Reunindo estudos de vários especialistas, o livro “Ciência da Primeira Infância”, lançado nesta segunda-feira (26/05) no Insper, destaca a importância desse período na formação e na vida das pessoas. E alerta para as amplas consequências da desigualdade social.

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP


As desigualdades sociais começam muito cedo no Brasil – antes mesmo de a pessoa nascer. Fatores como classe social, renda, raça, escolaridade dos pais e local de moradia moldam precocemente o futuro. Esta é uma importante conclusão do livro Ciência da Primeira Infância (Edgard Blücher, 2025), que reúne estudos de vários especialistas, sob a coordenação do economista Naercio Menezes Filho, professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância (CPAPI). A obra será lançada hoje (26/05), às 16 horas, na sede do Insper.

“O livro enfoca a primeira infância a partir de vários ângulos, destacando que esse período, que vai da gestação até os 6 anos de idade, é de enorme importância na formação e na vida das pessoas. É um período de rápido desenvolvimento cerebral, em que as crianças adquirem habilidades de forma acelerada. Então, é fundamental que haja um desenvolvimento adequado, porque, caso contrário, vários aspectos futuros podem ficar comprometidos. Refiro-me a aspectos como habilidades motoras, capacidade de aprendizado, habilidades sociais, perseverança e outros”, diz Menezes Filho.

O pesquisador ressalta a importância de direcionar o olhar da ciência para essa fase da vida, que, até pouco tempo, não era tão estudada. “As pesquisas, geralmente, se concentravam no período seguinte à entrada da criança na creche ou pré-escola. Mas, agora, já temos um conhecimento multidisciplinar da fase anterior, que está ganhando relevo no mundo inteiro. E foi isso que buscamos reunir no livro.”

Menezes destaca a plasticidade epigenética da primeira infância. Vale dizer, a expressão significa a ativação ou o silenciamento de genes em decorrência de fatores ambientais e sociais, sem que haja modificação no código genético em si.

“Antes, havia uma compreensão distorcida que enfatizava, de forma unilateral, os determinantes genéticos ou sociais. Ou era a genética que determinava tudo, ou era a sociedade que determinava tudo. Hoje está claro que os dois fatores interagem. Boa ou má alimentação, sonos reparadores ou não, ausência ou presença de estresse e muitos outros fatores ambientais e sociais vão fazer com que determinados genes se expressem ou sejam silenciados. A convivência com o mundo não muda o código genético, mas condiciona a maneira como ele se manifesta. E é muito importante assegurar que as crianças possam ter a melhor experiência de convivência com o mundo.”

 

Ilustração conceitual de mutação genética (não necessariamente representa plasticidade epigenética, citada na matéria). Imagem: aloart / G I

 

Esta, porém, não é a realidade vivenciada por muitas crianças nascidas em famílias pobres. Com informações extraídas de grandes bancos de dados administrativos e de pesquisas recentes, o livro mostra que o país enfrenta uma condição de pobreza infantil que atravessa gerações. “A pobreza pode afetar o desenvolvimento infantil de várias maneiras. Ela é a ‘causa das causas’ dos fatores de risco”, resume Menezes Filho.

A análise detalha como a renda dos pais impacta não apenas as condições de vida imediatas da criança, mas também sua trajetória futura. Indivíduos que nascem em famílias pobres tendem a apresentar menor estatura, pior desempenho cognitivo, menos escolaridade, menor renda na vida adulta e maior probabilidade de maternidade/paternidade precoce. As estatísticas mostram que, entre as crianças nascidas nos 20% mais pobres da população, apenas 2,5% conseguem ascender ao grupo dos 20% mais ricos. Esse índice é três vezes menor do que o dos Estados Unidos, que está longe de ser um país igualitário.

“O capítulo do livro que trata de desigualdade e pobreza na primeira infância foi escrito por mim em parceria com Bruno Komatsu. E os dados com que lidamos são muito contundentes. O Brasil, infelizmente, é um dos campeões da desigualdade e da baixa mobilidade social. A futura inserção de classe de uma pessoa é fortemente determinada por sua inserção de classe no nascimento. Se você nasce em uma família pobre, vai ser muito difícil, vai ter de ultrapassar grandes barreiras, vai precisar lutar contra discriminação a vida inteira para poder ascender socialmente. Os dados mostram isso de várias maneiras, distinguindo renda, raça, região etc. A gente vê, por exemplo, que as crianças de famílias brancas e amarelas encontram sempre melhores condições do que as crianças negras e indígenas. É claro que há exceções, mas esta é a regra”, sublinha Menezes Filho.

Conforme dados divulgados em 30 de abril deste ano pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego do país no primeiro trimestre de 2025 foi a menor registrada no período desde o início da série histórica: 7%. Essa informação é muito auspiciosa, porque, como mostra o livro, o desemprego pode exercer um efeito devastador no ambiente familiar. Artigos de outros economistas citados no livro mostram que a perda do trabalho por um dos genitores reduz, em média, 45% da renda do domicílio dois anos depois. E uma série de graves consequências advém disso: aumento do abandono escolar, entrada precoce no mercado informal e crescimento da criminalidade juvenil.

 

Fonte: IBGE / Abril, 2025

 

“Os trabalhos de um grupo importante de economistas do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Pernambuco [Pimes-UFPE], por exemplo, mostram que, dois anos depois da demissão, a taxa de abandono escolar aumenta 6% e a taxa de distorção idade-série aumenta 18%”, informa Menezes Filho. Além disso, a convivência forçada no domicílio durante períodos de desemprego tende a aumentar significativamente os índices de violência doméstica.

Um dado bastante chocante apresentado por esses estudos é que o nascimento de uma criança em uma família carente pode ser o gatilho para a entrada dos pais no mundo do crime. “O nascimento de um filho aumenta a atividade criminosa do pai em 18% dois anos depois do nascimento e em cerca de 30% seis anos depois”, informam os estudos referindo-se a crimes com motivação econômica.

Todo esse cenário, por si bastante desafiador, pode ser ainda agravado por comportamentos discriminatórios, que interferem no desenvolvimento infantil no momento em que as crianças pequenas estão formando suas identidades. O racismo é um desses fatores. Crianças negras, mesmo sem sofrerem violência física, são frequentemente expostas a ambientes onde predominam imagens e discursos negativos sobre sua identidade. Essa exposição pode gerar sofrimento psíquico e levar ao estresse tóxico – um tipo de estresse prolongado que, segundo o estudo, está associado ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade na vida adulta.

“É preciso interromper o ciclo de transmissão de pobreza e desigualdades investindo hoje nas crianças que mais precisam”, enfatiza Menezes Filho. “O que nosso livro mostra é a necessidade de uma abordagem intersetorial e transdisciplinar. Cada capítulo enfoca um aspecto. E cada aspecto demanda medidas específicas. Então, não se trata de uma única política pública, mas de uma convergência de políticas públicas. Por exemplo, a diminuição da pobreza e o acesso ao consumo evoluíram muito, nos últimos 30 anos, graças a programas de transferências de renda, como o Bolsa Família. Assim, conseguimos avançar para tentar superar um gargalo que era a alta taxa de mortalidade infantil decorrente da desnutrição. Mas, agora, temos outro tipo de problema associado à alimentação, que é o crescimento do sobrepeso e da obesidade devido ao consumo de alimentos ultraprocessados – o que demanda uma política pública específica. É preciso ver o conjunto. E atuar em muitas frentes ao mesmo tempo”, conclui Menezes Filho.

Além de auxílios ou bolsas concedidos aos autores dos vários capítulos, e de auxílio para a formação do CPAPI – um Centro de Pesquisa Aplicada (CPA) também apoiado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal –, o livro recebeu apoio da FAPESP por meio da modalidade “Auxílio a Publicações Científicas”.

Com 226 páginas, a publicação pode ser acessada gratuitamente neste link ou clicando na imagem abaixo.

Livro: Ciência da Primeira Infância. Disponível gratuitamente na internet. Imagem: CPAPI / Divulgação

 


Destaque – Ciência da Primeira Infância. Imagem: CPAPI / Divulgação


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