influenciar a massa de trabalhadores que, na realidade do dia a dia, vive distante dos bastidores da política.
A aprovação foi uma vitória expressiva do governo, que deve usar seu capital político para manter o resultado no Senado. Em primeiro turno, a aprovação recebeu apenas 22 votos contra; na segunda votação, o número de contrários caiu para 19. Os números mostram claramente como o comportamento parlamentar se padroniza: quando o assunto é o cálculo de votos na urna, as fronteiras entre oposição e governo praticamente se dissolvem.
Sem oposição quando se trata de voto
A PEC que acaba com a jornada 6x1, se aprovada no Senado, deve se transformar neste primeiro momento em um ganho perceptível para os trabalhadores. Afinal, não é de hoje que a população enfrenta jornadas exaustivas e remunerações médias baixas. Uma das questões primordiais, no entanto, será como a iniciativa privada vai repassar os custos dessa mudança para o consumidor. Nesse ponto convergem as reais consequências da medida.
Dos 513 parlamentares — entre os parênteses, a representação total de cada partido na Câmara dos Deputados e quantos votaram contra —, apenas 22 mantiveram-se firmes contra o projeto no primeiro turno de votações:
PL (11 de 97)
• Bibo Nunes (RS)
• Caroline de Toni (SC)
• Daniel Freitas (SC)
• Daniela Reinehr (SC)
• Julia Zanatta (SC)
• Mauricio Marcon (RS)
• Nicoletti (RR)
• Paulo Marinho Jr (MA)
• Ricardo Guidi (SC)
• Rosangela Moro (SP)
• Zé Trovão (SC)
NOVO (4 de 5)
• Adriana Ventura (SP)
• Gilson Marques (SC)
• Marcel van Hattem (RS)
• Ricardo Salles (SP)
MDB (2 de 38)
• Carlos Chiodini (SC)
• Pezenti (SC)
UNIÃO (2 de 50)
• Fabio Schiochet (SC)
• Fausto Pinato (SP)
MISSÃO (1 de 1)
• Kim Kataguiri (SP)
PSD (1 de 48)
• Lucas Redecker (RS)
PP (1 de 47)
• Sérgio Turra (RS)
Brincadeiras à parte, Vossas Excelências
É preciso notar ainda que o distanciamento da realidade por parte dos parlamentares brasileiros parece evidente quando o objetivo é capturar o voto popular por meio de acenos imediatistas, remetendo-nos a lógicas antigas da realeza, em que a corte distribuía benesses para manter sua influência sobre uma população faminta.
Demonstrando flexibilizar o rigor com o mandato que receberam por meio dos votos, parlamentares do PL chegaram a sugerir uma escala ainda mais estapafúrdia, propondo aos congressistas uma escala 4x3. Ou seja, cogitaram Vossas Excelências em estender o desenho para quatro dias de trabalho e três de descanso. De fato, essa postura descolada da realidade econômica só se justifica no isolamento institucional em que convivem, indistintamente, oposicionistas e governistas.
A realidade do país é outra, completamente diferente, em que permanece a escala 7x0, na qual pais e mães de família trabalham também aos sábados e domingos para garantir algum rendimento extra, apenas para manter a comida na mesa, os filhos na escola e pagar as contas básicas da família.
Destaque – Contradição: A celebração daqueles que buscam garantir sua permanência no poder a partir de 2027, enquanto o setor produtivo e a população arcam com os custos estruturais da medida. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Gerson Soares – Jornalista e escritor
Destaque – Imagem: aloart / G.I.



