Rosana Valle


Confiança é o principal patrimônio de qualquer Tribunal. Sem ela, decisões perdem autoridade, sentenças ficam sem legitimidade e a Justiça deixa de cumprir sua função essencial. É por isso que os fatos revelados recentemente sobre o Banco Master, liquidado em novembro de 2025 pelo Banco Central em meio à acusação de fraude bilionária, não podem ser tratados como mais um episódio do noticiário.

O que mais preocupa, hoje, não é, tão somente, a dimensão deste, que é o maior escândalo financeiro da história republicana brasileira, mas o conjunto de informações que passou a levantar dúvidas sobre a condução por parte do Supremo Tribunal Federal (STF) — que está à frente do processo.

Reportagens apontam que o ministro Dias Toffoli, da Alta Corte, avocou para si o inquérito e passou a concentrar decisões relevantes, muitas delas monocráticas e sob sigilo — o que gerou questionamentos da comunidade jurídica e até mesmo desconforto dentro do próprio Supremo. Segundo apurações da Imprensa, o magistrado restringiu o acesso a provas e indicou procedimentos considerados atípicos na condução da perícia de possíveis provas.

Há, ainda, reportagens que revelam relações indiretas entre familiares de Toffoli com um empreendimento que recebeu investimentos ligados ao entorno do principal investigado do caso, o empresário Daniel Vorcaro, diretor-presidente do Banco Master.

Outro fato divulgado recentemente que chama a atenção da nação diz respeito a uma viagem do ministro do STF em aeronave privada na qual também estava um advogado ligado ao Master — isso, logo após a distribuição do processo ao Gabinete de Toffoli.

Que fique claro: nenhum desses fatos, isoladamente, constitui prova de irregularidade. Porém, há de se considerar que o conjunto da obra produz algo que nenhuma Democracia deve ignorar: uma dúvida legítima sobre imparcialidade. Ora, cada decisão tomada por um magistrado sob suspeita leva à deterioração da credibilidade na própria Corte. E, quando a Justiça perde a confiança da população, todo o sistema democrático fica em risco.

Toffoli não resistiu à pressão e deixou a relatoria do caso, no último dia 12. Contudo, não se livrará das rusgas de seus atos e poderá responder, no Parlamento, a processo de afastamento, por possível crime de responsabilidade.

Como deputada federal em segundo mandato, eleita para representar milhões de brasileiros, entendo que, quando surgem fatos que colocam em dúvida a atuação de um ministro da Alta Corte, não há espaço para omissão. Por isso, estou entre os parlamentares que assinaram o pedido de Impeachment — instrumento constitucional do Estado Democrático de Direito — de Toffoli.

O Senado Federal, a quem cabe a prerrogativa do impedimento de integrantes da Mais Alta Corte do País e que tem o poder constitucional para agir, precisa, agora, exercer sua função com independência, coragem e compromisso com a Constituição Federal.

A Imprensa tem o dever de investigar e de informar com independência. Ao Parlamento, cabe a obrigação de fiscalizar e de interferir sempre que necessário. E à sociedade, resta o direito de exigir transparência e responsabilidade de todos esses atores sociais. A Democracia, não nos esqueçamos, exige vigilância permanente.

 


Rosana Valle – Deputada federal pelo PL-SP, em segundo mandato; presidente da Executiva Estadual do PL Mulher de São Paulo; jornalista por formação há mais de 25 anos; e autora dos livros “Rota do Sol 1 e 2”.


Destaque – Imagem: aloart / G.I. / IA image


Leia outras matérias desta editoria

Mandato de 12 anos para ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de...

Nove minutos em Copacabana e a conta que nenhum candidato apresenta

Quatro homens executaram uma sentença de morte na calçada por suspeita de furto de bicicleta, e nenhum deles era policial. Enquanto os presidenciáveis prometem prisão perpétua e importam o rigor de outros países, ninguém explica quem paga a conta nem por...

Redes sociais explicam, em números, o poder do Caso Master em impulsionar crises políticas

Há algumas semanas, abordei em um levantamento o período de mais de um mês que torcida do Corinthians levou para produzir cerca de 43 mil menções à hashtag #FicaMemphis, nas redes sociais, e forçar o clube a reabrir uma negociação que já era tratada como...

Split payment deve ficar para 2028, mas o impacto no caixa começa agora

A previsão de que o split payment se torne obrigatório apenas em 2028 foi recebida por parte do mercado como um alívio. Eu faço uma leitura diferente: as empresas ganharam mais tempo para se preparar, mas isso não significa que possam adiar a preparação. A...

Brasil medieval

Esta não é uma história de ficção; é baseada em fatos reais. A temida Inquisição (séc. XII e XIII) da Idade Média queimava pessoas vivas. Quando não havia provas para condená-las, alegava-se bruxaria ou curandeirismo. A partir do séc. XV, já na Idade...

Corrupção: a conta que o Brasil não pode mais pagar

É impressionante como temos, constantemente, nos governos dos partidos de esquerda — que dirigem o país há cerca de 17 anos e meio —, escândalos que contribuem para nos colocar entre os países mais corruptos do mundo, conforme dados da Transparência...

Lula e Flávio faltam a debate na Band; Zema cancela participação em cima da hora

Se a questão era evitar os desgastes em confronto com questões sensíveis, o não comparecimento deixa em aberto uma lacuna de credibilidade. Antes de quaisquer análises, a ausência de três presidenciáveis comprova o distanciamento que ainda existe entre as...