Alguns locais onde os fatos ocorreram foram omitidos e as vozes modificadas para preservar a privacidade das vítimas que reclamam da polícia e da impunidade dos criminosos, já que o medo de assaltos, furtos e roubos é um estado de normalidade no Tatuapé.
Quando se trata do bairro que possui uma das taxas de seguros mais caras para automóveis no Estado, um fato que acende o sinal de alerta é o pagamento de pedágio para sair ou voltar para casa. Essa modalidade de segurança, oferecida por vigias com motos e sirenes, chega a ser bizarra.
Na região abrangida pelo 30º DP e 1ª Cia do 8º BPM/M, alguns moradores, amedrontados com notícias de roubos e furtos, pagam um vigia que se autodenomina “dono da área” e contrata outros para revezar com ele o serviço, que consiste em uma ligação e ele aparece tocando uma sirene para a pessoa entrar em casa, enquanto manobra o veículo ou as pessoas desembarcam, durante a noite ou de madrugada.
As autoridades têm conhecimento desse fato que remete a um tipo de máfia, que se aproveita dos pequenos delitos e desordens que assustam a população, assim como os furtos de automóveis, crimes patrimoniais e abordagens. Amedrontados, os moradores se submetem a pagamentos mensais. De acordo com informações recentes, variam de R$ 70 a R$ 100, dependendo do imóvel e da atividade.
Leia a entrevista com moradores
— A gente dá uma ligadinha para ele, para que ele possa pelo menos ficar no portão e dar uma olhadinha para nós. É que ele passa sempre… À noite ele passa, e às vezes acontecem coisas quando ele não está.
Durante a entrevista, essa observação chama atenção. Como assim, acontecem coisas?
— Acho que a gente tem que recorrer a isso porque não estamos tendo resposta. Parece que a polícia permite tudo isso, e isso acaba virando um sistema. — diz uma das moradoras.
— Às vezes eu preciso sair em determinado momento, e fico com medo de sair daqui. E eu não vou chamar a polícia para ficar me vigiando. — Completa a outra.
Argumentamos que não deveria ser assim.
— Exatamente. Aqui é um país onde não é o cachorro que faz xixi no poste; é o poste que faz xixi no cachorro. Está tudo ao contrário.
Já que estamos falando disso, você mencionou o país… Nós fizemos uma pesquisa em cinco países sobre o barulho que esses vigias fazem de madrugada O que vocês acham do barulho das sirenes?
— Eu, particularmente, não me incomodo com o barulho. Mas o barulho existe, a gente ouve. — Confirma a moradora.
— Sim. Eles colocam esse barulho para que a gente também saiba que eles estão passando. Mas, na verdade, a gente não deveria se preocupar com segurança. Segurança deveria ser uma obrigação do Estado. Como não temos isso, acabamos recorrendo a essas alternativas. É o que ela falou: na prática, pelo menos, ameniza. Porque, quando tem alguém de fora passando e vigiando, às vezes a gente se sente um pouco mais segura dentro de casa.
“Não sei se tenho mais medo dos bandidos ou da polícia” — diz outro entrevistado, morador da Chácara Santo Antônio no Tatuapé.
Expansão dos ‘negócios’
Entre policiais, o jargão é que, em apuros, a pessoa liga para a polícia e não para o bandido. Nas delegacias, barulho de vizinhos ou perturbação do sossego, como o das sirenes dos vigias noturnos, são tratados invariavelmente com esse mesmo tipo de despreparo ou insensibilidade.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) e a Polícia Civil, neste caso, o 30º DP, não dão explicações sobre o porquê de menosprezarem as reclamações e a própria lei quanto ao uso de sirenes ou sobre o porquê de não coibirem essa prática. É importante frisar que já existem leis específicas que regem o serviço de guarda de rua, mas não são respeitadas.
Com a impunidade perante a lei, vigias noturnos estão expandindo os negócios no Tatuapé. Diversas residências e empresas de uma área na Vila Gomes Cardim, próxima ao metrô Carrão, já ostentam placas novas do serviço que repete as mesmas contravenções penais, mas são ignoradas pelas autoridades.
Dentre as leis que regem o serviço de guarda de rua, é importante saber que o delegado titular de cada Distrito Policial é responsável pela fiscalização dos candidatos.
Destaque – Rua Coronel Mendonça, na Chácara Santo Antônio, Tatuapé: delinquência e crimes patrimoniais. Foto: aloimage



