Fernando Capano — Advogado; doutor em Direito do Estado, pela Universidade de São Paulo (USP); doutor em Direito do Estado e Justiça Social, pela Universidade de Salamanca (Espanha); mestre em Direito Político e Econômico, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e sócio-fundador da Capano e Passafaro Advogados.


A proposta da Prefeitura de São Paulo de conceder bônus de até R$ 1 mil por motocicleta furtada ou adulterada recuperada por agentes da Guarda Civil Municipal (GCM) parece, à primeira vista, iniciativa louvável. A lógica é simples: premiar a eficiência com estímulo financeiro. Porém, políticas públicas, sobretudo na seara da Segurança, não podem ser desenhadas com base em soluções fáceis para problemas complexos — sob pena de produzirem efeitos colaterais mais graves que o mal que pretendiam combater.


O caso é exemplar do chamado “efeito cobra”, fenômeno clássico da economia comportamental. A expressão surgiu na Índia colonial, quando o governo britânico decidiu pagar recompensas por cobras venenosas mortas. O que parecia um incentivo eficaz, no entanto, logo se tornou um desastre: moradores passaram a criar cobras apenas para matá-las e lucrar. Quando o governo se deu conta da situação, cancelou o programa, levando os criadores a libertaram os répteis. Resultado: a infestação em Deli se agravou.

Exemplos contemporâneos deste tipo de efeito não faltam. No Brasil, um dos mais emblemáticos recai na gratificação faroeste, adotada, informalmente, no Rio de Janeiro, nos anos de 1990. Policiais militares que apresentavam altos números de confrontos letais — ou seja, os que mais matavam — passaram a ser prestigiados dentro das corporações: recebiam gratificações ou promoções, e eram transferidos para unidades “privilegiadas”, “melhor localizadas”. Moral da história: houve a institucionalização da violência letal, a banalização do uso da força e o surgimento de milícias que se beneficiavam dessa lógica distorcida de estímulo.

A proposta paulistana, ainda que não envolva o uso da força letal, incorre na mesma armadilha: atrela recompensa financeira à produção de um resultado específico e quantificável — sem medir os efeitos deletérios de tal indução. Ao meu ver, há risco concreto de desvio de finalidade, manipulação de dados, distorção de prioridades operacionais e, no limite, estímulo à corrupção, com direito a encenações de recuperação, acertos espúrios, ou até mesmo ocultação de dados para inflar estatísticas. Afinal, quem vigia o vigia?

Mais grave, ainda, é o precedente institucional que se abre: o da mercantilização da função pública. O combate ao crime não pode ser tratado como prestação comissionada, como se a Segurança Pública fosse balcão de negócios, ou um “bater metas”. A função do agente da GCM — tal qual como a de qualquer servidor lotado nas Forças de Segurança — deve ser estruturada sobre princípios bem definidos em nossa Constituição Federal, como legalidade, impessoalidade e profissionalismo, não sobre promessas de gratificação por performance seletiva.

Segurança Pública eficaz exige investimento em inteligência, em estrutura, em formação continuada e em valorização perene dos profissionais — e não em bônus pontuais que estimulam atalhos e distorcem finalidades. Medidas como esta do Executivo paulistano, sob o pretexto de resolver um problema, podem acabar gerando um outro, muito maior e pior, conforme já sublinhado nas linhas acima.

O risco é claro: transformar o que, de repente, seja uma boa intenção num novo “efeito cobra”, no qual a caça à bonificação desvia o foco da verdadeira missão da Segurança Pública na maior cidade da América Latina e, infelizmente, segundo os índices mais recentes, uma das mais violentas do País. Justiça e Segurança não podem ser balizadas com prêmios — constroem-se com política pública séria, planejamento técnico e compromisso institucional.


Leia outras matérias desta editoria

A falência da Justiça no caso Henry Borel: impunidade que premia a omissão na tortura e na morte de uma criança

A decisão que desclassificou a conduta de Monique Medeiros no caso Henry Borel, culminando em “perdão judicial”, não é apenas desfecho legal questionável; é um golpe na credibilidade do sistema penal brasileiro - um verdadeiro tapa na cara da sociedade....

Sem eufemismo: PCC e CV serão enfim chamados pelo que de fato são

A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou reações previsíveis. Houve quem comemorasse, quem criticasse e quem tentasse reduzir a medida à polarização...

A cidade que expulsa seus idosos expulsa a si mesma

A cidade de São Paulo volta a revelar suas entranhas. Toda vez que um grupo de moradores decide quem pode, e quem não pode, existir no quarteirão ao lado, os preconceitos mais intestinos à sociedade aparecem. A pressão de moradores da Lapa para expulsar...

A força do voto para escolher em quem podemos confiar para cuidar do que é de todos nós

Vivemos um tempo em que a informação cabe na palma da mão. Em poucos segundos, qualquer cidadão acessa dados que antes exigiam horas de pesquisa: histórico político, processos judiciais, votações no Congresso Nacional, declarações públicas, patrimônio e...

PEC 6×1: proteção ao trabalhador, sem abrir mão do desenvolvimento

Aprovada pela Câmara dos Deputados, em Brasília, no final de maio, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/19) que acaba com a jornada de trabalho 6x1 no país, agora aguarda por um parecer do Senado Federal. Caso avance e até que seja sancionada pelo...

Uma cidade cada vez mais tecnológica e inteligente

A capital paulista, em meio ao seu rico patrimônio histórico, arquitetônico e urbanístico, também se destaca como avançado hub de tecnologia. Para traduzir isso em dados concretos, realizamos, na São Paulo Negócios, o inédito estudo "Avança Tech /...

Feminicídio em alta e a urgência de leis mais duras e efetivas contra agressores

O governador Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) anunciou a instalação de 69 Salas DDM (Delegacias de Defesa da Mulher), dentro dos próximos meses, no estado de São Paulo. Deste total, 60 unidades vão funcionar em cidades do interior, incluindo...