Um morador da região da Vila Gomes Cardim, que está próxima ao Centro Esportivo Tatuapé e à estação Carrão do metrô, relatou à nossa reportagem como a população local tem lidado com a questão da segurança.


Proprietário de uma empresa no bairro, ele contou que um sistema de vigilância privada semelhante ao existente em áreas próximas começou a ser adotado também naquela região. Consiste em instalar placas nas fachadas de imóveis indicando a presença do serviço. O modelo segue o mesmo padrão existente na Chácara Santo Antônio, subdistrito vizinho, também no Tatuapé: vigias circulam de motocicleta e utilizam sirenes nas motos.

O barulho alcança 120 decibéis, o que é proibido, e caracteriza perturbação do sossego. Portanto, o remédio sai mais amargo do que precisaria ser.

Em pleno século XXI, após mais de cem anos de avanços tecnológicos, moradores ainda precisam recorrer a métodos semelhantes aos utilizados no início do século passado para tentar garantir proteção devido às falhas na segurança pública e aumento da criminalidade. Em muitos casos, pagam mensalidades a vigias para se sentirem mais seguros quando saem à noite ou voltam para casa.

Relato de quem vive na região

“Eu já estou aqui há mais de 20 anos. O pessoal faz uma vigilância com essas placas novas que você vê na rua. Os caras são gente boa. Eu mesmo tenho seguro, mas também colaboro com eles. Pagamos cerca de 70 reais por mês. É um valor pequeno e, querendo ou não, ajuda.

Porque, quando o ladrão vê a placa de vigilância, ele já pensa duas vezes. Ladrão também não é trouxa. Prefiro manter amizade com o pessoal que trabalha aqui e garantir um pouco mais de segurança.

À noite, eles circulam de moto pela rua e às vezes usam uma sirene. Isso acaba mostrando presença. Tem gente que reclama do barulho, porque acorda durante a noite, mas eles dizem que fazem isso para assustar ladrão, porque o bandido acha que pode ser polícia.

O problema maior, na verdade, é a segurança da região. Hoje não é mais como antigamente. Já roubaram o carro de um cliente meu às duas horas da tarde. Em três minutos, o carro tinha sumido.

A polícia até aparece, mas isso não resolve tudo. O problema é que muitas vezes prendem o cara e depois ele acaba sendo solto. Se for menor de idade, então chamam a família e mandam embora. A própria polícia comenta isso.

Estão roubando bastante coisa por aqui: correntinha, aliança, essas coisas. Depois que o metrô chegou, melhorou muito o transporte, claro, mas também trouxe muita gente de fora. Infelizmente, junto com quem vem trabalhar, também chega gente que vem para cometer crime.

Quem mora aqui há muito tempo consegue perceber quando a pessoa não é da região. O pessoal do bairro se conhece. Muitas vezes, só de olhar, você percebe que não é alguém daqui.

Por isso, muita gente acaba recorrendo a esse tipo de vigilância de rua. É um dinheiro pequeno e ajuda a dificultar a vida de quem quer roubar. Porque o bandido procura sempre o lugar mais fácil.

Hoje em dia, para falar a verdade, segurança no Tatuapé não existe mais. Mas qualquer coisa que ajude a inibir já faz diferença.”

Estatísticas mostram que os roubos e furtos só estão aumentando em vez de diminuir

Diante da percepção de que o policiamento não consegue atender plenamente às demandas da região, alguns moradores acreditam que qualquer iniciativa que aumente a sensação de segurança acaba sendo aceita.

Entretanto, especialistas apontam que o uso de sirenes e outros recursos que perturbam o sossego público não representa uma solução adequada. Em vez de investir em tecnologia e métodos modernos de monitoramento, práticas antigas continuam sendo utilizadas, com o agravante da tolerância de autoridades locais.

Essa realidade tem sido relatada por moradores e apresentada às autoridades. Tentativas de contato para esclarecimentos sobre a situação não recebem retorno.

Enquanto isso, o aumento da criminalidade na cidade e no Estado continua sendo um desafio enfrentado pelo Governo, pelo comando da Polícia Militar e pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.

Série de reportagens

O portal AT Notícias e ASP News iniciou uma série de reportagens para mostrar a realidade vivida pelos moradores do Tatuapé. A iniciativa busca retratar, sem distorções, a percepção de insegurança no bairro e investigar possíveis relações entre o crescimento desse tipo de vigilância privada, a tolerância das autoridades locais, o aumento da criminalidade e o medo presente entre os residentes.


Imagem: aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

Tatuapé e outros bairros vivem ‘indústria da insegurança’: sirenes noturnas, cobranças irregulares e crimes em série revoltam moradores

Moradores do Tatuapé, Vila Gomes Cardim e Chácara Santo Antônio denunciam um cenário alarmante: enquanto crimes como furtos e invasões continuam acontecendo, vigias noturnos utilizam sirenes de alta intensidade durante toda a madrugada e cobram para fazer...

Alta nos índices de furtos e roubos no Tatuapé coincide com expansão de comércio da insegurança

Aumento de furtos e roubos no Tatuapé impulsiona a atuação de vigias noturnos informais, venda de alarmes residenciais e uso de sirenes em serviços de vigilância no bairro. O Tatuapé registrou 1.089 furtos e roubos em 2024 e viu os índices crescerem mais...

Vigias noturnos informais com sirenes irregulares levantam debate sobre segurança e perturbação do sossego no Tatuapé

Atuação em São Paulo e no Tatuapé levanta questionamentos legais, uso irregular de sirenes e riscos à população. O uso de sirenes está cada vez mais irritante em uma cidade onde o que menos falta é barulho. Imaginar que, durante as noites e madrugadas,...

Processo sobre vigias noturnos levanta controvérsia na interpretação da lei e análise de provas em São Paulo

Caso envolvendo vigias noturnos em São Paulo expõe debate jurídico sobre perturbação do sossego, análise de provas e aplicação da legislação. Apesar da demora na tramitação do inquérito, que teve início em dezembro de 2022 e só foi concluído no dia 27 de...

Análise da evolução dos crimes na área do 30º DP entre 2014 e 2025

Por meio das informações da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), este levantamento demonstra que, de maneira geral, nos últimos 11 anos, houve queda nos crimes violentos. No entanto, ocorreu um crescimento superior a 100% nos furtos, ou...

Governo de SP responde a algumas questões sobre segurança no Tatuapé em área da 5ª Delegacia Seccional

Um dos questionamentos enviados à assessoria de comunicação governamental se refere ao aumento da criminalidade no bairro Tatuapé e imediações. Apesar das elucidações, algumas questões ainda estão sendo elaboradas para envio ao Governo do Estado,...

Crescimento do Tatuapé trouxe desenvolvimento e aumento das preocupações com segurança

Demandas por mais policiamento e por uma administração própria acompanham a evolução do bairro desde os anos 1990 e seguem presentes no debate público local. O crescimento urbano e econômico do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, também trouxe desafios...