Prof. Dr. Edison Hüttner (ehuttner@pucrs.br) — Professor do Programa de Pós-Graduação em História, Escola de Humanidades (PUCRS). Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul.
Tito Livio Zambeccari: o criador da Bandeira da República Rio-Grandense (1835-1845) — Mostra dos estudos realizados no Rio Grande do Sul e em Bolonha, na Itália.
No final de 2024, foi lançada uma pesquisa inédita que comprovou ser o italiano Tito Lívio Zambeccari o criador da bandeira tricolor da República Rio-grandense (Revolução Farroupilha, 1835-1845). O estudo, que inclui um capítulo de livro disponível on-line, ganhou destaque por meio de exposições itinerantes. A primeira mostra ocorreu em Porto Alegre, entre 12 de novembro e 26 de dezembro de 2024, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, com o título “A bandeira farroupilha de Tito Lívio Zambeccari numa tela histórica na Itália, Bolonha (1840-1849).” Posteriormente, a exposição foi levada para Camaquã (RS), São José do Norte (RS), seguirá para Caxias do Sul e outros municípios.

Fig. 1. Edison Hüttner (PUCRS/IHGRGS) e Otello Sangiorgi (diretor do MCR) com bandeira do Rio Grande do Sul. Crédito: Bolonha, Museu Cívico do Ressurgimento
A exposição itinerante em Bolonha
A exposição itinerante da “Bandeira farroupilha de Tito Lívio Zambeccari”, inaugurada em Porto Alegre e Camaquã, foi realizada, em sua versão italiana, no Museu Cívico do Ressurgimento (MCR) em Bolonha, com o título: “Un emblema di libertà: la Bandiera della Repubblica del Rio Grande do Sul e Lívio Zambeccari”. A abertura ocorreu no dia 10 de junho de 2025, às 18h, com uma conferência ministrada em italiano por Edison Hüttner, que levou a bandeira do Rio Grande do Sul para ficar ao lado das bandeiras da Itália e do Brasil.
Esse gesto foi um tributo e agradecimento pela participação de Zambeccari na história do estado. Na abertura, esteve presente o Dr. Eder Abreu Hüttner, que participou da pesquisa. A mostra destacou a figura de Lívio Zambeccari como autor da bandeira gaúcha. Zambeccari nasceu em Bolonha em 1802 e faleceu na mesma cidade em 1862, cujos desenhos permanecem como legado no acervo do MCR.
Conferência em Bolonha
Parte da conferência ministrada, registrada durante a coletiva de imprensa no dia 9 de junho e na abertura da exposição no MCR, no dia seguinte em Bolonha, pode ser lida abaixo:
“Sr. Otello Sangiorgi, Diretor do Museu Cívico do Ressurgimento. Esta semana fiz referência a um importante artigo de alto nível da Revista Comunità Italiana (Niterói, RJ – Brasil, 2025, nº 320) sobre Tito Livio Zambeccari e sua bandeira Farroupilha. Uma bandeira criada para uma República Rio-Grandense, por uma revolução no meio do Império português. Designer, pintor e político, hoje Zambeccari desenharia para esta revista. Se ele tivesse os recursos, truques e técnicas desta revista impressa e online, a revolução teria mais alcance, teríamos mais pessoas. Mas… ‘Ele já está trabalhando’, na verdade, ainda hoje, com seus desenhos, com o desenho de uma bandeira tricolor de Farroupilha: verde, amarela e vermelha (…).”
A amostra ganhou destaque inicialmente na Itália e, em seguida, alcançou repercussão mundial. O tema foi abordado em uma reportagem do jornal Il Resto del Carlino, escrita por Alice Pavarotti, que esteve presente na coletiva de imprensa no MCR em 9 de junho de 2025. Alice é filha do célebre tenor Luciano Pavarotti.
Criação da bandeira
Foi Francisco Modesto Franco quem solicitou a Zambeccari, em Buenos Aires (1833), a confecção de uma bandeira para a República Rio-Grandense, conforme registrado no “Processo dos Farrapos” (1933). Naquele mesmo ano, uma bandeira foi desenhada em Buenos Aires. Com destino a Porto Alegre, Zambeccari içou pela primeira vez o pavilhão tricolor – verde, amarelo e vermelho – a bordo do navio “Bela Angélica”, propriedade de Francisco Modesto Franco, no porto de Buenos Aires, Argentina.
Antes do início da Revolução Farroupilha, em 20 de setembro de 1835, a bandeira tricolor já era utilizada pelas tropas farroupilhas.
No Museu Cívico do Ressurgimento está exposto o desenho da bandeira farroupilha e o cocar, em cima de um pé de erva-mate, assinado por Lívio Zambeccari em 1836. O material nos foi compartilhado durante a abertura da exposição em Bolonha, com os devidos registros, conforme ilustrado na figura 2. Trata-se da mesma bandeira que Zambeccari havia desenhado em Buenos Aires em 1833.

Fig. 3. Tela anônima. Retrato de Livio Zambeccari em traje de Chefe de Estado-Maior de Bento Gonçalves da Silva, década de 1840. Credito: Bolonha, Museu Cívico do Ressurgimento
A outra imagem da bandeira Farroupilha de Zambeccari foi identificada na ponta da lança de um lanceiro negro, retratado em uma tela a óleo de 43,5 x 52,5 cm (1840-49), que se encontra naquele grande Museu Cívico do Ressurgimento em Bolonha (fig. 3-4).

Fig. 4. Bandeira de Livio Zambeccari na ponta da lança de lanceiro negro. Credito: Bolonha, Museu Cívico do Ressurgimento
Prisão de Zambeccari e Bento Gonçalves
No dia 4 de outubro de 1836, Zambeccari foi capturado na Ilha do Fanfa – situada no Rio Jacuí, município de Triunfo – junto com Bento Gonçalves da Silva e enviado para a Fortaleza de Santa Cruz, no Rio de Janeiro. Um mês depois, em 12 de novembro de 1836, foi inaugurada a bandeira oficial da República Rio-Grandense. Nessa versão, a cor vermelha foi reposicionada para o centro, mantendo os mesmos núcleos e o desenho geométrico da bandeira Farroupilha original, criada e pintada por Zambeccari em Buenos Aires em 1833. Vale destacar que as bandeiras da Revolução Farroupilha não apresentavam brasão de armas.

Fig.5. Bandeira oficial da República Rio-Grandense, Decreto de 12 de novembro de 1836. FARRAPOS. Rebelião do Rio Grande do Sul. 1933, p. 2.
“Não precisamos de uma Revolução;
que destrua as casas, escolas e vidas;
precisamos de uma revolução;
que abre as portas da história;
que hasteie outra bandeira;
que glorifique seus verdadeiros heróis.”
Rossetti e Garibaldi visitam Zambeccari
Luigi Rossetti e Giuseppe Garibaldi foram visitar Zambeccari e Bento Gonçalves da Silva na Fortaleza de Santa Cruz. Após o encontro, os dois italianos partiram rumo ao sul para se juntar à Revolução de Farroupilha. Garibaldi construiu barcos em Camaquã e o jornalista Rossetti criou O POVO, primeiro jornal republicano. Os ideais da Jovem Itália lançaram raízes profundas para a criação de uma República Rio- Grandense.
O lema do italiano Giuseppe Mazzini, “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, foi publicado por Rossetti no cabeçalho do jornal O POVO (Caçapava do Sul, 6 de março de 1839, nº 46, p. 1) – conforme ilustrado na figura 5. Posteriormente, passou a ser exibido em painéis republicanos a partir do mesmo ano, 1839.
Bandeira do Rio Grande do Sul
A bandeira oficial do estado do Rio Grande do Sul foi instituída em 14 de julho de 1891. A segunda versão, oficializada em 1892, manteve as cores tricolores de Zambeccari, com o vermelho ao centro – herdado da bandeira oficial da República Rio-Grandense (1835-1845) –, porém sem o brasão de armas e os lemas “Liberdade, Igualdade e Humanidade”. Algumas bandeiras desse período foram confeccionadas no Rio Grande do Sul com brasões de armas, mas não são oficiais. O costume surgiu entre certos Clubes Republicanos do estado, que costumavam estampar brasões inspirados nos lenços da Revolução Farroupilha, desenhados a partir de 1839.
Durante o Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945), as bandeiras estaduais foram proibidas em todo o território nacional. Somente em 1966, o Rio Grande do Sul distribuiu uma legislação específica sobre seu pavilhão tricolor. Por meio da Lei nº 5.213, de 6 de janeiro de 1966, foram oficialmente incorporados à bandeira gaúcha o brasão de armas – inspirados em diversos painéis farroupilhas – e o lema mazziniano “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, conforme demonstrado nas figuras 6 e 7.
“Não há no Riogrande quem se não sinta possuído de justo orgulho ao olhar para aquelas cores, que lembram um passado de glória e honra!”
Alfredo, VARELA, 1896.
Referências
HÜTTNER, Edison; Hüttner, Eder Abreu Hüttner, SORIANO, Felipe Assunção. A Bandeira da Revolução Farroupilha Identificada na Itália em Pintura com o seu autor: Tito Livio Zambeccari (1831 -1835). In: Leonardo Cibils Becker. (Org.). XXIX ANTOLOGIA UBE/RS: Reconstruindo o Rio Grande do Sul. 1ed.Porto Alegre: UBE, 2024, v. 27, p. 27-42. https://repositorio.pucrs.br/dspace/handle/10923/26785
SAUDT, Leandro. GAUCHA GZH(07/11/2024). O que pintura de museu italiano revela sobre a bandeira do RS. https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/leandro-staudt/noticia/2024/11/o-que-pintura-de-museu-italiano-revela-sobre-a-bandeira-do-rs-cm34ln34r00bk015220lf6q29.html
MALINOSKI, André. GAUCHA GZH (21/01/2025). Pesquisador da PUCRS desvenda origens da da Bandeira do RS; pintura em museu de Bolonha seria a chave do mistério. https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/artes/noticia/2025/01/pesquisador-da-pucrs-desvenda-origens-da-bandeira-do-rs-pintura-em-museu-de-bolonha-seria-a-chave-do-misterio-cm619qwjn0192017ryz7zligo.html
LIMA, Clarissa.TVE/RS (22/11/2024) A bandeira farroupilha Tito Lívio… (Ed. Hüttner) https://www.youtube.com/watch?v=SSwqMsdMvnc
OSÓRIO, Eduar. TVE/RS (10/12/2024) A bandeira farroupilha Tito Lívio… (E. Hüttner) https://www.youtube.com/watch?v=UCiQwtBeXJ4
Mostra, Museu Civico de Bolonha. https://www.museibologna.it/risorgimento/schede/un-emblema-di-liberta-mostra-4095/
REVISTA COMUNITÁITALIANA: (Petrópolis -RJ). Pequeno Detalhe, grande descoberta, p.42ss. 2025. https://pdf.magtab.com/reader/revista-comunita-italiana/26187#page/42
PAVAROTTi, Alice. Livio Zambeccari, anima ribelle. Una bandiera da Bologna al Brasile. In: Il Resto del Carlino (10/06/2025).
https://www.ilrestodelcarlino.it/bologna/cronaca/livio-zambeccari-anima-ribelle-una-f11f7e9a
DOMENICO, P. Livio. eroe deidue mondi. In: Jornal Corriere di Bologna, (10/06/2025) https://www.pressreader.com/italy/corriere-di-ologna/20250610/page/9/textview
Atualizado em 17 de outubro de 2025
Destaque – Imagem: aloart / G. I.







