A adição ao jogo afeta um número cada vez maior de pessoas, tendência que tem vindo a agravar-se com o crescimento do jogo online.

Por Dra. Ana Neto, Hospital Lusíadas


Em Portugal, observa-se não só um aumento do valor gasto em jogo, como também um crescimento nos pedidos de autoexclusão, o que revela a dimensão e gravidade do problema. Leia o artigo completo e descubra o que está por detrás desta adição e quais os sinais de alerta a que deve estar atento.

O que é o jogo patológico?

O jogo patológico é uma adição comportamental e uma condição de saúde mental reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e descrita no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais). Caracteriza-se por um padrão de comportamento compulsivo e persistente, em que a pessoa continua a jogar, apesar das consequências negativas que isso traz para a sua vida, como as perdas económicas ou a incapacidade de manter as funções familiares ou laborais. Esta adição pode manifestar-se de diferentes formas, como jogos de casino, raspadinhas ou apostas desportivas, tanto online como offline.

O ato de jogar e apostar estimula o sistema de recompensa do cérebro, o que pode levar à dependência e à incapacidade de cessar o comportamento. Com o tempo, a adição ao jogo acaba por ter um impacto significativo na vida da pessoa, comprometendo as relações interpessoais, as obrigações laborais e a estabilidade financeira, retirando-lhe a capacidade de viver plenamente outras dimensões da sua vida. O ato de jogar torna-se central e, mesmo sem o prazer que sentia no início, continua a fazê-lo ou a pensar em fazê-lo, apesar de todas as consequências.

Quais são os primeiros sinais do vício do jogo?

Nem todas as pessoas que jogam regularmente desenvolvem uma adição. No entanto, porque esta perturbação é mais subtil, ao contrário de outras com substâncias que implicam alterações comportamentais mais visíveis, é importante sabermos reconhecer os primeiros indícios. Alguns dos mais comuns são:

Pensar constantemente em jogos de azar;
:: :: Aumentar progressivamente o montante das apostas;
:: Mentir a amigos e familiares;
:: Ficar irritado ou ansioso quando não consegue jogar;
:: Isolar-se e perder interesse por outras atividades;
:: Jogar para tentar ultrapassar problemas ou emoções negativas;
:: Tentar deixar de jogar e não conseguir;
:: Jogar mais tempo ou com mais dinheiro do que planeava inicialmente;
:: Usar dinheiro destinado a despesas importantes;
:: Quando perde algo valioso ou uma quantia elevada, sente necessidade de voltar a jogar para compensar.

Fatores de risco

Embora qualquer pessoa possa desenvolver dependência do jogo, existem fatores que aumentam o risco de adição:

:: Historial familiar ou pessoal de dependências;
:: Problemas de saúde mental, como depressão, ansiedade ou outras perturbações;
:: Traços de impulsividade;
:: Baixa autoestima ou sensação de solidão;
:: Género e idade: existe maior incidência em homens e adultos jovens ou de meia-idade;
:: Experiências precoces com jogos de azar gratificantes.

Complicações e Consequências

A adição ao jogo, sem tratamento, pode ter consequências graves:

:: Endividamento e problemas financeiros;
:: Perda de emprego e isolamento social;
:: Conflitos familiares e crises conjugais;
:: Desenvolvimento de outras dependências como álcool ou substâncias ilícitas;
:: Risco aumentado de depressão e ideação suicida.

Como apoiar alguém com problemas de jogo?

Se alguém próximo de si precisa de ajuda, o mais importante é ajudar sem julgar.

O que deve fazer:

:: Ouvir sem criticar;
:: Incentivar a procurar tratamento especializado;
:: Sugerir apoio psicológico ou grupos de apoio de pares (jogadores anónimos);
:: Ajudar a criar limites financeiros e incentivar a auto-exclusão dos jogos on-line;
:: Ser paciente mas consistente no apoio, e assertivo quanto à necessidade de tratamento e ajuda;
:: Incentivar a prática de atividades que ocupem o tempo e sejam fonte de prazer, como exercício físico ou hobbies.

O que deve evitar:

:: Minimizar o problema;
:: Pagar as dívidas do jogo (pode reforçar o comportamento);
:: Julgar ou culpar.

Qual o Tratamento?

O tratamento da dependência do jogo pode ser desafiante, uma vez que depende da motivação e adesão do doente. Em muitos casos, o processo de reconhecer o problema e procurar ajuda é gradual. Ainda assim, existem várias abordagens terapêuticas que, combinadas, podem ajudar a pessoa a recuperar o controlo da sua vida e a ultrapassar a adição.

Psicoterapia: A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma ferramenta importante para identificar e substituir padrões de pensamento nocivos por outros mais saudáveis e realistas. Pode também ser eficaz no desenvolvimento de estratégias para reduzir o impulso de jogar, lidar melhor com sentimentos de ansiedade e frustração e promover o autocontrolo.

Medicação: O médico psiquiatra pode optar por complementar o tratamento com terapêutica farmacológica, especialmente quando existem outras comorbilidades psiquiátricas associadas, como a depressão ou ansiedade.

Grupos de apoio: Falar com pessoas que estão a passar ou já passaram pela mesma situação pode ser bastante benéfico para o processo terapêutico. Existem grupos específicos para este tipo de adição que promovem a partilha de experiências e o suporte emocional, permitindo ao doente expressar o que sente num ambiente seguro, sem medo de ser julgado.

Conhece alguém com dependência do jogo ou procura ajuda para ultrapassar o problema?

A recuperação é possível com o apoio certo. O Hospital Lusíadas Alfragide, unidade dedicada à saúde mental e neurológica, possui um Centro de Reabilitação de Adições, onde disponibilizamos programas personalizados e multidisciplinares para o tratamento das adições, em regime de ambulatório ou com possibilidade de internamento. A nossa abordagem baseia-se num cuidado individualizado, no respeito pela dignidade de cada pessoa e numa visão holística da saúde mental e da patologia aditiva.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


Este artigo, voltado aos leitores portugueses, está disponível em diversos idiomas neste portal e também é válido e compreensível no Brasil.


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