Rosana Valle — Deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista por formação há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1 e 2”.


A Economia não responde a discursos, mas, sim, a números, que, hoje, mostram um Brasil que voltou a flertar, perigosamente, com o descontrole fiscal. Alertas recentes de órgãos técnicos ligados ao próprio Estado não surpreendem. O País voltou a perder o controle das contas públicas.


O cenário é tenebroso: dívida em trajetória ascendente, carga tributária no limite, arcabouço fiscal desacreditado antes mesmo de se consolidar, Orçamento engessado por despesas obrigatórias e juros altos tentando conter um desequilíbrio que nasce no gasto desordenado. Não se trata de narrativa da oposição, mas, insisto, de matemática: a conta, simplesmente, não fecha.

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) parece administrar o Brasil preso ao passado. Pior: estimula conflitos, transforma adversários em inimigos permanentes e trata a divergência como ameaça.

Como deputada federal em segundo mandato, testemunha da vida política brasileira, vivenciei, entre 2019 e 2022, outra experiência. Não foi um período isento de desafios — que fique claro. Contudo, foi um tempo em que o País avançou em agendas estruturais.

O Congresso Nacional aprovou, à época, o Marco Legal do Saneamento, destravando investimentos, ao passo em que ampliou o acesso de brasileiros à água e ao esgoto. Garantiu-se, ainda, naqueles tempos, a autonomia do Banco Central — medida que protegeu a política monetária do calendário eleitoral e devolveu previsibilidade à Economia.

Resumindo: Houve esforço real para enxugar a máquina pública, enfrentar privilégios e melhorar a governança das estatais, reduzindo prejuízos históricos. Nada disso foi simples, nem popular. Mas, à época, foi preciso; foi responsável.

Hoje, o movimento é inverso. Tem-se uma gestão federal que aumenta impostos e não controla despesas. Que fala em justiça social, enquanto compromete o futuro de quem mais depende do Estado. Que enfraquece regras fiscais e depois se surpreende com juros nas alturas, inflação resistente e desconfiança crescente da sociedade.

Enquanto isso, a pauta política do PT ressuscita narrativas, transforma divergência em crime político e potencializa uma perseguição que conta, muitas vezes, com a complacência de instituições brasileiras, que, por outro lado, deveriam agir com equilíbrio. Parte do Judiciário, por exemplo, perdeu a discrição. Ainda nesta esteira de análise, uma parcela da Imprensa trocou o Jornalismo pela militância, passando a perseguir pessoas, em vez de perseguir a verdade. O resultado é um ambiente tóxico, que afasta investimentos, paralisa decisões e aprofunda divisões pelos quatro cantos do País.

Divorciado da responsabilidade fiscal, de planejamento, de eficiência administrativa e de métodos, o Brasil corre, hoje, risco concreto. Sem ajuste sério nas contas públicas, caminhamos para um cenário em que nem os juros altos, como já citado nas linhas acima, conseguem conter a inflação. Quando isso acontece, o ajuste, em regra, vem de forma abrupta, determinado unilateralmente pelo mercado e com alto custo social.

Ignorar os alertas não é ingenuidade. É escolha política. O Brasil não precisa de mais discurso, nem de mais impostos. Precisa de responsabilidade, de coragem para enfrentar desperdícios e de disposição para governar olhando para a frente. A realidade não negocia. E a conta, como é possível notar, sempre chega.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


Leia outras matérias desta editoria

Caso Banco Master: as Armadilhas do Fundo Garantidor de Créditos

Luís Carlos Demartini Quando a festa vai longe demais. Em condições normais, o risco das instituições financeiras tende a ser contido pelo próprio funcionamento do mercado, no qual os investidores avaliam a capacidade do banco de honrar seus...

A “caneta da vez” deve ser a consciência

Marcelo Rocha Nasser Hissa A recente passagem do Dia Mundial da Obesidade (04/03), traz um alerta importante: estamos diante de um problema crescente de saúde pública. Hoje, cerca de 20% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, e mais de...

Da lei à realidade: desafios do saneamento básico no Brasil

Raquel Cota O Marco Legal do Saneamento define metas importantes para o Brasil: até 2033, 99% da população deve ter acesso à água potável e 90% deve contar com coleta e tratamento de esgoto. Passados mais de cinco anos de sua promulgação, em...

ELE, NÃO: a Comissão da Mulher sob nova direção e o risco de agendas identitárias dominarem o debate no Parlamento

Rosana Valle A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi eleita, recentemente, para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF. A eleição ocorreu dentro das regras regimentais e, como...

Criança de 12 anos “casada” com homem de 35: a normalização da pedofilia num Brasil que não protege suas vítimas

Celeste Leite dos Santos O Brasil voltou a se confrontar com uma sensação coletiva de ruptura quando se difundiu, nas plataformas digitais e na Imprensa, há poucos dias, a notícia de absolvição de um homem acusado de estupro de vulnerável num...

25 anos sem Mário Covas: legado de coragem, de gestão e de equilíbrio

Paulo Serra Há 25 anos, em 6 de março de 2001, o Brasil se despedia de uma das figuras mais marcantes da história política contemporânea: Mário Covas Júnior. Em momento de polarização, de superficialidade no debate público e de escassez de...

O que seria da educação sem as mulheres?

Esther Cristina Pereira No Dia Internacional da Mulher, vale uma reflexão que muitas vezes passa despercebida: em praticamente todas as sociedades, desde os primeiros momentos da vida, a educação tem forte presença feminina. Na verdade, a...