Luís Carlos Demartini


Quando a festa vai longe demais.

Em condições normais, o risco das instituições financeiras tende a ser contido pelo próprio funcionamento do mercado, no qual os investidores avaliam a capacidade do banco de honrar seus compromissos e exigem maior remuneração quando percebem fragilidades. No caso do Banco Master, as taxas significativamente superiores às praticadas pelo mercado, em relação à remuneração dos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), evidenciava as fragilidades.

A presença do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), embora essencial para a estabilidade do sistema, reduz esse mecanismo de sinalização de risco ao deslocar a atenção do investidor da solidez da instituição para a existência da cobertura do fundo garantidor. Como resultado, a relação entre risco e retorno torna-se distorcida, proporcionando aos investidores rentabilidades elevadas com perigos praticamente inexistentes, mesmo investindo em um banco em situação falimentar.

Nesse contexto, o episódio analisado evidenciou esse desequilíbrio, agravado por ter se mantido por um período relativamente prolongado. Isso porque “não retiramos a bebida da sala quando a festa ficou animada demais”, reforçando a necessidade de fortalecimento da regulação (novas regras), da supervisão (fiscalização) e da transparência, a fim de recompor a perda desse freio natural decorrente da existência do seguro de depósitos. Assim, para evitar esse tipo de distorção, o seguro de depósitos deve estar acompanhado de regras rigorosas e de supervisão constante.

Historicamente, é justamente após episódios como esse que ocorrem mudanças regulatórias relevantes. Em geral, os Bancos Centrais figuram entre os poucos organismos institucionais cujos aprendizados com erros e crises são exemplares. Nesse caso, não deverá ser diferente. As falhas expostas indicam que o Banco Central deverá incorporar os aprendizados desse episódio, corrigindo distorções regulatórias, reforçando a supervisão e ajustando as regras do sistema financeiro para evitar a repetição dos mesmos erros no futuro.

Em contextos de crises, o investidor Warren Buffett fez uma observação que se tornaria célebre: “Só quando a maré baixa se descobre quem estava nadando pelado”. Agora que a maré baixou, infelizmente percebe-se que a realização de práticas inadequadas em série que, aparentemente faziam parte da estratégia de negócios da Instituição, estão ocasionando perdas que são muito maiores do que se imaginava inicialmente. As perdas reveladas até o momento, indicam que o Banco Master, provavelmente, já vinha “nadando pelado” há muito tempo e a festa foi longe demais.


Luís Carlos Demartini – Gerente executivo na área financeira desde 2010, com atuação em gerenciamento de riscos e planejamento de capital. Foi professor universitário por dezoito anos, autor do livro “Crises Financeiras e a Regulação Canguru – Por que só mudamos as regras depois do desastre”.


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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