Aprovada pela Câmara dos Deputados, em Brasília, no final de maio, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC 221/19) que acaba com a jornada de trabalho 6x1 no país, agora aguarda por um parecer do Senado Federal. Caso avance e até que seja sancionada pelo presidente da república, e então transformada em Lei, os principais desafios do ponto te vista jurídico estarão relacionados à implementação prática da nova jornada sem violação de direitos já incorporados aos contratos de trabalho.

Naturalmente, toda mudança estrutural exige cautela. Alguns setores poderão enfrentar dificuldades de adaptação, especialmente pequenas empresas e atividades que funcionam continuamente, como comércio, saúde, transporte e indústria. O grande desafio será construir uma transição equilibrada, com segurança jurídica e adaptação gradual dos setores mais sensíveis. Mas é importante afastar a ideia de que proteção ao trabalhador seja incompatível com desenvolvimento econômico.

Ainda que no início do processo da implementação para a mudança surjam discussões judiciais envolvendo horas extras, validade de acordos anteriores, compensações de jornada, remuneração, intervalos e escalas diferenciadas, o que o ocorre em praticamente toda mudança estrutural relevante no Direito do Trabalho, o importante é que o debate seja conduzido com responsabilidade institucional, sem tratar proteção social como obstáculo econômico, mas como elemento essencial para uma sociedade mais equilibrada e produtiva.

Diversos países já avançaram na discussão sobre redução de jornada justamente porque compreenderam que trabalhadores mais saudáveis produzem melhor, permanecem mais tempo empregados e geram menor custo social e previdenciário. É importante compreender que produtividade não depende apenas do número de horas trabalhadas, mas das condições em que o trabalho é realizado. Jornadas excessivas frequentemente geram exaustão, queda de rendimento e adoecimento.

O objetivo da mudança, portanto, não deve ser apenas reduzir horas, mas promover relações de trabalho mais humanas, sustentáveis e compatíveis com a realidade contemporânea.


Clau Camargo – Advogada especialista em direito trabalhista, autora e primeira-dama do município de Arujá, tendo coordenado a Câmara Técnica de Políticas Públicas para Mulheres do Consórcio de Desenvolvimento dos Municípios do Alto Tietê (Condemat+) e atuado como presidente voluntária do Fundo Social de Solidariedade de Arujá.


Destaque – Imagem: Larissa Navarro / Alesp / +aloart


Leia outras matérias desta editoria

PL da Misoginia: quando o ódio às mulheres deixa de ser opinião e se torna crime

A recente decisão da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, de submeter o Projeto de Lei (PL) da Misoginia (896/2023) a regime de urgência, reconfigura, em termos simbólicos e normativos, o lugar da violência de gênero no Direito Penal brasileiro. Ao...

Quando o golpe usa o próprio sistema de Justiça

Fraude que se vale de dados reais expõe falhas institucionais e exige resposta conjunta de tribunais, bancos, plataformas e advocacia. Um golpe silencioso, sofisticado e cada vez mais frequente vem se espalhando pelo país: o golpe do falso advogado....

Copa do Mundo: a camisa da Seleção pesou menos do que deveria

O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos...

Caso Mariana Ferrer: quando o sistema que deveria ser escudo se comporta como espada

Destinada ao Brasil e tornada pública no último dia 3, a allegation letter (Carta Formal de Alegação) elaborada pelo Alto Comissariado dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre possíveis violações processuais no caso Mariana Ferrer...

A burocracia como vantagem estratégica

Apesar do grande volume de recursos públicos disponíveis para empresas no Brasil — apenas em 2024, o sistema de fomento brasileiro disponibilizou quase R$ 1,3 trilhão para financiar o setor produtivo — a burocracia continua sendo um dos principais entraves...

Doenças raras: a lentidão do sistema X a urgência em transformar política pública em lei

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que existem 15 milhões de brasileiros que convivem com algum tipo de doença. O número, altamente expressivo, foi divulgado durante o 11º Cenário das Doenças Raras no Brasil, promovido pela Casa Hunter, em 8/6, em...

Solidariedade para aquecer o inverno

O “1º Censo Nacional da População em Situação de Rua”, realizado neste ano pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), com levantamento feito a partir de dados do Cadastro Único (CadÚNico), sistema do Governo Federal que identifica e...