Você já se perguntou por qual motivo, mesmo após comer uma refeição que promove saciedade, o apetite por alimentos doces frequentemente permanece? Ainda que o organismo tenha reconhecido que recebeu alimentos suficientes para atender às necessidades energéticas, a refeição aparenta estar incompleta sem a sobremesa.


Esse fenômeno está menos ligado ao estômago e mais ao cérebro, sugerindo que a sobremesa não está associada apenas a aspectos culturais e psicológicos, mas também a sistemas neurais relacionados ao prazer e à recompensa. Para compreender melhor esse chamado “misterioso compartimento da sobremesa”, é necessário entender alguns conceitos, como os diferentes tipos de fome descritos na literatura. Entre os mais citados estão a fome homeostática, a fome hedônica e a fome emocional.

• Fome homeostática: está relacionada à fome fisiológica, caracterizada por uma necessidade energética real e regulada por hormônios como a grelina, a leptina e a insulina.

• Fome hedônica: motivada principalmente pelos aspectos sensoriais do alimento, como paladar, cheiro e aparência, não estando associada às necessidades energéticas, mas ao prazer, estimulando os sistemas de recompensa por meio da liberação de dopamina, endocanabinoides e opioides.

• Fome emocional: embora relacionada à fome hedônica, está fortemente vinculada às emoções, ocorrendo quando o indivíduo utiliza o alimento como forma de lidar ou mascarar estados emocionais.

Segundo o World Obesity Atlas, 68% dos adultos brasileiros apresentam excesso de peso, sendo 31% classificados como obesos. E as projeções sugerem que metade da população adulta pode ser classificada como obesa até 2030. Deste modo, considerando o aumento do sobrepeso e da obesidade como problemas de saúde de relevância global, torna-se fundamental o conhecimento dos fatores que influenciam o comportamento alimentar e os sinais de saciedade, principalmente pois esse problema apresenta relação com o desequilíbrio entre ingestão alimentar e gasto energético.

Nesse contexto, uma revisão da literatura nutricional observou que quase metade (44,9%) dos indivíduos com sobrepeso ou obesidade apresentavam comportamentos relacionados à fome emocional, associando essa forma de alimentação ao aumento do peso corporal. E, em 2024, o estudioso e colaboradores encontraram uma associação positiva e significativa entre a fome hedônica e o índice de massa corporal, enfatizando que mecanismos motivacionais do comer podem contribuir para o aumento do peso.

Além disso, o ambiente no qual o indivíduo está inserido, bem como a ampla disponibilidade de alimentos ultraprocessados e altamente palatáveis, contribui para esse cenário. Em contrapartida, talvez o problema não esteja na sobremesa em si, mas na quantidade, na frequência e na forma como ela é inserida na rotina alimentar. Muitas vezes, ocorre a resposta automática ao impulso de consumir um doce, mais por hábito do que por desejo real.

Em síntese, o chamado ‘espaço para a sobremesa’ não representa ausência de saciedade, mas a coexistência de diferentes formas de fome. Reconhecer esse fenômeno pode ser mais produtivo do que combatê-lo, permitindo uma relação mais consciente com o alimento e com os próprios sinais do corpo.


Destaque – Imagem: aloart / G.I. / AI image


Kimberly Belluco Camargo – Graduada em Nutrição e em Ciências do Esporte, especialista em Nutrição, Metabolismo e Fisiologia do Exercício, mestra em Educação Física e doutoranda em Ciências da Nutrição e do Esporte e Metabolismo. Docente do curso de Nutrição da Uninter.



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