Dados apresentados em estudo global também mostram falha em “frear” a progressão da doença.


Pela primeira vez foram apresentados os dados completos dos Estudos Evoke e Evoke+, que avaliaram o potencial da semaglutida – princípio ativo do Ozempic – na progressão do Alzheimer em 3.840 participantes de várias partes do mundo. Os resultados foram mostrados no início de dezembro do ano passado, durante o Clinical Trials in Alzheimer’s Disease (CTAD), em San Diego/EUA, na presença de pesquisadores de todas as partes do planeta, incluíndo o brasileiro Eduardo Zimmer, pesquisador do Hospital Moinhos de Vento e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS.

O estudo avaliou o potencial da semaglutida – princípio ativo do Ozempic – em 3.840 participantes do mundo. Embora os resultados da análise primária não tenham alcançado a significância estatística para o desfecho clínico principal (CDR-SB*), o estudo abre caminho para uma reavaliação dos dados e foca a atenção da comunidade científica nos resultados dos biomarcadores que, segundo comunicado oficial da Novo Nordisk – responsável pelo medicamento Ozempic –, apresentaram alterações positivas.

“O desfecho primário do estudo nos convida a um olhar crítico sobre as métricas utilizadas. Para uma doença de progressão lenta como o Alzheimer, talvez estejamos utilizando ferramentas clínicas pouco sensíveis para capturar os efeitos em um período de tempo limitado de 104 semanas. No entanto, o sinal positivo nos biomarcadores da doença de Alzheimer é um indicativo que não pode ser ignorado e precisa ser investigado”, destaca Zimmer, convidado da Novo Nordisk para participar do evento em San Diego no dia 3 de dezembro de 2025.

A alteração em biomarcadores de Alzheimer e de neuroinflamação no grupo de indivíduos que recebeu a semaglutida sugere a necessidade de uma investigação minuciosa desses dados. A pesquisa indicou que, apesar da não confirmação da superioridade no desfecho clínico, a droga se mostrou segura e bem tolerada, mantendo um perfil consistente a ensaios anteriores. Entretanto, a semaglutida não se mostrou eficaz na redução da progressão da Doença de Alzheimer.

Dentre os novos resultados apresentados, vale destacar a redução dos níveis liquóricos de p-tau, um marcador clássico da doença de Alzheimer, e de YKL-40, um marcador de neuroinflamação. Traduzindo: a redução desses dois marcadores sugere que a semaglutida está, em nível biológico, interferindo positivamente no mecanismo da doença de duas formas principais:

1. Reduzindo um marcador da patologia da doença de Alzheimer: a redução do p-tau indica que o tratamento pode estar reduzindo a patologia Tau — componente clássico da doença.

2. Reduzindo a inflamação: a redução do YKL-40 sugere que o medicamento pode estar diminuindo a inflamação no cérebro, um fator-chave que acelera a progressão da doença.

Em resumo, de maneira preliminar os resultados sugerem a queda nos dois biomarcadores. Isso pode ser interpretado como uma atenuação dos processos patofisiológicos do Alzheimer, mesmo que os efeitos diretos nos sintomas — o desfecho clínico principal — não tenham sido notados no período do estudo.

O resultado da análise detalhada dos biomarcadores será apresentado em março de 2026 na Dinamarca. “Essas novas análises nos permitirão entender a discrepância entre a resposta biológica e o desfecho clínico. É um bom caminho para futuras investigações, estudos de maior duração ou intervenções em fases ainda mais precoces da doença”, conclui Eduardo Zimmer.


*CDR-SB: acrônimo em inglês de “Clinical Dementia Rating – Sum of Boxes”, em tradução livre “Escala Clínica de Demência – Soma de Caixas”.


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


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