Rico Araújo


Por muito tempo, campanhas digitais negativas eram vistas como ações artesanais, dependentes de esforço humano intenso, coordenação manual e alcance limitado. Atualmente, a combinação de inteligência artificial e automação transformou esse cenário. Narrativas negativas podem ser escaladas com velocidade, precisão e personalização, tornando disputas de reputação operações de grande escala, quase industriais.

O caso recente envolvendo o Banco Master, atualmente objeto de investigações conduzidas pela Polícia Federal, com autorização do Supremo Tribunal Federal, trouxe à tona discussões relevantes sobre o uso de tecnologia e automação em campanhas coordenadas de influência no ambiente digital. Mais do que uma questão jurídica específica, o episódio evidencia um problema estrutural: a combinação entre dados, automação e inteligência artificial permite moldar percepções e influenciar a opinião pública de forma altamente orquestrada, enquanto sociedade, empresas e instituições ainda enfrentam dificuldades para compreender, monitorar e responder a esse novo tipo de dinâmica digital.

Ferramentas de IA generativa permitem criar grandes volumes de conteúdo em minutos, como textos, roteiros, comentários e até vídeos, ajustados para diferentes públicos, plataformas e contextos emocionais. Uma mesma mensagem pode ser reescrita dezenas de vezes, com variações de tom e vocabulário, atingindo audiências distintas sem revelar coordenação centralizada. O resultado é que a percepção de consenso ou de opinião espontânea se torna artificial, minando a confiança pública em informações legítimas.

A automação funciona como o motor dessas operações: sistemas programados distribuem conteúdo estrategicamente, respondem interações, amplificam temas e mantêm presença constante. Para observadores externos, a narrativa parece natural, mas na prática é uma operação cuidadosamente orquestrada. Esse efeito é potencializado por deepfakes, textos sintéticos e perfis digitais simulados. Criar identidades online com histórico e padrões de interação realistas tornou-se trivial, tornando quase impossível detectar campanhas coordenadas.

Segundo o Identity Fraud Report 2025–2026, ataques envolvendo deepfakes cresceram 126% no Brasil em 2025, com 39% dos casos detectados na América Latina concentrados no país, afetando fintechs, bancos e plataformas de apostas online. O crescimento explosivo desses ataques evidencia que a manipulação digital não é um risco futuro, mas uma realidade que já impacta diretamente setores estratégicos e a confiança do público.

Mais do que volume, automação e IA oferecem eficiência estratégica. Algoritmos identificam discursos que geram engajamento, gatilhos emocionais mais efetivos e formatos mais compartilháveis. Assim, a narrativa é otimizada em tempo real, como qualquer campanha de marketing orientada a performance, mas com foco em influência e reputação, e com consequências que podem ser desastrosas para empresas, reguladores e sociedade.

Sete em cada 10 brasileiros já viram alguma notícia falsa, de acordo com pesquisa realizada pelo DataSenado. Quando perguntados sobre o motivo para a disseminação de notícias falsas, 31% acreditam que quem compartilha esse tipo de notícia quer mudar a opinião dos outros, enquanto 30% apontam desconhecimento sobre a veracidade da informação. Esses números mostram que a desinformação não é apenas tecnológica: ela se alimenta de comportamentos humanos, crenças e hábitos de consumo de conteúdo digital, tornando o impacto ainda mais difícil de conter.

Diante disso, organizações que ignoram essa dinâmica estão cometendo um erro estratégico grave. Não se trata apenas de subestimar ataques isolados ou “fake news”, mas de falhar em compreender um ecossistema tecnológico que manipula percepções em escala. A mesma tecnologia usada para engajar consumidores pode ser usada para desgastar marcas e instituições, criando um campo de batalha digital em que apenas quem domina as ferramentas, entende os algoritmos e age de forma estratégica terá vantagem.

No ambiente digital contemporâneo, narrativa deixou de ser apenas comunicação: tornou-se infraestrutura crítica. Casos como o do Banco Master mostram que empresas e instituições que não investirem em monitoramento avançado, inteligência digital e capacidade de resposta estruturada estarão permanentemente atrás de operações automatizadas. A pergunta não é se a IA já atua nesse campo, mas quem está preparado para enfrentar essa realidade e assumir responsabilidade ética e estratégica pelo impacto de suas ações digitais. Ignorar esse cenário não é neutralidade tecnológica, é abdicar de responsabilidade estratégica.


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


Rico Araujo – Especialista no desenvolvimento de projetos que integram marketing e inovação estratégica e conselheiro de Inovação.


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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