Pandemia de COVID-19: não é a primeira, nem a última


Domingo | 14 de junho, 2020 | 08h48


Durante a I Guerra Mundial, o H1N1 ceifou milhões de vidas, com prejuízos na área econômica e lucros para a saúde: “Será que isso mudou na atual pandemia da COVID-19?”, questiona o infectologista Adilson Westheimer.

O coronavírus tem aparência de coroa no microscópio (daí o nome), mas efeito avassalador na realidade. Em dezembro de 2019, a China notificou a Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre uma síndrome respiratória aguda grave causada pela nova mutação do vírus. Em menos de quatro meses, a chamada “COVID-19” já tinha causado uma pandemia, com mais de um milhão de infectados e aproximadamente cinquenta mil mortos.

Durante esse avanço, o mundo foi obrigado a se reinventar. “Sem vacinas nem tratamento farmacológico específico, o cenário é preocupante. O impacto na economia mundial, bem como o número de vítimas fatais ainda não são mensuráveis, pois o pico da pandemia não chegou”, analisa dr. Adilson Westheimer, médico infectologista coordenador do Departamento Científico de Infectologia da Associação Paulista de Medicina (APM).

Segundo o especialista, o problema é que os vírus têm a capacidade de modificarem seu material genético, podendo fazer surgir novas doenças de difícil combate. No caso da COVID-19, especula-se que a origem tenha vindo de morcegos que infectaram outros animais selvagens, os quais, por sua vez, contaminaram o homem. Mas, essa não é a primeira pandemia a assolar o globo e, felizmente, muitas lições ficaram das últimas tragédias.

 

O globo já enfrentou várias pandemias mundiais. Provavelmente a COVID-19 não será a última. Foto: divulgação / APM

 

Peste negra (século XV)

Uma das mais conhecidas doenças da história, a peste negra, causada por uma bactéria transmitida por pulgas de ratos, ceifou a vida de, pelo menos, um terço de população mundial (aproximadamente 200 milhões de mortes).

“Naquela época, os médicos usavam roupas e máscaras especiais e utilizavam facas de até 1,8 m de comprimento para tratar das feridas dos enfermos sem se contaminarem. Foi um acontecimento que transformou a sociedade europeia em termos econômicos, sociais e religiosos”, conta dr. Westheimer.

Gripe espanhola (anos 20)

Já a gripe espanhola, causada pelo vírus Influenza H1N1, causou 50 milhões de óbitos e 500 milhões de pessoas infectadas, especialmente jovens adultos. Por ter acontecido concomitantemente à Primeira Guerra Mundial, a mídia não deu tanta atenção ao problema. Não havia vacina nem tratamento para gripe. As medidas de isolamento social e boa higiene deram prejuízos para o setor econômico de entretenimento e lucros para o da saúde. O infectologista questiona: “Será que isso mudou na atual pandemia da COVID-19?”.

Gripe suína (2009)

Mais recentemente, o mundo enfrentou a pandemia de Influenza A H1N1, onde estimam-se 575 mil óbitos e 1,4 bilhão de infectados. O vírus, cuja origem veio dos porcos, adaptou-se bem aos seres humanos. “Felizmente, já havia um antiviral para tratamento específico e, em questão de poucos meses, foi desenvolvida uma vacina eficaz”, destaca dr. Westheimer.

Atualmente, apesar da pandemia estar sobre controle, o vírus continua circulando como uma doença sazonal, matando aproximadamente 650 mil pessoas por ano. Para o especialista, esses não são números desprezíveis.

O que tirar de lição de tudo isso?

“Apesar dos avanços da medicina e da tecnologia nos últimos anos, devemos respeitar a natureza e nos preparar para mudanças que podem acontecer de tempos em tempos”, opina o infectologista. Segundo ele, uma sociedade mais organizada com investimentos em condições sanitárias, educação e segurança, controle do crescimento urbano e fiscalização adequada do desmatamento das florestas, são essenciais para essa prevenção. “Ainda assim, as pandemias sempre serão um grande desafio”, pontua.

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