O fim de uma era? Peleja mostra como cerco policial ao entorno do Allianz Parque mudou a dinâmica de um bairro. Documentário expõe tensão entre segurança e exclusão no entorno do estádio, onde torcedores sem ingresso criaram cultura própria de vivência do clube.


Em dias de jogo do Palmeiras, o entorno do Allianz Parque sempre foi mais do que passagem. Foi arquibancada alternativa, ponto de encontro, extensão da identidade alviverde. Com a implantação do cerco policial, no entanto, essa dinâmica mudou. É esse fenômeno, marcado por restrições policiais e resistência popular, que o novo documentário do Peleja coloca em evidência ao mostrar como o cerco implementado em 2016 dividiu a torcida entre os que entram na arena e os que ficam do lado de fora, criando duas formas distintas de ser palmeirense.

A produção acompanhou torcedores, comerciantes e frequentadores históricos das ruas para mostrar como a transformação do antigo Palestra Itália em arena redefiniu não apenas o perfil de quem entra no estádio, mas também de quem ficou do lado de fora. Para muitos, a rua segue sendo o lugar onde o Palmeiras é vivido de forma mais intensa, mesmo quando o acesso a ela passa a ser condicionado a um ingresso.

“O que vemos é uma segregação dentro da própria segregação. O ingresso já exclui uma parcela de torcedores. Agora, mesmo quem quer viver o clube na rua, com os seus, enfrenta barreiras. O documentário mostra que essa divisão não é apenas física. É simbólica. De um lado, o estádio moderno, com regras rígidas e público específico. Do outro, a rua, onde a essência popular do Palestra Itália ainda pulsa”, afirma Pedro Brienza, head de conteúdo do Peleja.

O documentário mostra que, após a reforma de 2014, às ruas ao redor do estádio passaram a concentrar torcedores que não conseguem acessar o jogo formalmente. Sem ingresso, muitos passaram a acompanhar partidas do lado de fora, reunidos em bares, calçadas e esquinas que se tornaram parte do ritual do jogo.

Esse movimento ganhou força em decisões importantes, como finais e títulos, quando o clima dentro do estádio se reproduzia fora dele. Para parte da torcida, especialmente a que vem de regiões mais afastadas da cidade, a rua representa não apenas uma alternativa, mas a essência do clube: mais próxima, mais coletiva e menos filtrada.

“O cerco policial ao Allianz Parque mostra como o futebol não está imune à segregação urbana. A partir do momento em que só quem tem ingresso pode circular em dia de jogo, as ruas, que são um dos poucos espaços livres para reunião desses torcedores, passam a ser apenas de quem pode pagar. Isso ajuda a criar um público cada vez mais elitizado, dentro de um futebol que fica mais caro a cada temporada”, destaca Julia Ferratoni, produtora e roteirista do projeto.

Cerco, controle e exclusão

O cerco foi instaurado com base na Lei Estadual de Segurança em Jogos de Futebol, que permite às autoridades restringir a circulação de pessoas no entorno dos estádios. Em 2016, Polícia Militar, Ministério Público e o próprio Palmeiras justificaram a medida como forma de impedir o comércio ambulante e reduzir a criminalidade. Na prática, torcedores passaram a precisar de ingresso até para circular pelas ruas próximas ao Allianz Parque.

A produção registra relatos de abordagens hostis, episódios de repressão e a sensação de estranhamento de quem passou a ser impedido de ocupar um espaço que sempre considerou seu. O contraste fica ainda mais evidente em momentos de celebração, quando a festa do lado de fora é interrompida por ações policiais.

“O documentário olha pros torcedores que ficam do lado de fora, pra quem vive a rua e a torcida, mas que seguem sendo tratados como ‘ameaça’, com uma justificava que pouco tem a ver com segurança”, analisa Julia.

Ao percorrer bares tradicionais, costureiras de bandeirões, comerciantes e torcedores organizados, o documentário revela como o entorno do Allianz funciona como um microcosmo da cidade. Ali, profissões, origens e trajetórias diferentes se cruzam em torno de um mesmo pertencimento.

Essa convivência, segundo a produção, ajuda a explicar por que o debate sobre o cerco vai além da segurança. Trata-se de quem tem direito de viver o futebol e de que maneira. Para muitos entrevistados, a rua preserva uma lógica mais próxima do antigo Palestra Itália, onde o clube cresceu junto com o bairro e com seus moradores.

“O futebol brasileiro foi construído nesses espaços informais, de encontro e troca. Quando eles são esvaziados, a experiência fica mais padronizada e menos representativa da diversidade da torcida”, conclui Brienza.

Assista ao documentário.

 

 


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


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