Michelle Farran – Empresária, usuária da cannabis medicinal e sócia de uma empresa do ramo no Brasil.


No último dia 26 de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apresentou uma proposta de regulamentação para a produção de cannabis medicinal no Brasil, em atendimento a uma determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). A intenção é concluir o processo até março, definindo as regras que vão permitir, pela primeira vez, o cultivo e a produção de cannabis no país com fins medicinais e farmacêuticos.

Segundo a proposta, a produção ficaria restrita a pessoas jurídicas, com controle sanitário prévio, rastreabilidade completa, e limitação de teor de THC em até 0,3%, valor que distingue o chamado cânhamo medicinal da maconha com efeitos psicoativos.

Esses três pontos centrais – produção apenas por empresas, quantidade pré-aprovada de produção e limite de THC até 0,3% – não vão agradar a todas as associações de pacientes que hoje trabalham com níveis de THC maiores e com menos exigências de autorização prévia do que a proposta sugere. Esse descontentamento é palpável e traduz em movimentação contrária por parte dessas entidades.

Isso porque muitas associações têm atuado de forma mais direta com famílias e pacientes que dependem de tratamentos diferenciados, muitas vezes com compostos que vão além dos limites propostos na minuta regulatória. A regulamentação, no formato apresentado, vai criar mais barreiras operacionais e burocráticas para esses grupos, ainda que venha corrigir uma lacuna legal histórica.

Por outro lado, abrir as portas para uma produção nacional regulamentada representa um marco extremamente positivo para o setor. Hoje, o Brasil já possui a venda de produtos à base de cannabis medicinal, mas quase 100% dos insumos vêm do exterior – de países como Uruguai, Colômbia e Estados Unidos – o que encarece enormemente o produto final para o paciente brasileiro.

Ter uma cadeia produtiva que vá do plantio à venda final aqui no Brasil pode, de fato, reduzir custos, democratizar o acesso à cannabis medicinal e fortalecer uma indústria nacional, com geração de empregos, pesquisa científica e inovação tecnológica. A regulamentação, se bem implementada, pode permitir que o Brasil seja um protagonista relevante no setor global de cannabis medicinal.

Ainda assim, é essencial reconhecer que a forma como as regras estão sendo elaboradas pode limitar o alcance de pacientes que já têm demandas específicas. Por isso, a proposta da Anvisa precisa avançar com sensibilidade, diálogo e flexibilidade, para que o Brasil não apenas regule, mas regule bem, priorizando os direitos de quem depende desse tratamento.

Agora é esperar até março, quando a proposta será finalizada, e acompanhar atentamente o que, de fato, será aprovado. O passo é, sem dúvida, muito importante — mas a construção de um marco regulatório que sirva de exemplo precisa ouvir todos os elos da cadeia e colocar o paciente no centro dessa discussão.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


Leia outras matérias desta editoria

20 anos da Lei Maria da Penha, o Estatuto da Vítima, o spray de pimenta e a proteção à mulher ainda em falta

Principal norma brasileira para prevenir, punir e erradicar a agressão doméstica e familiar contra a mulher, a Lei Maria da Penha (11.340/2006) completa 20 anos em agosto. Mesmo com previsão de expedição de medidas protetivas de urgência, tipificação de...

Concessão de benefícios do INSS para entregadores de App é justiça social

Concedida em caráter liminar e com abrangência nacional, a Justiça do Trabalho determinou recentemente que o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) deve analisar caso a caso pedidos de benefícios a entregadores por aplicativos que tenham se acidentado...

Violência política de gênero: quando a lei existe, mas a proteção não chega

A cada mulher que assume um mandato eletivo no Brasil, soma-se uma probabilidade concreta de sofrer violência por isso — não apesar de estar na Política, mas justamente por ingressar nela. Segundo o Censo das Prefeitas Brasileiras (mandato 2021/2024), do...

O tarifaço americano e o preço da polarização: quando a conta chega ao cidadão

O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao comércio internacional representa muito mais do que uma decisão econômica. Trata-se de um movimento que reorganiza as relações comerciais globais, aumenta a insegurança dos mercados e impõe novos desafios...

PL da Misoginia: quando o ódio às mulheres deixa de ser opinião e se torna crime

A recente decisão da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, de submeter o Projeto de Lei (PL) da Misoginia (896/2023) a regime de urgência, reconfigura, em termos simbólicos e normativos, o lugar da violência de gênero no Direito Penal brasileiro. Ao...

Quando o golpe usa o próprio sistema de Justiça

Fraude que se vale de dados reais expõe falhas institucionais e exige resposta conjunta de tribunais, bancos, plataformas e advocacia. Um golpe silencioso, sofisticado e cada vez mais frequente vem se espalhando pelo país: o golpe do falso advogado....

Copa do Mundo: a camisa da Seleção pesou menos do que deveria

O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos...