Eduardo Rocha Bravim


Quem visita uma farmácia nos Estados Unidos pela primeira vez costuma ter a mesma sensação: a de estar entrando em um pequeno mercado. E essa percepção faz sentido. O modelo americano de farmácia é bastante diferente do brasileiro, especialmente quando analisamos o mix de produtos comercializados e o papel desse canal no cotidiano do consumidor.

No Brasil, a farmácia sempre esteve fortemente associada à saúde. O foco tradicional é a dispensação de medicamentos, genéricos, produtos de higiene e dermocosméticos. Mesmo com a ampliação recente do portfólio, o medicamento continua sendo o centro da operação. Nos Estados Unidos, a lógica é outra.

As grandes redes de farmácias funcionam como verdadeiros hubs de conveniência. Além de medicamentos com e sem prescrição, é comum encontrar alimentos, bebidas, snacks, produtos de limpeza, vitaminas, suplementos, itens sazonais, material escolar, cartões, presentes e até pequenos eletrônicos. Em muitos casos, a farmácia substitui aquela ida rápida ao supermercado.

Esse modelo faz com que o consumidor frequente a farmácia mesmo quando não está doente, criando um fluxo constante de pessoas e fortalecendo o ponto de venda como parte da rotina. A farmácia deixa de ser um local de compra eventual e passa a ocupar um espaço recorrente no dia a dia da população.

No Brasil, esse tema ganhou força recentemente com a discussão em torno da PL 2.158/2023, que trata da ampliação do rol de produtos que podem ser comercializados em farmácias e drogarias. O debate gera opiniões divergentes, mas também revela uma realidade importante: o setor farmacêutico brasileiro vive um momento de transformação.

Ao observar o modelo americano, fica claro que a diversificação de produtos não elimina o papel sanitário da farmácia. Pelo contrário, pode ampliar sua relevância, aumentar a frequência de visitas e fortalecer a sustentabilidade do negócio, desde que existam regras claras, fiscalização adequada e responsabilidade técnica.

Mais do que uma simples mudança comercial, essa discussão reflete uma pergunta maior: qual deve ser o papel da farmácia no cotidiano da sociedade moderna? Um estabelecimento restrito à dispensação de medicamentos ou um ponto integrado de saúde, conveniência e serviços?

Entender como outros mercados operam ajuda a qualificar esse debate no Brasil. Não se trata de copiar modelos, mas de aprender com experiências consolidadas e adaptar soluções à nossa realidade regulatória, econômica e cultural.


Eduardo Rocha Bravim – Especialista em biotecnologia farmacêutica, instrumentação analítica, controle de qualidade e supply chain científico com atuação internacional.

 


Destaque – Fachada da rede de farmácias Walgreens nos Estados Unidos. Foto: DCC Walgreens


Leia outras matérias desta editoria

A luta no gel do STF

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, lutando por um país...

A grande crise brasileira

Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, lutando por um país...

Mandato de 12 anos para ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de...

Nove minutos em Copacabana e a conta que nenhum candidato apresenta

Quatro homens executaram uma sentença de morte na calçada por suspeita de furto de bicicleta, e nenhum deles era policial. Enquanto os presidenciáveis prometem prisão perpétua e importam o rigor de outros países, ninguém explica quem paga a conta nem por...

Redes sociais explicam, em números, o poder do Caso Master em impulsionar crises políticas

Há algumas semanas, abordei em um levantamento o período de mais de um mês que torcida do Corinthians levou para produzir cerca de 43 mil menções à hashtag #FicaMemphis, nas redes sociais, e forçar o clube a reabrir uma negociação que já era tratada como...

Split payment deve ficar para 2028, mas o impacto no caixa começa agora

A previsão de que o split payment se torne obrigatório apenas em 2028 foi recebida por parte do mercado como um alívio. Eu faço uma leitura diferente: as empresas ganharam mais tempo para se preparar, mas isso não significa que possam adiar a preparação. A...

Brasil medieval

Esta não é uma história de ficção; é baseada em fatos reais. A temida Inquisição (séc. XII e XIII) da Idade Média queimava pessoas vivas. Quando não havia provas para condená-las, alegava-se bruxaria ou curandeirismo. A partir do séc. XV, já na Idade...