A professora Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), levou ao centro do debate nacional uma das pesquisas biomédicas mais promissoras do país: a polilaminina.
Durante participação no programa Roda Viva (saiba mais e assista à entrevista completa), exibido na segunda-feira (23/2), a cientista explicou de forma didática o funcionamento da substância, comparando sua estrutura a um “colar de pérolas”. A polilaminina é uma versão sintetizada em laboratório da laminina, proteína essencial da matriz extracelular, utilizada em pesquisas para estimular o crescimento e a regeneração de neurônios.
Segundo Tatiana, a descoberta ocorreu a partir da observação da forma como fragmentos da laminina — normalmente comercializados para uso em cultura celular — se associavam espontaneamente. A imagem lembrava um colar formado por pequenas pérolas.
A partir dessa observação, surgiu a pergunta científica central: a estrutura organizada teria funções diferentes das partes isoladas?
Testes em laboratório e em modelos animais indicaram que sim. A nova configuração demonstrou potencial superior na estimulação neuronal, abrindo caminho para aplicações experimentais em pacientes com lesão medular.
Aplicações clínicas e responsabilidade pública
Durante o programa, foram discutidos aspectos técnicos da pesquisa, indicações clínicas, judicialização do acesso ao tratamento, patentes, financiamento científico e os desafios da transferência de tecnologia no Brasil.
A pesquisadora também acompanhou o depoimento de um paciente beneficiado pelos testes experimentais. Ao mesmo tempo, fez um alerta à população sobre possíveis tentativas de fraude: Medicamentos experimentais não podem ser cobrados.
Ela esclareceu que a polilaminina está sendo fornecida gratuitamente pelo laboratório Cristália, reforçando que não há qualquer cobrança pelo tratamento experimental.
Popularização da ciência e defesa da universidade pública
Apesar da intensa exposição midiática após a repercussão da polilaminina, a professora Tatiana Sampaio afirma que nunca buscou protagonismo pessoal. Para ela, a visibilidade em torno da pesquisa acabou se transformando em uma oportunidade estratégica para ampliar o debate sobre o papel da ciência no desenvolvimento do país.
A pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro avalia que o momento é decisivo para discutir de forma mais profunda a necessidade de financiamento contínuo e estável à pesquisa científica, condição essencial para que descobertas avancem com segurança e consistência. Na mesma linha, defende a valorização da universidade pública como eixo estruturante da produção de conhecimento e da inovação tecnológica no Brasil.
Entraves burocráticos
Segundo ela, também é fundamental enfrentar entraves burocráticos que frequentemente retardam estudos, testes clínicos e a transferência de tecnologia. Além disso, consolidar políticas públicas que reconheçam a ciência como instrumento estratégico para o desenvolvimento nacional.
Nesse contexto, a projeção alcançada pela polilaminina ultrapassa a dimensão individual e se insere em um debate mais amplo sobre soberania científica e futuro econômico do país.
Logo no início do programa, Ernesto Paglia relatou que a própria cientista pediu que a entrevista não fosse uma sessão de elogios, mas um espaço de questionamento qualificado — postura que reforça seu compromisso com a ciência pública e com a transparência.
Prêmio Nobel
Apontada por parte da comunidade acadêmica como uma possível candidata brasileira ao Nobel, a professora Tatiana Sampaio mantém o foco na pesquisa e na consolidação de evidências científicas antes da ampliação do uso clínico da substância.
A metáfora do “colar de pérolas” tornou-se símbolo não apenas de uma descoberta laboratorial, mas da capacidade da ciência brasileira de transformar observação, método e persistência em esperança concreta para pacientes.
Com as informações da UFRJ
Frasco de Laminina do laboratório Cristália. Foto: Divulgação / + aloart / G.I.



