Gerson Soares


A corrupção não é um fenômeno episódico no Brasil, tampouco um desvio isolado de conduta. Ela se consolidou como uma doença crônica do Estado, afetando diretamente o cotidiano da população e impondo entraves persistentes ao desenvolvimento nacional. Nos últimos anos, esse quadro tornou-se ainda mais visível, especialmente sob governos alinhados ao lulismo, seus aliados políticos e setores do Judiciário, que passaram a conviver com denúncias sucessivas sem o devido enfrentamento institucional.

Não se trata de absolver erros cometidos por forças políticas de centro ou de direita, nem de atribuir exclusivamente aos últimos 21 anos de governos lulistas todos os males da República. Contudo, é impossível ignorar que, nesse período, a corrupção deixou de ser exceção para assumir contornos de método, infiltrando-se de forma sistêmica nas engrenagens do poder.

A história recente ajuda a contextualizar esse processo. Décadas atrás, o país enfrentou um modelo de crescimento baseado em forte endividamento público, impulsionado por investimentos estatais que ampliaram o parque industrial, mas deixaram como herança uma dívida expressiva. Somaram-se a isso crises internacionais, como o choque do petróleo, além de graves problemas internos, entre eles censura, autoritarismo e abusos de poder.

O Brasil também atravessou um dos períodos econômicos mais turbulentos de sua história, marcado por inflação anual de quatro dígitos. A estabilização monetária, alcançada com a implantação do real, representou um divisor de águas. Foi nesse cenário de maior previsibilidade econômica que Lula assumiu seu primeiro mandato, em 2004, herdando um país com inflação controlada e bases macroeconômicas relativamente sólidas.

Desde então, com a exceção do período entre 2019 e 2022 durante a gestão do presidente Jair Bolsonaro com o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, quando houve um esforço de reequilíbrio fiscal e estabilidade econômica, o Brasil tem sido governado sob a lógica do lulismo. Paralelamente, multiplicaram-se escândalos de corrupção de proporções inéditas na história republicana, como o Mensalão, o Petrolão e casos mais recentes envolvendo a Previdência Social e instituições financeiras conectadas ao Banco Master.

As Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) e as Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito (CPMIs) atualmente em curso vêm lançando luz sobre aquilo que já era amplamente suspeitado: um vasto emaranhado de interesses que alcança setores do alto escalão governamental e se espalha pelos subterrâneos da política nacional. As evidências reforçam a percepção de que a corrupção não apenas persiste, como se adapta e se protege.

O aspecto mais alarmante, contudo, é a naturalização desse processo. Decisões tomadas por autoridades de cúpula frequentemente resultam na blindagem de aliados, no esvaziamento de investigações, na resistência à quebra de sigilos e, em muitos casos, na completa impunidade. Tudo isso ocorre à vista da sociedade, exposto nas redes sociais e no noticiário, sem que se perceba constrangimento ou senso de responsabilidade pública.

O Brasil encontra-se, metaforicamente, hospitalizado. A corrupção e o crime corroem suas instituições e comprometem o futuro coletivo. O tratamento é complexo, doloroso e exige coragem política, independência institucional e pressão da sociedade. A cura não será imediata, mas abandonar o paciente definitivamente não é uma opção.


Gerson Soares – Jornalista e escritor.


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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