Panorama criminal foi divulgado no levantamento do Centro de Estudos em Economia do Crime (CEEC) da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FEECAP), instituição fundada em 1915 no Centro Histórico da cidade. Tatuapé está entre os bairros com maior número de ocorrências.


Bairros como Vila Matilde (+0,28%) e São Mateus (+1,90%) não apenas resistiram à tendência de queda em São Paulo, mas registraram um aumento no número de furtos. Embora outros bairros da região, como Tatuapé — Top 1 entre os 10 com mais ocorrências — e Ipiranga, tenham tido quedas expressivas em 2025 comparadas a 2024, a resiliência do furto em pontos específicos da zona leste permanece.

Esse é um forte indicativo da presença de uma infraestrutura criminal consolidada, provavelmente ligada a desmanches e receptadores. Em comparação com outras regiões, como a zona sul, sugere uma migração ou especialização da atividade criminosa local para o furto, um crime de menor risco e maior volume, ideal para abastecer o mercado ilegal de peças.

Fonte: Tracker FECAP

Fonte: Tracker FECAP

Bairros da periferia da zona sul, como Grajaú (171 roubos) e Campo Limpo (133 roubos), e da zona leste, como São Mateus (132 roubos), se destacam como as áreas com os maiores números absolutos de roubos. Nesses locais, o roubo representa uma parcela muito maior do total de crimes (35% no Grajaú, 27% no Campo Limpo) em comparação com bairros centrais ou da zona leste mais focados em furto, como o Tatuapé e a Vila Matilde.

Isso indica que, nessas regiões, o risco de um confronto violento para a subtração do veículo é substancialmente maior.

“Uma possível explicação para essa reorganização é a eficácia e, ao mesmo tempo, a limitação geográfica de programas de monitoramento, como o Smart Sampa. Com a intensificação da vigilância eletrônica em áreas centrais e de grande circulação, a criminalidade parece ter se deslocado para onde há menos ‘olhos’”, analisa o coordenador do Boletim Tracker Fecap, Erivaldo Costa Vieira.

O Tracker FECAP estuda a criminalidade usando boletins de ocorrência completos registrados pela Secretaria de Segurança de São Paulo (SSP). Os BOs duplicados são descartados e apenas os que possuem todas as informações (local, horário, etc.) são incluídos. Por isso, os dados do Tracker podem diferir ligeiramente dos divulgados pela SSP.

Cenário de medo

De maneira geral, os furtos (34,5%) e roubos (35,6%) — não só de veículos — aumentaram na região do Tatuapé em 2025 quando comparados com o ano anterior Veja abaixo uma comparação das mesmas modalidades criminais nos meses de janeiro. Entre os anos 2024 e 2026, o aumento foi de 25%; no comparativo entre 2025 e 2026, a incidência de aumento foi de 18,71%.

 

Fonte: SSP

 

Constitucionalmente, as rondas nas ruas do Estado, da cidade e dos bairros devem ser realizadas a cargo da Polícia Militar, tendo ao seu dispor efetivo e condições técnicas de inteligência para funcionar, inclusive à noite e durante a madrugada. Todavia, os moradores da região pesquisada — Tatuapé, Vila Gomes Cardim e Chácara Santo Antonio — precisam apelar para recursos como o pagamento de vigias noturnos, até para entrar e sair de casa à noite.

Fontes policiais nos informaram em janeiro deste ano que a 1ª Cia do 8º BPM/M contava com 3 viaturas operacionais, ou seja, aptas para o trabalho na unidade. O efetivo está incumbido de atender, com esse equipamento, os seguintes locais: Tatuapé, Jardim Anália Franco, Vila Gomes Cardim, parte do Carrão, Vila Gomes Cardim, Cidade Mãe do Céu, Vila Regente Feijó, Chácara Califórnia e Chácara Santo Antônio.

Por sua vez, o comando do 8º BPM/M informou que a 1ª Cia conta com os seguintes recursos, além de 15 policiais recém-chegados:
• 6 viaturas de 2 rodas;
• 5 viaturas de 4 rodas;
• 1 viatura de Ronda Escolar;
• 1 viatura de Base Comunitária de Segurança;
• 3 viaturas de Força Tática;
• 20 policiais empregados no policiamento a pé.

 

Audi Q5 com sinais de colisão ficou estacionado durante um mês e não chamou a atenção de supostos vigias ou das alegadas rondas policiais no local. Levamos a questão às autoridades locais, mas até hoje, não houve respostas. Foto: aloimage

 

Delinquência acentuada

Outro detalhe que chama atenção é a frase dita por autoridades policiais e populares: “Se você atacar um bandido desses, você é que vai preso” ou “se você revidar um ataque, perde a razão”.

Generalizadas nesse tom, essas informações logicamente chegam aos criminosos e, com esse conhecimento, aproveitam. Cidadãos de bem se submeterem pacificamente à vontade dos bandidos para não perderem a razão ou serem presos pode colocá-los em situação de imensa desvantagem. A Justiça brasileira reconhece a legítima defesa, mas exige que ela cumpra rigorosamente os requisitos de necessidade e moderação. Nesse sentido, é tão importante contar com a presença ostensiva da polícia.

Outra frase popular que chama a atenção: “A polícia diz que não pode estar em todo o lugar”.

As câmeras monitoram hoje grande parte das ruas e muitas já se conectam com o Smart Sampa da Prefeitura de SP — um sistema notadamente eficiente que utiliza inteligência e tecnologia. No entanto, nossos dados, deste e de outros levantamentos, mostram que quando a população não recebe a devolutiva das investigações, imagina que elas não progrediram por parte da Polícia Civil, criando a desconfiança, inclusive desestimulando o encaminhamento de BOs.

Moradores do bairro e outras pessoas consultadas acreditam que as leis e a Justiça mandam os criminosos de volta para casa, levando-os a acreditar na existência de um suposto paraíso da delinquência e da impunidade. “As câmeras estão filmando, mas estou esperando uma solução há mais de um ano sobre a investigação”, diz uma pessoa que foi assaltada à mão armada e o crime foi filmado. É disso que os moradores reclamam.


Os nossos canais de comunicação continuam abertos para a manifestação das autoridades.


Destaque – Em setembro de do ano passado, denunciamos ao Conseg Tatuapé presencialmente que este carro com marcas de colisão e pneu dianteiro vazio ou estourado, da marca Audi Q5, cotado em cerca de R$ 300 mil, ficou parado no mesmo lugar do dia 4 de fevereiro até o fim do mês de março de 2025 na Rua Henrique Dumont; fato no mínimo estranho. No local deveria haver rondas da PM, quando na verdade um vigia é que circula e se diz “dono da área”. Até hoje não houve resposta.


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