Estudo mostra que estilo parental com acolhimento e regras claras reduz risco, mesmo quando responsáveis consomem substâncias, como cigarro, vapes e maconha.

Por Luciana Constantino | Agência FAPESP


O consumo de álcool e outras drogas pelos pais influencia diretamente o comportamento dos filhos adolescentes, mas práticas educativas baseadas em vínculo, diálogo e regras claras podem reduzir significativamente esse risco. A conclusão é de um estudo com 4.280 jovens e seus responsáveis, publicado na revista científica Addictive Behaviors sob o título “Does the apple fall far from the tree? When parenting styles disrupt the intergenerational pattern of substance use” (Será que a maçã cai longe da árvore? Quando os estilos parentais perturbam o padrão intergeracional do uso de substâncias).

A pesquisa partiu da pergunta: “Tal pai, tal filho? Os estilos parentais podem interromper o padrão intergeracional do uso de álcool e outras drogas?”. Os resultados confirmaram que o padrão de consumo dos responsáveis impacta os filhos, mas que o chamado estilo parental “autoritativo” — que combina acolhimento e monitoramento — atua como fator de proteção, mesmo em famílias onde há uso de cigarro, vapes (proibidos no Brasil) e maconha (venda ilegal, caracterizada como tráfico).

Foram analisados quatro estilos parentais: autoritativo; autoritário (com efeito protetor menor para álcool); permissivo; e negligente. Apenas os dois primeiros apresentaram efeito de redução de risco, sendo o autoritativo o mais eficaz.

 

 

Influência direta

Os perfis de consumo foram classificados em três grupos: abstêmios; usuários apenas de álcool; e usuários de duas ou mais substâncias.

Quando os pais consumiam álcool, a probabilidade de os filhos também beberem era de 24%, e de 6% para uso de múltiplas drogas. Caso os responsáveis utilizassem várias substâncias, o risco subia para 17% (álcool) e 28% (duas ou mais drogas).

“Com esse estudo, reforçamos o fato de que o padrão de uso de álcool e outras drogas pelos pais influencia o dos filhos. Porém, se eles colocarem regras e limites em casa e derem afeto, esses fatores de proteção minimizam muito o risco que eles mesmos trazem quando consomem essas substâncias. Além disso, o maior preditor de abstinência dos jovens é o não uso pelos responsáveis. Quando eles são abstinentes, 89% dos adolescentes também não usam nem álcool nem outras drogas lícitas ou ilícitas. Foi a associação mais forte que encontramos”, afirma a professora Zila Sanchez, do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), autora principal do artigo.

Sanchez coordena o Núcleo de Pesquisa em Prevenção ao Uso de Álcool e outras Drogas (Previna) e já havia demonstrado, em 2017, que adolescentes com pais negligentes apresentavam maior probabilidade de frequentar aulas sob efeito de drogas.

Projeto em quatro cidades

O estudo integra o projeto “Redução do consumo de álcool entre adolescentes através de uma intervenção multicomponente de base comunitária”, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A pesquisa foi conduzida em quatro municípios paulistas: Cordeirópolis, Iracemápolis, Salesópolis e Biritiba-Mirim.

Os dados foram coletados entre 2023 e 2024. A média de idade dos adolescentes era de 14,7 anos, com distribuição equilibrada entre meninos e meninas.

Entre os jovens, 19,9% relataram consumo de álcool no último mês e 11,4% consumo excessivo episódico. Entre os pais, os índices foram de 56,4% e 20,3%, respectivamente.

Os pesquisadores utilizaram Análise de Classe Latente (LCA) e Análise de Transição Latente (LTA) para identificar perfis de uso e estimar probabilidades de associação entre as gerações.

 

Os dados foram coletados entre 2023 e 2024 em quatro cidades paulistas. A idade média dos jovens foi de 14,7 anos, com distribuição quase igual entre meninos e meninas. Foto: Previna/Unifesp

 

Naturalização aumenta risco

Mesmo em lares com boas práticas educativas, o consumo frequente de álcool pelos responsáveis permaneceu associado ao uso pelos filhos. “Quando o consumo é tratado como algo banal dentro de casa, há maior risco, independentemente do vínculo afetivo”, ressalta Sanchez.

O álcool é um dos principais fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, como problemas cardiovasculares, câncer e diabetes, além de estar associado a ansiedade, depressão e dificuldades de concentração.

Especialistas apontam que retardar o início do consumo é uma das estratégias mais eficazes para reduzir danos futuros. Intervenções comunitárias que combinam ações escolares, programas familiares e estratégias ambientais tendem a gerar efeitos mais consistentes e duradouros.

Cenário nacional

Apesar da proibição da venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), realizado pela Unifesp em parceria com o Ministério da Justiça e a Ipsos Public Affairs e divulgado em 2025, indicam que 56% dos brasileiros experimentaram álcool antes da maioridade e 25,5% passaram a beber regularmente nesse período.

Entre adolescentes de 14 a 17 anos, 27,6% já consumiram álcool alguma vez na vida — cerca de 3,2 milhões de jovens. No último ano, 19% relataram uso (2,2 milhões).

Em relação à maconha, aproximadamente 1 milhão de adolescentes já experimentaram a substância, sendo metade no último ano. Na população geral, 18,7% dos brasileiros já usaram ao menos uma substância psicoativa (excluindo álcool e nicotina).


Destaque – Pouco mais de um quarto (27,6%) dos adolescentes de 14 a 17 anos já consumiu álcool em algum momento da vida, o que corresponde a cerca de 3,2 milhões de pessoas. Imagem: aloart / G. I.


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