Gerson Soares — Jornalista e escritor.


Foram tempos difíceis e até para comprar a carne do tradicional churrasco pagava-se ágio. O ágio no açougue funcionava assim: você podia combinar com o açougueiro que iria buscar uma peça de alcatra, por exemplo. O preço que o governo do então presidente José Sarney tentava controlar para conter a inflação durante o Plano Cruzado era tabelado. Mas, se realmente a pessoa quisesse levar a carne para casa, teria que pagar o preço do açougue e não o de tabela, caso contrário a carne sumia.


Talvez, a ideia tenha nascido das melhores intenções. No entanto, poderia ser comparada com a tentativa de frear um veículo segurando o ponteiro do velocímetro ou desligar o digital, ao invés de pisar no freio.

Em 1985, o presidente José Sarney herdou do governo militar a hiperinflação. Vários fatores contribuíram para a alta dos preços durante o período dos governos militares, como empréstimos no exterior que financiaram o “Milagre Econômico”. Ao final do governo do general Figueiredo, em março de 1985, a inflação alcançava picos de 226%. A dívida externa chegava a US$ 105 bilhões, conforme dados do Ipeadata e análises do Banco Central.

Daí em diante, os presidentes eleitos na chamada fase de redemocratização após as ‘diretas já’ — movimentos que devolveram o governo ao poder civil — implementaram diversos planos para conter a hiperinflação. José Sarney (1985-1990) implementou os planos Cruzado e Bresser.

Fernando Collor (1990-1992) foi o mais ousado. Confiscou o dinheiro das contas bancárias, bloqueando caderneta de poupança, CDBs, fundos de renda fixa, valores em conta corrente e investidos no overnight. O Plano Collor estipulou o confisco por 18 meses, deixando 50 mil cruzados novos aos correntistas. O valor hoje seria irrisório devido aos diversos zeros cortados. O Banco Central fez uma simulação em 2008, revelando que a quantia poderia equivaler a cerca de R$ 5,5 mil. De qualquer modo, não resolveu a questão da hiperinflação e Collor sofreu impeachment por querer ficar com o dinheiro alheio.

Com o impeachment de Collor, seu vice-presidente, Itamar Franco (1992-1994), assumiu a presidência do país.

Apoiando o então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, que viria a ser eleito presidente (1995-2003), ambos lançaram o Plano Real em 1994. A transição foi marcada por uma tabela baseada na URV (Unidade Real de Valor) que indexava diariamente o valor da moeda. Um exemplo clássico: a contratar o serviço de impressão gráfica por 1.000 cruzeiros – moeda que circulou até 1993 –, no dia seguinte precisava ser reajustado pela inflação, caso contrário não era executado pela empresa.

 

Sombras do passado – Remarcação de preços nos anos 1980: fantasma do passado. Foto: Altamiro Nunes/AP/Imageplus / Recortes de jornais da época repercutiam a hiperinflação

 

Em junho de 1994, antes do lançamento do Plano Real e da URV, no acumulado em doze meses, a hiperinflação atingiu 4.922%, de acordo com o Banco Central. Com os ajustes do novo plano econômico, a duras penas, no final daquele ano a hiperinflação caíra para 916%. Em 1995, ainda atingia 22% ao mês. Portanto, um processo demorado que levou a debates sobre os prejuízos sociais. Por esses motivos é ponderado imaginar que o controle dos gastos públicos e fiscais seja tão importante.

O Plano Real levou FHC à reeleição e conduziu o país a uma estabilidade que agora está ameaçada. Ao entregar a faixa presidencial a Luiz Inácio Lula da Silva, que venceu as eleições em 2002 e assumiu em 2003 para cumprir seu primeiro mandato, já haviam sido criados diversos dispositivos de controle econômico das contas do governo.

Para introduzir o Plano Real, a primeira providência foi o Ajuste Fiscal (1993-1994), que consistiu na redução de despesas e aumento de receitas para equilibrar as contas públicas. Entre eles, a Lei de Responsabilidade Fiscal, criada no dia 4 de maio de 2000, visando o controle dos gastos da União, estados, Distrito Federal e municípios, condicionando-os à capacidade de arrecadação de tributos desses entes políticos.

Em seu terceiro mandato, Lula desafia os princípios administrativos, gastando indiscriminadamente, sem controle.

O aumento das despesas obrigatórias, a expansão de programas sociais, emendas parlamentares em alta, aumento de custos com a dívida pública superando R$ 10 trilhões em dezembro/2025 são outros fatores relevantes. O atual governo também é responsabilizado por realizar manobras fiscais fora das regras fiscais e gastos com precatórios para financiar políticas públicas no final de 2024 e 2025.

Em 1985, o Brasil estava deixando um período ditatorial. O ano político de 2026 está começando. Em seu contexto, diante do atual cenário de escândalos financeiros, institucionais, desrespeito a princípios constitucionais e a percepção de viver em uma ditadura dos poderes Judiciário e Executivo, a expectativa de aumento da inflação é um motivo adicional de instabilidade que traz lembranças de um passado sombrio.


Destaque – Presidente Lula e o ministro da Fazenda Fernando Haddad. Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

 


Leia outras matérias desta editoria

A luta no gel do STF

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, lutando por um país...

A grande crise brasileira

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, lutando por um país...

Mandato de 12 anos para ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de...

Nove minutos em Copacabana e a conta que nenhum candidato apresenta

Quatro homens executaram uma sentença de morte na calçada por suspeita de furto de bicicleta, e nenhum deles era policial. Enquanto os presidenciáveis prometem prisão perpétua e importam o rigor de outros países, ninguém explica quem paga a conta nem por...

Redes sociais explicam, em números, o poder do Caso Master em impulsionar crises políticas

Há algumas semanas, abordei em um levantamento o período de mais de um mês que torcida do Corinthians levou para produzir cerca de 43 mil menções à hashtag #FicaMemphis, nas redes sociais, e forçar o clube a reabrir uma negociação que já era tratada como...

Split payment deve ficar para 2028, mas o impacto no caixa começa agora

A previsão de que o split payment se torne obrigatório apenas em 2028 foi recebida por parte do mercado como um alívio. Eu faço uma leitura diferente: as empresas ganharam mais tempo para se preparar, mas isso não significa que possam adiar a preparação. A...

Brasil medieval

Esta não é uma história de ficção; é baseada em fatos reais. A temida Inquisição (séc. XII e XIII) da Idade Média queimava pessoas vivas. Quando não havia provas para condená-las, alegava-se bruxaria ou curandeirismo. A partir do séc. XV, já na Idade...