Gerson Soares — Jornalista e escritor.


A exaltação carnavalesca ao presidente da República expõe a simbiose entre poder político, uso de recursos públicos e a normalização de práticas que aprofundam desigualdades, fragilizam a ética e instrumentalizam a cultura popular.

O título ainda poderia comportar escândalos, fraudes e autoritarismo, culminando no desrespeito às normas e na burla sistemática das leis — seja nos gastos públicos, seja na perseguição a adversários políticos, privados de liberdades e direitos fundamentais. A Nação, em décadas de governos petistas nos estados brasileiros, ainda clama por saúde, trabalho, comida e segurança.

A homenagem que será prestada ao atual presidente brasileiro no próximo dia 15, na Marquês de Sapucaí, atravessa não apenas os 700 metros da passarela do samba — que leva o nome de Darcy Ribeiro, autor da obra “O Povo Brasileiro” — como também atravessa, mais uma vez, os limites da legitimidade e da ética. Isso se materializa no repasse de cerca de 1 milhão de reais à escola de samba que o homenageia, em pleno ano eleitoral.

Focado em uma agenda carnavalesca, depois de distribuir 12 milhões de reais à Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), Lula pode até desfilar em carro alegórico — Janja já confirmou participação no desfile da Acadêmicos de Niterói —, em busca da consagração simbólica de seus feitos no mais famoso palco de manifestação popular do país. Há, ainda, planos de viagens para outras capitais além do Rio de Janeiro, com um objetivo evidente: as eleições de outubro.

Os políticos brasileiros não parecem governar com um projeto de país, mas sim com os olhos fixos na próxima disputa eleitoral. A cada dois anos, os brasileiros são chamados às urnas. Mudam-se os discursos, renovam-se promessas, mas os problemas estruturais insistem em se repetir.

Fundado em 1980, o Partido dos Trabalhadores já havia lançado, em 1979, seu manifesto político. Na época, textos e imagens foram impressos nas oficinas do então Diário Comércio & Indústria, no bairro da Mooca, em São Paulo, em cadernos simples, com espiral, que denunciavam os abusos da ditadura e exaltavam a defesa dos mais humildes e das pautas libertárias.

Lula aparecia nas diversas fotografias em preto e branco, jovem, carismático, capaz de inspirar multidões. Sua trajetória política está disponível para quem quiser conhecê-la. As promessas daquela época são águas passadas, ficaram no passado.

Quarenta e sete anos se passaram. Em seu terceiro mandato como presidente da República, Lula recebe uma homenagem aos 80 anos de vida, embalada pelo samba-enredo “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”.

O poeta da letra evoca palavras de ordem como “Sem anistia” e ao mesmo tempo celebra que “o amor venceu o medo”. A pobreza e a fome também são mencionadas — mazelas que já existiam quando o país optou por gastar fortunas na construção de estádios para a Copa do Mundo de 2014 sob o governo petista de Dilma Roussef, ignorando prioridades sociais elementares.

A coerência segue distante do pensamento petista e de seus apoiadores. A homenagem do Carnaval carioca é questionada por partidos de oposição, enquanto os repasses de verbas à escola de samba foram alvos de análises do Tribunal de Contas e Procuradoria-Geral da União.

Convenientemente, a Acadêmicos de Niterói será a primeira agremiação a desfilar. Assim, o mundo assistirá à abertura do Carnaval do Rio de Janeiro sob a exaltação ao presidente da República, em versos entusiásticos que glorificam um líder que, paradoxalmente, utiliza a fome e a insegurança como instrumentos recorrentes de sua narrativa política.


Destaque – Imagem: aloart / G. I. / IA image


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