Eduardo Toffoli Pandini – Médico infectologista e autor de “De miasmas a vacinas – Uma história das doenças infecciosas”.


Estudar as doenças do passado costuma ser visto como um exercício acadêmico distante das urgências do presente. No entanto, a história das epidemias e das respostas humanas a elas revela-se cada vez mais atual em um mundo marcado pela circulação acelerada de pessoas, pela disseminação de desinformação e pela fragilidade da confiança social na ciência.

Mais do que um relato histórico, o estudo das doenças infecciosas funciona como um mapa para navegar em um cenário no qual o ceticismo e a polarização continuam a desafiar o conhecimento científico, mostrando que as lições do passado permanecem sendo uma das melhores defesas contra os dilemas do futuro.

A trajetória que vai das teorias dos miasmas às vacinas modernas é um espelho desconfortavelmente fiel do nosso tempo. Assim como no início do século XX, quando a Revolta da Vacina expôs tensões profundas entre ciência, Estado e população, o avanço do conhecimento hoje ainda encontra resistência, medo e narrativas distorcidas.

A história deixa claro que as vitórias da ciência nunca são definitivas: a confiança pública precisa ser constantemente construída, explicada e defendida. Ignorar essa dimensão social do progresso científico é abrir espaço para a repetição de erros já cometidos.

Conhecer a fundo a relação da humanidade com os micro-organismos desde os primórdios da civilização não é apenas uma questão de curiosidade intelectual, mas um instrumento para evitar equívocos recorrentes. Epidemias passadas mostram que respostas baseadas exclusivamente em soluções técnicas tendem a fracassar quando desconsideram fatores culturais, sociais e simbólicos.

O legado da Revolta da Vacina, por exemplo, ensina que imunização não é apenas um ato médico, mas um desafio coletivo que exige diálogo, compreensão do contexto social e sensibilidade às percepções da população.

Além disso, as doenças infecciosas raramente são reconhecidas como agentes centrais de transformação histórica. No entanto, elas moldaram o destino de povos e nações, influenciaram economias, alteraram práticas religiosas e reconfiguraram a forma como sociedades se organizam.

A vida moderna, apesar de seus inúmeros benefícios, ampliou também nossas vulnerabilidades. A mesma conectividade que encurta distâncias permite que um vírus, surgido a partir de uma mutação localizada, atravesse continentes em poucas horas.

Ao observar essas dinâmicas sob a lente da história, torna-se evidente que muitos dos riscos atuais não são inéditos, apenas assumiram novas escalas e velocidades.

Em um mundo no qual novas epidemias são uma possibilidade concreta, refletir sobre as doenças do passado nos prepara para os desafios do presente e do futuro.


Destaque – Bonde virado durante a Revolta da Vacina, RJ – 1904. Imagem: Wikipedia / +aloart


Leia outras matérias desta editoria

O que seria da educação sem as mulheres?

Esther Cristina Pereira No Dia Internacional da Mulher, vale uma reflexão que muitas vezes passa despercebida: em praticamente todas as sociedades, desde os primeiros momentos da vida, a educação tem forte presença feminina. Na verdade, a...

Escala 6×1: entre a proteção social e a realidade econômica do trabalho no Brasil

Karla Kariny Knihs Krefer Débora Cristina Veneral O encaminhamento de propostas de emenda constitucional sobre o possível fim da escala 6x1 recoloca no centro da agenda pública um dilema sensível: como conciliar proteção ao...

As farmácias nos Estados Unidos não vendem apenas medicamentos, e isso ajuda a entender o debate no Brasil

Eduardo Rocha Bravim Quem visita uma farmácia nos Estados Unidos pela primeira vez costuma ter a mesma sensação: a de estar entrando em um pequeno mercado. E essa percepção faz sentido. O modelo americano de farmácia é bastante diferente do...

O “Inquérito das Fake News”: investigação sem fim, um STF sem limites e a ameaça à liberdade de expressão

Rosana Valle Por muito tempo, campanhas digitais negativas eram vistas como ações artesanais, dependentes de esforço humano intenso, coordenação manual e alcance limitado. Atualmente, a combinação de inteligência artificial e automação...

Cuidado! O que fazer quando o plano de saúde nega consulta ou cirurgia?

Nathália de Almeida Sabemos que receber a negativa de um plano de saúde quando há dor, urgência ou risco à saúde é uma experiência profundamente angustiante. Aqui falamos de um momento em que o paciente ou a família esperam acolhimento e...

A quebra de patente do Mounjaro para o combate à economia subterrânea dos injetáveis e a diminuição dos riscos sanitários

Celeste Leite dos Santos A polêmica em torno das populares, mas ainda onerosas, canetas emagrecedoras ganhou, recentemente, novos contornos, com a aprovação, na Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, da tramitação, em regime de urgência, de um...

Por que o interior do Nordeste virou terreno fértil para o varejo?

Paulo Borges Em um mercado menos saturado e mais próximo das pessoas, o varejo do interior do Nordeste transforma desafios históricos em vantagem competitiva. Falar sobre varejo no interior do Nordeste exige ir além dos estigmas. Embora a...