Luís Garcia


O Carnaval de 2026 talvez não entre para a história apenas pelos blocos, pelas marchinhas ou pelas fantasias criativas feitas às pressas. Ele pode ser lembrado, com certa melancolia, como o último Carnaval antes da engrenagem da reforma tributária atropelar os foliões.

Daqui a alguns anos, é bem possível que alguém diga, segurando uma cerveja cara demais: “lembra de 2026?”. E não será saudade apenas da música boa ou do bloco animado. Será saudade de um tempo em que o imposto ainda não tinha chegado à festa com tanta intimidade.

O imposto que prometeu não atrapalhar

Oficialmente, a história é linda. A reforma não aumenta carga, as alíquotas iniciais são simbólicas, “ninguém vai sentir nada”. É o mesmo discurso de todo anfitrião que garante que “é só uma reuniãozinha” — até aparecerem 40 pessoas, a conta estourar e ninguém sugerir dividir a conta.

Na prática, 2026 inaugura o período de 8 anos em que o empresário passa a conviver com dois sistemas tributários concomitantes. O antigo, que já era ruim, e o novo, que ainda ninguém sabe exatamente como vai funcionar. Isso gera custo, insegurança e precificação defensiva. O nome técnico é “transição”. O nome real é futuro incerto.

Carnaval passou e o bloco do Fisco ficou

Bares, blocos e eventos sempre foram parte do folclore nacional. Agora, passam a integrar também o radar prioritário do Fisco. Dinheiro circulando rápido, contratos informais, margem curta e muita visibilidade. Para a administração tributária, isso não é festa — é oportunidade.

Quem ainda acha que dá para empurrar a discussão tributária com a barriga está apostando alto. Contratos, preços e modelos de negócio já estão sendo revistos. Não porque a alíquota cheia chegou, mas porque ninguém precifica no Brasil olhando só a lei; precifica-se também com medo de um passado tributário que nunca foi generoso.

A cerveja da alegria e o imposto do pecado

Falando em histórico, vale mencionar o Imposto Seletivo, esse tributo criado com a atípica missão de “desestimular comportamentos nocivos”. Bebidas alcoólicas estão no centro desta nova taxação. Hoje, o discurso é cauteloso, politicamente correto, voltado a saúde pública e a responsabilidade social. Mas temos, claramente, mais um viés arrecadatório. O consumidor começará a sentir aos poucos, entre 2027 e 2029, quando o imposto já estiver plenamente operacional — e ninguém mais lembrar da promessa inicial de moderação.

No Brasil, imposto seletivo raramente envelhece bem.

A nostalgia não é exagero

Quem acha exagero precisa fazer um pequeno exercício de memória recente. Durante décadas, a não tributação de dividendos foi tratada como uma espécie de cláusula cultural do sistema tributário brasileiro. Um tabu. Uma barreira.

Até o dia em que deixou de ser em 2025 – estando a pleno vapor em 2026.

Primeiro veio o discurso: “é só para os muito ricos”. Depois virá a normalização. O precedente está dado. Barreiras conceituais, quando começam a atrapalhar a arrecadação, não resistem muito tempo.

A locação de imóveis, o entretenimento e o consumo popular seguem agora a mesma lógica. Hoje dizem que não é com você. Amanhã, afirmam que sempre foi.

Desfile realizado

Nada disso impediu o Carnaval. O brasileiro sempre dá um jeito de festejar — mesmo com imposto alto, mesmo com regra confusa, mesmo com boleto vencendo.

Mas talvez seja prudente lembrar o Carnaval de 2026 com um certo espírito nostálgico. Ele pode ser lembrado como aquele Carnaval em que o imposto ainda não tinha descido do trio elétrico. Depois, a festa vai continuar, só que mais cara.


Luís Garcia é advogado tributarista, formado em Direito pela USP e em Administração pela FGV. Especialista em governança e compliance.


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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