Dr. Gilberto Ferlin — Otorrinolaringologista e foniatra do Hospital Paulista, referência nacional em saúde de ouvido, nariz e garganta.


Na semana em que celebramos o Dia das Crianças e o Dia dos Professores, vale refletir sobre um tema que conecta saúde e educação de maneira direta: os transtornos de aprendizagem e atenção. Muitos pais e educadores já se depararam com a dúvida: será que a criança está apenas distraída ou desinteressada, ou existe algo além disso?


O déficit de atenção e a dislexia (transtorno específico de aprendizagem que afeta a capacidade de ler, escrever e reconhecer palavras com fluência) são condições frequentemente identificadas no ambiente escolar, mas nem sempre de forma clara. É comum que sinais como perda de objetos, esquecimento de tarefas, dificuldade para manter o foco ou erros frequentes na leitura sejam interpretados como “birra” ou “preguiça”. No entanto, quando esses comportamentos se repetem em diferentes contextos e começam a prejudicar a rotina, podem indicar a necessidade de investigação especializada.

Outro ponto importante é que nem sempre a causa está apenas no cérebro da criança. Problemas de audição, distúrbios de linguagem ou até alterações no sono podem simular sintomas de desatenção. Uma criança que dorme mal em função de apneia, por exemplo, pode apresentar cansaço durante o dia e ter queda de rendimento escolar. Já dificuldades linguísticas podem exigir tanto esforço cognitivo para compreender as aulas que resultam em aparente desinteresse.

No caso da dislexia, os primeiros indícios surgem cedo. Crianças em idade pré-escolar que apresentam atraso de fala, dificuldades em brincar com rimas, em formar frases ou em expandir o vocabulário já merecem acompanhamento. Não é incomum que essas crianças sejam mais tímidas ou busquem interações com adultos em vez dos colegas, justamente porque sentem dificuldade de acompanhar os pares em atividades de linguagem. Aqui, o professor exerce papel fundamental: por estar em contato diário, tem condições privilegiadas de perceber e orientar a família a procurar ajuda.

É nesse ponto que a atuação multidisciplinar se mostra indispensável. O foniatra, médico especializado em comunicação humana, avalia não apenas o aspecto neurológico, mas também possíveis distúrbios auditivos, respiratórios ou motores que podem impactar no desenvolvimento escolar. Uma investigação completa permite diferenciar entre TDAH, dislexia, distúrbios da linguagem e outros quadros que exigem abordagens específicas.

Mais do que o diagnóstico, entretanto, a parceria entre família e escola é o que sustenta o processo de aprendizagem. Planos educacionais individualizados, adaptações de avaliação, uso de recursos multissensoriais e ambientes mais organizados são medidas que fazem diferença. No dia a dia, atividades simples como conversas, leituras em conjunto, jogos de palavras e interações em grupo também fortalecem as habilidades de linguagem e atenção.

Se há uma lição que podemos tirar, é que aprender exige muito mais do que a capacidade de estar atento. Exige sono reparador, audição adequada, linguagem bem estruturada, acolhimento emocional e apoio constante de professores e familiares. Reconhecer os sinais e agir cedo pode transformar a vida de uma criança — e garantir que ela alcance todo o seu potencial.


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